Grandes mulheres, pequenos negócios

Publicado em 28 de abril de 2016 por - artigos

          Desde os primeiros séculos da colonização vemos mulheres à frente de pequenos negócios. Elas não só sustentavam suas casas, mas, ao contrário do que se acreditou por muito tempo, eram visíveis nas cidades. Estalajeiras que “davam de comer em suas casas”, costureiras, tecedeiras, as que “tinham casa de vender coisas de comer e outras mercadorias”, “mestras de ensinar moças a lavrar e cozer”, além de taverneiras, aparecem na documentação da Inquisição em suas visitas a Salvador e Recife.

           Padeiras? Muitas. Na Salvador do século XVII, certa Domingas Simões Pinheiro era “juíza das padeiras”, por ser a mais antiga da cidade. Ali, uma relação de contribuintes do ano de 1648 traz o nome de nove mulheres donas de tavernas, padarias e vendas. Em São Paulo, onde se plantava trigo, a Câmara Municipal ameaçava aquelas que adulteravam o pão, misturando-lhe à massa farinha de mandioca e de milho branco. Na mesma cidade, padeiras mantinham constante litígio com as Câmaras que controlavam o peso e o preço do pão. E elas recorriam às greves, petições, protestos e embustes para manter seus negócios e controlar, à sua maneira… o peso e o preço do pão!

          O comércio local de comestíveis, tanto os produtos da terra quanto os vindos do Reino, era sobrecarregado de taxas e impostos e, por isso, manipulado por toda uma hierarquia de pequenos e grandes funcionários, além dos mercadores com disponibilidade para atravessar e estocar produtos como sal, farinha e aguardente, podendo, assim, especular em momento de crise. A disputa entre facções locais deixava ampla margem às desordens e ao contrabando, não só em São Paulo, mas em outras capitanias também.

         Estudos revelam que foi no correr do século XVII que começou a aumentar o número das chamadas “escravas de ganho”. Eram negras e mulatas que inundavam as cidades com comércio ambulante de doces, pães e bolos ou rendas e bordados, “por uma tutameia”, como se dizia então, além de tecidos baratos e miudezas de todo o tipo, entregando aos seus donos – muitos deles, mulheres também –, o ganho do dia e recebendo em troca um percentual. Pelo desembaraço com que se movimentavam pelas ruas, essa atividade ameaçava as donas de tendas e pequenos negócios em pontos fixos, de resto sujeitas às posturas municipais.

         Mas ao longo do século XVIII a oferta de produtos se diversificou. Em 1769, as autoridades se preocupavam com as negras que antes vendiam “frutos, legumes e doces”, mas que a partir de 1751 foram autorizadas a oferecer também “panos brancos e quinquilharias” e que incorporaram “algumas fitas de seda, fazendas de algodão da índia de cores, Bretanha e aniagem”. A nobreza ou riqueza de muitos donos protegia os escravos de fiscalização ou de perseguição das autoridades, desejosas, elas também, de sua parte no lucro.

         A legislação metropolitana assegurava, aliás, exclusividade da mão de obra feminina no comércio ambulante de: “Toda sorte de comestíveis pelo miúdo, como também vinhos e aguardentes”, além de “alféolas, obreias, jarfelim, melaço e azeitonas”. A esses produtos se somaram outros: hortaliças, queijo, leite, hóstias, agulhas e alfinetes, roupas velhas e usadas. A esse comércio que intermediava produtos se dava o nome de “carambola”. O objetivo? Destinar às mulheres pobres um “exercício honesto e precisa sustentação” para que pudessem viver desses “pequenos tráficos”.

        Sim, pois havia muitas, livres e escravas, que vendiam seu corpo também. A prostituição podia ser ensejada por senhores ou praticada secretamente como uma forma de ganho. A concorrência entre comerciantes e escravos que ofereciam gêneros era grande, gerando reclamações dos pequenos comerciantes, obrigados a pagar impostos. A tensão era grande, sobretudo com as escravas libertas que, juntamente com as brancas pobres, rapidamente dominaram o comércio de vendas e tavernas pelo interior. O toque de recolher ou regulamentos que as obrigavam a ficar atrás do balcão raramente as incomodava. Comércio, aliás, feito até nas beiras de estrada, onde o balcão era uma simples janelinha estreita separando comestíveis e cachaça do comprador. “Viver de suas quitandas” ou de vender em “casinhas” onde um quartinho discreto se prestava a encontros era forma de identificar seu ganha-pão.

  • Texto de Mary del Priore, baseado em “História da Gente Brasileira: Colônia”, Editora LeYa, 2016.

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Mulheres vivendo da venda de produtos comestíveis, Debret.

 

 

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