Folclore e identidade

Publicado em 17 de setembro de 2015 por - História do Brasil

Por Marco Haurélio.

Folclore não sai de moda.

É catira, cururu,

É frevo, samba-de-roda,

Baião e maracatu.

São noites mal-assombradas,

São aboios e toadas,

É lamparina e pilão.

É visagem e mau agouro,

É gibão, chapéu de couro

E debulha de feijão. – Moreira de Acopiara, cordelista cearense

A palavra folclore (em inglês folk-lore) foi empregada pela primeira vez em 22 de agosto de 1846. O arqueólogo inglês Willians Johns Thoms, em artigo endereçado à revista The Atheneum, assinado sob o pseudônimo Ambrose Merton, foi o pioneiro. O termo abrangia o que Thoms entendia por “antiguidades populares”: contos, lendas, provérbios, mitos, romances, crenças, rifões superstições etc. Nesse artigo, nota-se a preocupação com o desaparecimento das tradições populares face à modernização dos costumes. A mesma apreensão já havia levado dois filólogos alemães, os irmãos Jakob e Wilhelm Grimm, a coletarem histórias e lendas do povo de seu país, reunidas posteriormente no Kinder-und Hausmärchen (Contos da criança e do lar, 1812), a mais famosa coletânea de contos populares já feita.

 No Brasil, a partir dos pioneiros Celso de Magalhães (1849-1879), Couto de Magalhães (1836-1898) e Silvio Romero (1851-1914)), pesquisadores das mais diversas áreas vêm dedicando tempo e envidando esforços na tentativa de entender as manifestações da cultura espontânea. Com Cantos populares do Brasil e Contos populares do Brasil, o sergipano Silvio Romero deu o impulso necessário à pesquisa do folclore, embora seu trabalho se detivesse mais na recolha de modalidades da literatura oral do que no estudo do material. A publicação do livro O folclore, por João Ribeiro, a partir de conferências realizadas na Biblioteca Nacional em 1913, é o marco inicial dos estudos sistemáticos do folclore brasileiro.

O folclore, além da literatura oral, abrange as festas religiosas e profanas, os folguedos, as brincadeiras infantis, as danças tradicionais, o vestuário e a culinária. No rol entram, também, as superstições e os costumes. Às vezes, se fundem texto, dança e gestual. É o caso do bumba meu boi, que, além de folguedo, é um auto popular bastante difundido, ligado ao ciclo de festas natalinas. Sua popularidade deve-se à importância que teve a pecuária no processo de colonização do País. Confunde-se com o que estudiosos classificam como ciclo do gado, a ponto de apresentar familiaridades com o conto popular O vaqueiro que não mentia. No enredo deste, a honestidade de um vaqueiro é posta à prova quando uma moça bonita o instiga a matar o boi favorito do patrão, pois deseja comer um pedaço: língua, fígado ou coração.

A origem do bumba-meu-boi remonta à mitologia da Grécia Antiga: Dionísio Zagreu, filho de Zeus e Perséfone, por instigação de Hera, foi morto, despedaçado e devorado pelos titãs. Zagreu estava, no momento de sua morte, metamorfoseado em touro. O seu coração, no entanto, foi recolhido por Atena e, devorado por Sêmele, deu origem ao segundo Dionísio, o deus do vinho. O despedaçamento ritual sobreviveu no folguedo. No Nordeste brasileiro, região de maior fixação do tema, os pedaços do boi geralmente são distribuídos entre os conhecidos de quem veste a armação representando o animal.

Alguns mitos abrangem todo o território nacional, embora de região para região difiram nas características e atribuições (que podem ser benéficas e maléficas). O Saci, por exemplo, representado como um menino negro girando ou correndo numa só perna, com um cachimbo de barro e um gorro vermelho na cabeça, resulta da fusão de crenças de origem europeias e africanas. Da Europa, ele herdou o gorro (barrete), dos duendes. Antes disso, os indígenas acreditavam tratar-se de um curumim peludo e travesso. Segundo a crença popular, para alguém capturar o saci é preciso, primeiro, atirar uma peneira no redemoinho em que ele quase sempre se oculta. De posse do gorro, o captor, então, terá o maroto Saci às suas ordens.

