Fotografia, nudez e pornografia

Publicado em 8 de agosto de 2014 por - História

O desenvolvimento tecnológico da impressão, no final do século XIX, permitiu a reprodução em grande escala da fotografia. No início do século XX, essa invenção incentivou a pornografia e o erotismo a tomarem novos caminhos. Métodos modernos permitiram uma reprodução fácil de imagens fotográficas em preto e branco, enquanto, antes, os impressores limitavam-se à gravura, estampa ou ao desenho para a ilustração. Graças a esse procedimento de impressão e de reprodução, a pornografia passou, pela primeira vez, a ser consumida pelo grande público, mais acessível quantitativa e financeiramente do que jamais o foi.

As primeiras revistas de nus femininos apareceram na França e continham imagens de artistas, em sua maioria, saídas do teatro burlesco e bordéis, e usadas como modelos. Elas posavam nuas ou semi-nuas no interior das páginas ou nas capas. Embora nos dias de hoje possam parecer ingênuas, tais fotos faziam escândalo na época. A invenção da câmara de 35 milímetros, a Leica compacta, permitiu reduzir os negativos para aumentá-los depois. Para os amadores de imagens eróticas isso significou toda uma série de fotos tiradas em parques ou ao ar livre. E os fotógrafos tinham a vantagem de tirar instantâneos, sem carregar nas costas equipamentos pesados.

Acusadas de oferecer uma forma de pornografia individual e despida de sentimentos, a revista “para homens” tinha funções: descoberta ou ativação da sexualidade para aqueles inibidos ou inexperientes. Reativação, para os entediados. E substituição, graças ao voyerismo e masturbação, para aqueles que se encontrassem abandonados ou desejosos de satisfazer desejos, sendo fiéis às companheiras.

Nesta época, sobressaiu-se o fotógrafo E.J. Bellocq, cujas fotos mais significativas foram tiradas no bairro de prostituição, Storyville, em Nova Orléans, Estados Unidos. Invés de exibir nus em cenários decorados com drapeados, véus e colunas clássicas, Bellocq revelava mulheres “in natura”: totalmente à vontade, relaxadas e confortáveis. Sentadas na janela ou numa cadeira de balanço, adormecidas ou tendo ao fundo um varal de roupas, as mulheres davam impressão de estar se divertindo ao posar.

O sucesso dos nus em revistas foi total. Rapidamente, choveram publicações em formato de revistas artísticas. Mas, também, de publicações sobre o naturismo como foi o caso da britânica, Health and Efficiency, lançada em 1900. Os adeptos do naturismo defendiam que as pessoas verdadeiramente educadas, não se excitariam jamais com a vista de uma parte do corpo humano desnuda. Nascido na França com o nome de Gymnosophie, em torno do geógrafo Élysée Reclus, o naturismo via no nu uma forma de revitalizar o físico e de respeitar o planeta. A idéia era a de dessexualizar o nu. Pois, realizando pelado todas as atividades cotidianas, o naturista banalizava a nudez, instaurando igualdade e  simplicidade na relação com os outros.

O nascimento do movimento tinha a ver com uma reação à industrialização. O higineista Heirich Pudor escreveu um livro intitulado «Cultura do Nu »  e pregava os aspectos positivos da nudez social como reflexão sobre outras maneiras de viver. Logo encontrou adeptos entre jovens alemães os « wanderwogel » ou pássaros migratórios, que tinham na ginástica e noutras atividades que realizavam, nus em pêlo, uma agenda contra a poluição das grandes cidades. As fotos naturistas iam na contramão do que se fazia na pornografia: eram totalmente despossuídas de erotismo. A partir de 1918, o Frei-Körper-Kultur ou cultura do corpo livre se difundiu nos países germânicos, Áustria, Suíça, Holanda até ganhar em 1950, os EUA.

Em 1920, surgiram os « quadrinhos » pornográficos de grande circulação nos Estados Unidos. Eram chamados de « dirty comics » ou « quadrinhos sujos ». Neles, não faltava humor e muitos dos principais atores eram conhecidos, não dos papais, mas da criançada: Mickey Mouse, Betty Boop ou Popeye.

Das fotos, aos quadrinhos e destes para o cinema, não demorou. No início do século XX, na Inglaterra, surgiu o “mutescope”, uma forma de projetor com manivela. Tais máquinas podiam produzir pequenas animações graça a um sistema de rotação cilíndrica de imagens, retiradas de pedaços de películas. As maquinetas exibiam curtas sequências de mulheres tirando as roupas ou cenas em que elas simulavam posar para um artista. Ganharam o apelido de “O que o mordomo viu”, nome de um dos primeiros filmes pornográficos rodados na Grã-Bretanha.

Assim que, em 1895, Robert Paul e Louis e Auguste Lumière realizaram as primeiras projeções públicas sobre uma grande tela, fizeram-se filmes pornográficos. Já em 1900, eles foram rodados, introduzindo uma ruptura nas representações sobre a sexualidade. Pela primeira vez, reproduziam-se atos sexuais não simulados, realizados por profissionais de maneira estereotipada e sem relação afetiva ou pessoal. Também pela primeira vez, colocava-se em imagem e movimento, um jogo de corpos desnudos e oferecidos à observação de terceiros.  Os diretores pioneiros foram Eugene Pirou e Albert Kirchner. – Mary del Priore.

nu perante a câmera Julien Vallou de Villeneuve (French, 1795–1866)

 “Female Nude” (1853), de Julien Vallou de Villeneuve.

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

2 Comentários

  1. Nossa! Estou escrevendo uma tese sobre revistas pornográficas e estava escrevendo sobre isso… Poderia me indicar algum livro sobre as técnicas de impressão das revistas pornográficas?

Deixe o seu comentário!