Filhos: queremos uma nova geração de senhores de escravos?

Publicado em 9 de dezembro de 2014 por - Educação

Pais, mães e educadores estão perdidos: não sabem o que fazer com crianças e adolescentes. Falta de limites, desrespeito ao próximo, consumismo desenfreado, agressividade, apatia nos estudos e uma incapacidade absoluta em lidar com palavra “não” são as principais queixas. Os adultos são tiranizados pelos pequenos, mas parecem incapazes de reagir, fazendo todas as vontades de seus filhos, mesmo conscientes de que isso não lhes traz nada de bom.

O problema é antigo. Estrangeiros que visitaram o Brasil nos períodos colonial e imperial relatavam que o excesso de “mimos” era comum. Mary del Priore indaga: “Como fazer uma criança obedecer a um adulto, como queria a professora alemã, Ina von Binzer, que vai, na segunda metade do século XIX, às fazendas do vale do Paraíba ensinar os filhos dos fazendeiros de café, quando esses distribuem ordens e gritos entre os escravos? E não eram apenas as crianças brancas que possuíam escravos. Crianças mulatas ou negras forras, uma vez os pais integrados ao movimento de mobilidade social que teve lugar na primeira metade do século XVIII, tinham também seus escravos. Muitas vezes, os próprios parentes ou até meios-irmãos! Na sociedade escravista, ao contrário do que supunha a professora alemã, criança mandava e o adulto escravo obedecia”.

Em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, Machado de Assis, através do narrador, mostra como o personagem, filho de família abastada, interagia com o escravo. ”Prudêncio, um moleque de casa, era o meu cavalo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um cordel nos queixos, à guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão,fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e ele obedecia, – algumas vezes gemendo, – mas obedecia sem dizer palavra, ou, quando muito, um –‘ai, nhonhô!’ – ao que eu retorquia: -‘Cala a boca, besta!”.

Segundo Mary del Priore, os viajantes estrangeiros não percebiam nenhum esforço educativo por parte das mães. Os pequenos davam a impressão de reinar absolutos, e não havia autoridade que se impusesse sobre eles. No entender dos estrangeiros, eram seres não socializáveis. Anjos inocentes na verdade mascaravam pequenos selvagens que sobreviviam graças à tolerância dos adultos. Cresciam malcriados, não importando a condição nem a cor. Para norte-americanos e ingleses, a condição das crianças era o espelho dos males que atingiam o Brasil à época: “indolência, orgulho, sensualidade e egoísmo” eram “as consequências da escravidão que acabaram escravizando os inventores do cativeiro e seus filhos”. Mulheres sem educação resultavam em filhos idem, criticavam.

James Wells, em 1866, deixou seu depoimento: “Gritam à menor provocação, mordem, arranham e ainda insultam as pacientes negras que cuidam deles. Às lamúrias da mãe do tipo: Ai! Meu Deus!… Não faça isso meu bem. Não chora benzinho. Ah! Meu Deus!… o pequeno redobrava a gritaria e era levado chutando e mordendo”. Não foi o único. Em 1852, Carlos Saenz de Tejada Benvenutti escrevia a um amigo, descrevendo a filha do patrão: “Essa senhorita que tem oito ou nove primaveras está sempre chorando e gritando e só silencia quando uma escrava coça-lhe as costas ou quando brinda o irmãozinho com socos e pontapés”.

Hoje, podemos assistir a cenas semelhantes em qualquer lugar: gritos, impropérios, choradeira, chutes e tapas são comuns em crianças pequenas. Os mais velhos, muitas vezes, fingem ignorar os adultos ou respondem de maneira monossilábica. Isso quando não soltam um palavrão ou resposta mal educada. No lugar dos escravos, professores, babás, empregadas domésticas, e até pais e mães, são os subjugados.

