Fórmulas para “agarrar marido”

Publicado em 25 de agosto de 2014 por - Feminismo

A família dos anos 1970 foi resultado de um conjunto de mudanças. A participação da mulher em escritórios, serviços, fábricas, lojas deu nova dimensão ao casamento. Com métodos contraceptivos mais eficientes e segurança profissional, as mulheres se “reinventaram” dentro da casa e da família. As relações verticais passaram a ser questionadas. Rompia-se, muito lentamente, o ciclo de dependência e subordinação ao marido. A imprensa feminina continuou a investir na figura da mãe e da dona de casa – agora, angustiada. Ameaçada pelas mais jovens, seu horror era “ser trocada por duas de vinte”! Multiplicavam-se as colunas do tipo: “Como salvei meu casamento”. Para a liberada que aderisse à revolução da pílula não faltavam informações para “entrar no fechadíssimo clube das cabeças que pensam e decidem”. Só que, para entrar no tal clube, era preciso ter cabelos esvoaçantes e corpo sedutor; ser “uma pantera”.

O casal continuava a ser o ponto de referência. E, como antes, o homem era o juiz que avaliava a mulher; era seu objetivo e razão de ser. E, como antigamente, o “medo de se amarrar” continuava o mesmo. Brotavam argumentos científicos para ilustrar as diferenças: “Ele tem, biologicamente, o instinto da conquista desde os tempos pré-históricos […] a maternidade dotou a mulher de uma estrutura emocional passiva”. E a quem cabia a dupla moral masculina, velha como Matusalém? A ela, é claro: as mais livres e “sempre prontas a responder aos convites mais ousados” estimulavam a “tendência masculina ao não comprometimento”.

Mas, nessa época, as mulheres também tiveram de enfrentar o fim do mito da “rainha do lar”. Questionadas pelos filhos, desmoralizadas pela beleza das mais jovens, ansiosas por verem mais e mais mulheres ganharem independência, elas investiam em receitas para “salvar o casamento”. Quanto a eles, começavam a passar por momentos delicados: a dupla jornada de trabalho da mulher, a relutância masculina em participar das tarefas do lar, conflitos em torno da criação dos filhos. O que antes tinha de ser varrido para baixo do tapete, de preferência pelas mãos da esposa, agora ficava óbvio. Como diria o poeta Vinícius de Moraes, assim como o amor, o casamento passava a ser “infinito enquanto dure”. A lei do divórcio foi aprovada em 1977, e descobria-se a incompatibilidade de gênios!

Se as mudanças abalavam o mito da “rainha do lar”, também não prometiam sucesso absoluto. A nova imagem da “mulher que decidia”, que se sustentava e se cuidava apresentava rachaduras. Ela não decidia porque gostava ou achava importante tais mudanças em sua vida, mas sim porque o homem queria assim… E mais: a identificação entre esposa e mãe continuava. Que o diga Tônia Carreiro, prima-dona do teatro, que, em entrevista, então afirmava: “o truque de prender o homem não é nem beleza nem juventude. É uma coisa tão besta que dá raiva: é parecer com a mãe”. Revistas femininas seguiam repletas de fórmulas para agarrar maridos.

E Carmem da Silva, atenta às mudanças em curso, desejosa de conscientizar as mulheres, não se cansava de fustigar:

“Com tudo isso, o papel da mulher ante o homem reduz-se a: atrair, seduzir, incitar, envolver, obter o que se deseja mediante a simulação hipócrita ou o “nhem-nhem-nhem” de criança […] pagar com fidelidade a infidelidade do marido e procurar reconquistá-lo mediante recursos de cosmética, indumentária, culinária, doçura, habilidade, astúcia, submissão […] Na qualidade de boneca de carne, exorbita a importância de seu aspecto físico, escraviza-se à moda, sofre por não manter o padrão que desejaria e repete, convicta, consoladores axiomas publicitários: ‘Hoje em dia não há mulheres feias’, enquanto se examina angustiadamente no espelho […] Em resumo, nossas mulheres, ao mesmo tempo em que acham maravilhoso ser mulher, assim em teoria, estão descontentes com a sua sorte no que tange à realização de sua própria feminilidade; ao mesmo tempo em que afirmam as doces prerrogativas de seu sexo, admitem que seu destino biológico é doar-se em compensações, amar e sofrer por amor!”.

– Mary del Priore.

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