Finados: a arte de viver e morrer bem

Publicado em 2 de novembro de 2015 por - História do Brasil

Vários autores se dedicaram ao estudo dos fenômenos ligados à morte e de como o homem, em diferentes épocas, encarava tal realidade. No final do século XVII e início do XVIII, a crítica literária e a historiografia  geralmente se referem à “morte barroca”. A morte, nesse sentido, tinha vários aspectos, como teatralização do funeral, pompa, hierarquização perante a morte e a “boa morte”.

        A Igreja procurava mostrar que a vida devia ser uma preparação para a morte _ o homem que vive cada momento para Deus, e morre para o mundo, ganha a salvação. Ao deixar para os últimos momentos as atitudes piedosas, o homem corre o risco de errar e perder sua alma. Nas palavras de do padre jesuíta Antônio Vieira:

“Cristãos e senhores meus: se quereis morrer bem (como é certo que quereis) não deixeis o morrer para a morte, morrei em vida; não deixeis o morrer para a enfermidade e para a cama, morrei na saúde e de pé.”

O verdadeiro cristão não podia temer a morte e deveria, até mesmo, desejá-la. O P. José Soares, outro jesuíta, conta que recebeu por duas vezes a visita sobrenatural do Padre Vieira, que já havia morrido,

“(…) o qual, tocando-lhe no ombro com a mão e tendo os olhos levantados para o céu, o convidara a partir e o deixara ao partir repleto de grande alegria.

        Na segunda aparição, Vieira lhe enxugara as lágrimas como forma de consolo, e “(…) desde então começou a esperar a morte e a desejá-la“. Jean Delumeau, em História do medo no Ocidente (1300-1800), mostra que o retorno dos mortos para o mundo dos vivos esteve sempre presente no imaginário do homem. O autor divide este tipo de aparição, nos séculos estudados em seu trabalho, em duas formas principais: almas do purgatório, que vêm pedir orações e missas; e almas danadas, que vêm aterrorizar os vivos.

Vieira aparece como uma alma salva que, apesar do “medo e arrepiamento de cabelos” causados no primeiro momento, trazia alegria e tranquilidade por anunciar a boa morte do P. José Soares. Mais uma vez, a ideia de deixar um mundo cheio de enganos e alcançar a salvação é destacada: a morte não deve causar angústia nem temor, ao contrário, deve ser vista como um privilégio a ser alcançado.

O fiel que conseguisse “bem morrer” merecia a inveja dos vivos, como o P. José Soares: “(…) expirou, invejando piedosamente a sua morte os que se achavam presentes“.A morte de Vieira provocou muita dor nos presentes, mas, uma dor “próxima do alívio” por vê-lo adormecer “tranquilamente no Senhor”.

Notamos, nesse período, uma maior preocupação com a morte em vida do que com o momento da morte: viver bem para morrer bem. Os últimos sacramentos, a confissão, o testamento, eram atitudes válidas e piedosas, mas, de nada adiantariam se o cristão não tivesse uma vida dedicada a Deus e à salvação. Vieira e do P. José Soares eram exemplos de vida para se chegar à “boa morte.”

No Catecismo Romano ensina-se que os párocos não devem perder a oportunidade de “(…) exortar os fiéis a entreter-se com a assídua meditação da morte.” E mais adiante, ao falar de como se deve evitar o pecado:

“O segundo remédio nos é proposto pelo Eclesiástico: a recordação da morte e do dia do juízo. ‘Lembra-te dos teus novíssimos [a morte, o Juízo Final, o Céu e o Inferno], diz Ele, e para sempre deixarás de pecar.”

O Catecismo explica ainda: “O sentido destas palavras é como se dissesse: Lembra-te, muitas e muitas vezes, que em breve terá de morrer. Naquele instante, ser-te-á sumamente desejável e absolutamente necessário alcançar a infinita misericórdia de Deus. Por isso, é indispensável que desde já a tenha continuamente diante de teus olhos.”

No Brasil Colônia, a “ars moriendi” era bastante difundida, principalmente por meio dos Manuais de Confessor, que sempre dedicavam pelo menos um capítulo ao Bem Morrer. A ideia do Juízo Particular era muito presente na sensibilidade coletiva, sendo que o Juízo Final vai se tornando cada vez mais longínquo no pensamento dos fiéis. Acreditava-se que o destino da alma era definido no leito do moribundo, a consumação dos tempos parecia muito distante.

A crença de que havia um Juízo no momento da morte pode ser sentida desde a época  medieval. No final do século XI, o temor em relação ao dia da morte começava a surgir, demonstrando que o homem já temia este primeiro julgamento, afinal era quando o destino de sua alma é definido. O Juízo Final tornava-se uma preocupação mais longínqua, porque quem era condenado na hora do falecimento não tinha mais salvação.

O espaço entre o Julgamento Particular  e o Juízo Final seria um período em que os salvos purgariam os pecados para finalmente chegar ao Paraíso. O Purgatório, segundo Jacques Le Goff, surgiu como forma de punição contra os pecados “veniais”, que não condenavam o homem ao Inferno, mas, impediam que este entrasse diretamente ao reino do céu.

       A Igreja, numa postura adotada com a Contrarreforma, procurava mudar a ideia de que o destino da alma pode ser resolvido no momento da morte. O fiel precisava dedicar-se às práticas religiosas regulares, à devoção diária e renunciar aos prazeres do mundo. A morte é um tema importante nos textos da época, que, como era dever dos religiosos daqueles tempos, procurava sempre ressaltar o seu caráter exemplar: para se chegar a “boa morte”, o verdadeiro cristão deve ser provado todos os dias, e não apenas no derradeiro momento.

Na sociedade colonial brasileira, a pompa fúnebre e o aparato das cerimônias eram considerados fundamentais para a salvação das almas. A hierarquia e o abismo entre as classes sociais, características marcantes desta sociedade, podem ser sentidos até quando se estuda um tema como a morte, que poderia ser chamada de “morte hierarquizada”.

É preciso lembrar que a preocupação com as cerimônias fúnebres não era exclusividade dos ricos. São famosas as irmandades de negros, escravos ou forros _ como a da Nossa Senhora do Rosário, talvez a mais conhecida de todas _ que apesar dos seus membros serem colocados sempre num plano inferior, esforçavam-se para atingir o luxo e a grandiosidade das irmandades compostas por brancos. – Texto de Márcia Pinna Raspanti.

 

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Juízo Final de Michelangelo; “As almas no purgatório”, de Giovvani Coppola.


 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

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1 Comentário

  1. Simone disse:

    Excelente texto!

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