Do Curupira, originalmente um ente medonho que impunha terror aos habitantes da floresta, deriva o Pai do mato, conhecido no sudoeste da Bahia como “um velho horroroso”, também coberto de pelos, barba densa e cabelos desgrenhados, “protegendo os animais dos abusos dos caçadores”. É mais alto que a árvore mais alta da floresta e persegue os caçadores que violam os tabus ligados à sua atividade. O dia de São Bartolomeu, 24 de agosto, por exemplo, é interdito à caça. Nesse dia aziago, acreditam os caçadores, “o diabo está solto”.

 O dia 31 de outubro, quando se comemora nos Estados Unidos o Dia das Bruxas (ou Halloween), foi escolhido para se comemorar, por aqui, o Dia do Saci. A proposta visa a combater a exagerada influência do Halloween na cultura brasileira. Algumas escolas, no dia, promovem atividades às quais as crianças devem comparecer caracterizadas como bruxas. A resposta brasileira parece ter surtido efeito, pois chamou atenção para a figura do Saci que se tornou, informalmente, uma espécie de mascote do folclore brasileiro.

As escolas geralmente trabalham o tema apenas em agosto que, institucionalmente, é o mês do folclore. No entanto, a cultura popular está mais presente em nossas vidas do que supomos. Inconscientemente, ao fazermos um gesto de saudação, podemos estar repetindo um exemplo surgido há milênios. O folclore é, segundo o grande estudioso do tema no Brasil, Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), “o milênio na contemporaneidade”.

Sem abrir mão da programação de agosto, outras atividades podem ser sugeridas. Desde a recolha de contos populares, lendas e adivinhas, até a encenação de autos tradicionais, a escola tem um papel fundamental na formação cultural dos seus alunos que fortalecerá, com a noção da consciência identitária, os alicerces da cidadania. As lendas de origem de uma comunidade, por exemplo, têm muito a dizer ao nosso povo. É o caso da cidade de Paratinga, na Bahia, cujo surgimento está diretamente ligado à religiosidade popular.

Localizada às margens do rio São Francisco, Paratinga já se chamou Santo Antônio do Urubu de Cima. Isto em 1718, quando deixou de ser arraial, passando a freguesia. A razão do nome incomum: uma imagem do santo português teria sido encontrada por um caçador num tronco de árvore. No galho “de cima”, a ave, de asas abertas, protegia o santo do calor do sol. No local, foi construída a capela onde o santo era venerado. A imagem teria sido deslocada para o santuário de Bom Jesus da Lapa – uma gruta transformada em igreja –, mas sempre retornava para o seu centro de devoção. Suas pegadas ficavam impressas na areia.

Lendas como a descrita acima podem ser recuperadas da memória popular a partir de um projeto pedagógico que valorize as manifestações tradicionais. O mesmo pode ser pensado em relação às quadras populares. Abaixo, alguns exemplos desta singela manifestação poética:

Amarrei o meu cavalo,

Amarrei às nove horas.

Esperando o meu benzinho,

Meu benzinho, até agora…

 

Soltei meu cavalo n’água,

Ele n’água se perdeu.

Nesse mundo não existe

Amor puro igual o meu.

 

Botei meu cavalo n’água

Só pra vê-lo ir nadando.

Se quiser ver meu amor,

Olhe só quem vem cantando.

 

Esta, que evoca o ciclo natalino, é de rara beleza:

Nossa Senhora com dor,
São José foi buscar luz.
São José não é chegado,
Nasceu nosso Bom Jesus.

Entendamos, finalmente, o complexo conjunto a que se convencionou chamar folclore dentro de um processo dinâmico: em constante evolução. A soma de todas as manifestações tradicionais, de nossas crenças mais arraigadas, vivas e cotidianas, é uma das possíveis definições para folclore.

E quem souber mais histórias que conte outra!…

Boi do Mateus 4

 

Boi do Mateus.

 Nota: este artigo foi publicado originalmente na revista Páginas Abertas (Paulus) em agosto de 2010.

Marco Haurélio, cordelista, pesquisador da tradição oral, tem vários livros publicados, incluindo Contos folclóricos brasileiros (Paulus), Mateus, esse boi é seu (DCL) e Breve história da literatura de cordel (Claridade). 

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