Em meio a este cenário, vejo os pais passivos e sem coragem de contrariar seus filhos. Por quê? Sentimento de culpa, omissão ou falta de iniciativa? Outro dia, em uma cafeteria, ouvi uma mãe ao telefone, muito nervosa, brigando com a diretora da escola de sua filha porque a menina havia tirado nota baixa. “Um absurdo”, dizia. “Pagamos escola para que ela aprenda e não para que fique frustrada. A professora não lhe deu a atenção necessária”, acusava. Depois, ficou sabendo que a menina não havia feito a prova. “Se não fez, foi porque não foi avisada. No ano que vem, vou procurar outra escola”, ameaçava.

O que dizer em uma situação dessas? Fiquei pensando: como criar adultos responsáveis e que respeitem o próximo com este tipo de postura? Como essas crianças irão se adaptar ao mundo adulto? Queremos novas gerações de senhores de escravos?

– Márcia Pinna Raspanti.

feitordebret

 Debret.

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4 Comentários

  1. Como professora em formação, presencio o quanto o mimo e a falta de limites afetam o comportamento das crianças.
    Hoje, crianças “clamam” por limites na escola. Mas, sem o apoio e exemplo das famílias, estas crianças não aceitam estes limites: quando colocados, provocam falta de educação, gritos, até ordens aos professores e demais funcionários das escolas.
    É preciso compreender que o que esta sendo proposto atualmente para as famílias auxilia o Sistema, mas não ajuda na educação das crianças: pais que trabalham o dia todo, delegando a educação de seus filhos para as escolas ou para babás e empregadas. Crianças educadas desta forma carecem de amor, de atenção e de limites. Não convivem com os pais exceto nos finais de semana. Muitas, nem isso.
    Ter filhos é assumir a responsabilidade de educá-los para a vida e para a cidadania e a boa educação e cumprimento de normas faz parte da vida e do exercício pleno de seus direitos e deveres.
    Ótimo texto, precisamos repensar a sociedade que delega às crianças o segundo plano na vida dos adultos.

  2. Windston Aquino disse:

    Nos Iluminados pela História sabemos bem que a base de qualquer nação é sua Educação. Na minha própria experiência assisti o despreparo e a inércia de meus pais em educar, fato que abomino profundamente. Mas sempre intervi prontamente, usei meios que tornavam meus irmãos seres auto-reflexivos, capazes por si mesmos de calcular as consequências de seus atos. Infundi valores como pedir benção aos mais velhos sempre que chegar ou sair, que a casa dos outros não é a nossa, valores de pequenos trabalhos, até mesmo porque moravamos num sítio, sempre procurei engaja-los a pequenos serviços como ajuntar gravetos ou tratar das galinhas. Alfabetizei meus irmãos antes do período escolar em português e inglês. Aos poucos descobriram por si mesmos o valor dos livros. Mas ensinei acima de tudo que eles eram crianças e isso quer dizer brincar!
    Acredito que com pequenos e precisos empurrõezinhos criei três cidadãos éticos, capazes de reconhecer a dor alheia e acima de tudo ajudar. Colho muitos frutos disso. Duas coisas que mais me maravilharam foi que juntos plantamos uma grande horta e a em ver a satisfação deles em colher o resultado do próprio trabalho. Sempre acompanhei os desempenhos na escola e umas duas vezes intervi em apoio aos professores, quando ressaltei a soberania do professor eles entenderam que precisavam melhorar, mas o mais curioso é que quando sentiram-se lesadas em questão a seus direitos foram capazes de cobra-los. Abominaram e reprimiram por conta própria o modo preconceituoso como uma professora tratou alguns alunos recém-chegados de outra escola, sem desrespeita-la informaram a diretora com quem depois conversei. Não digo que são seres perfeitos, mas aprendi o valor de uma educação pautada no respeito que não obedece tradições mortas e preconceituosas, sempre acima de tudo lhes fiz entender a soberania Divina mas que este mesmo Deus os deixa livres para manifestar-se como melhor julgarem. Auto-crítica foi meu presente para meus irmãos.

  3. João Baptista de Siqueira Neto disse:

    Excelente o artigo!! Parabéns! Vou compartilhá-lo em minha página pessoal e em grupos meus.

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