“Foot-ball”, virilidade e alienação

Publicado em 20 de fevereiro de 2014 por - História do Brasil

Sportman” – Nas primeiras décadas do século XX, a palavra curta encerrava um grande número de qualificativos: força, robustez, beleza física. Florescia a footballmania, expressão cunhada pelo educador e ensaísta contaminava os torcedores que usavam a língua inglesa para definir jogadas e jogadores.

Em São Paulo, o esporte servia para acalmar os ânimos de operários que tentavam fazer greve. Empresários construíam “grounds” e mandavam trabalhadores “queimar energias”. No Rio de Janeiro, o esporte distraia a população. Verdadeiro instrumento de alienação, o futebol desviava a atenção da pobreza, do desemprego e da precariedade que as mudanças arquitetônicas da cidade não conseguiam mais disfarçar. Intelectuais conhecidos eram entusiastas do jogo. Como Coelho Neto, por exemplo. Baixo, franzino e míope — como seu finado amigo —, não perdia uma só partida do esporte bretão, às quais comparecia elegantemente vestido com terno branco e chapéu palheta. Sócio do Fluminense, onde um dos seus filhos era player, tomou-se “de encantos pelo jogo inglês e vivia falando em backs, forwards, goals, teams e scratches” — segundo um dos seus contemporâneos.

Mas não era só paixão. Coelho Neto ia além e via no foot-ball uma missão: ajudar na criação de uma sociedade na qual os homens, seguindo o modelo dos esportistas, fossem adestrados pelo exercício físico, criando um tempo de paz e harmonia e abrindo o peito para os valores cívicos defendidos, então, por uma parte da intelectualidade. Não estava só. Afrânio Peixoto e João do Rio eram outros entusiastas do esporte bretão: “Esse jogo de foot-ball, esses desportos que dão saúde e força, ensinam a disciplina e a ordem, fazem a cooperação e a solidariedade, me enternece porque são grandes escolas onde está se refazendo o caráter do Brasil”, dizia Afrânio Peixoto.

Nos últimos anos da primeira década do século XX, os jogos de futebol se constituíam em ocasiões de encontro da juventude elegante, enchendo os estádios de moças e rapazes refinados. Tinham o apoio do high-life do Rio. As arquibancadas, lotadas de cavalheiros distintos e senhoritas em vestidos claros, se vous! Os ingressos, disputadíssimos, eram vendidos nas confeitarias da moda como Pascoal, Colombo e Castelões. Findas as partidas, os antagonistas se reuniam em festas de gala e requinte, dando mostras do mais extremo cavalheirismo.

O campo do Fluminense era o “mais chic”, agrupando, entre os players, os filhos das famílias importantes da sociedade. O Botafogo coligava jogadores mais jovens do que os do Fluminense, e considerados mais bonitões. Vestindo uniformes impecáveis, faixas que prendiam as bermudas, penteados cuidadosamente arranjados e bigodes bem aparados, os jogadores difundiam modismos europeus. O sucesso destes rapazes era tão grande que não faltavam notícias dando conta que, na época de matches, eles ficavam atrás das palmeiras da rua Paissandu, esperando as “pequenas” que os assediavam. – Mary del Priore

Time_Botafogo_1907

Time do Botafogo, em 1907.

 

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1 Comentário

  1. Para muitos, é difícil imaginar que o esporte mais popular do Brasil já foi um espetáculo “chic”. No Rio, o grande símbolo da época era o Fluminense, não por acaso “Football Club”, fundado por um homem da alta sociedade.

    A parte ruim é que o futebol, ainda hoje, é instrumento de alienação.

    Ótimo artigo.

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