Gatos e bruxas: amizade suspeita

Publicado em 13 de dezembro de 2013 por - História do Brasil

Já falamos sobre a bruxaria e a feitiçaria no Brasil colonial e de como as Visitações do Santo Ofício (Bahia, 1591-93 e Pernambuco, 1593-95; Bahia, 1618-20; Grão-Pará, 1763-69) registraram e investigaram este tipo de denúncia. As supostas ligações com o mal tiveram várias manifestações por aqui: pactos, possessões, feitiços, rituais de cura, superstições e poções para atrair o amor e o sucesso. Algumas crenças persistem até os dias atuais, como a ideia de que o gato preto traz azar, principalmente em uma sexta-feira 13, como hoje. De onde vem essa superstição?

Na Idade Média, a associação entre os felinos e mal começa a tomar força. Com hábitos noturnos, independente e misterioso, o gato parecia o companheiro ideal para as bruxas. Outro fator importante é que os pobres e mendigos costumavam ter a companhia destes animais, o que era mais um fator para aumentar o preconceito. A cor preta era associada às trevas, à impureza e ao mal. Portanto, o gato preto reunia traços muito suspeitos naqueles tempos.

Laura de Mello e Souza, em “O Diabo e a Terra de Santa Cruz”, destaca as características que formavam o estereótipo da feiticeira: antissocial, solitária, pobre, que atraía os homens sexualmente, conhecia ervas e rezas com poderes curativos e ainda dava força a amores ilícitos por meio de poções e feitiços. Ou seja, era a vizinha ou parente indesejada.

Em Lisboa, no Auto de Fé de 1559, as bruxas que foram queimadas eram acusadas de comparecer ao sabbat na forma de gatos e cães. Na Colônia, houve vários relatos de bruxas que se transformavam em animais ou mesmo de animais que eram a encarnação do próprio diabo. Pelo que pude observar, não podemos dizer que o gato seja o animal mais citado nos casos de metamorfoses, mas o felino aparece em algumas denúncias. Vejamos um caso relatado pela professora Laura:

Murmurava-se que a mulher de André Gavião era bruxa. O padre jesuíta Baltasar de Miranda viu-a tentar passar pelo umbral de uma porta cujo ferrolho se achava levantado para cima, sem entretanto o conseguir – como era comum acontecer com as feiticeiras. Na mesma noite, entrou porta adentro um gato grande, saltando sobre a candeia e apagando-a; quando os presentes deram conta, um bebezinho de seis dias , irmão do jesuíta achava-se ‘embruxado com a barba chupada’, vindo a morrer logo depois. A tal mulher, transformada em gato, era a autora do mal feito”.

Note-se que não há alusão à cor do gato. De qualquer forma, no imaginário popular a ideia do felino como companheiro inseparável das feiticeiras ficou cristalizada. E até hoje há pessoas que temem cruzar com o inocente animal, numa encruzilhada e, pior, na noite de sexta-feira 13. – Márcia Pinna Raspanti

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Nem sempre os belos felinos tiveram má fama: no Egito Antigo eram considerados animais sagrados.

 

 

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