Feminismo em xeque

Publicado em 24 de setembro de 2014 por - Feminismo

A atriz Emma Watson (da série Harry Potter) fez um discurso sobre feminismo na ONU, no dia 20, em que defendeu a igualdade de gêneros. Ela tocou em ponto muito interessante: como a sociedade patriarcal prejudica também os homens. Imediatamente a moça passou a ser ameaçada por hackers e sofreu uma enxurrada de críticas raivosas. Tenho observado também o surgimento de mulheres que se dizem anti-feministas, por acreditar que o feminismo pregaria um suposto “ódio” aos homens. Este tipo de posição me causa um certo mal-estar. Como uma mulher pode ser contrária a um movimento que busca a igualdade de direitos? É claro, que podemos e devemos ter questionamentos em relação aos rumos do feminismo, mas isso não significa rejeitar a histórica luta feminina por seu lugar na sociedade e no mercado de trabalho.

As feministas sempre foram alvo de preconceito. Segundo Mary del Priore (“Conversas e Histórias de Mulher”), nas primeiras décadas da República, o celibato associava-se ao feminismo. E este, à feiura e masculinização. De acordo com a imprensa da época, quem não era agraciada com beleza física suficiente para se casar vingava-se aderindo aos movimentos de emancipação. Num artigo intitulado “Leilão de moças”, em que se apregoavam os leilões matrimoniais como solução para as feias, a revista Fon-Fon dava um exemplo: “Talvez fosse o único, excelente, maravilhoso meio de acabar de uma vez com as sufragistas, as literatas, as neurastênicas, as cochichadeiras, as beatas, horríveis espécies femininas da classe imensa, descontente, vingativa e audaz das vieilles filles” —  moças-velhas, nome que se dava para solteironas.

Ainda hoje existe este tipo de associação perversa, em que a feminista não passa de uma mulher frustrada e pouco atraente. “O medo da mulher inteligente, preparada, da que lia ou escrevia era visível. A emancipação era percebida nos mais diversos setores políticos e sociais como ameaça à ordem estabelecida e ao domínio masculino”, diz Mary.

A literatura e a atuação de mulheres independentes começavam a dar a resposta a este tipo de ideia. Em O Quinze, clássico sobre a grande seca no sertão do Ceará, em 1915, Raquel de Queiróz pinta Conceição, a protagonista, como alguém que “dizia alegremente que nascera solteirona”. Na contramão das dependentes, pintadas por escritores, essa é bonita, segura, inteligente e culta. E, na contramão de juristas que valorizavam a proteção oferecida às mulheres pelo casamento, feministas como Maria Lacerda de Moura mostraram que, sob a aparente proteção, havia, sim, prisão, subserviência e obediência. O celibato, defendiam Ercília Nogueira Cobra, Bertha Lutz e outras, era a melhor opção.

“Mulher indivíduo”, como a definia Maria Lacerda de Moura, seria aquela capaz de viver honestamente e longe dos caprichos masculinos. Numa crônica de 1946, Lúcia Miguel Pereira cravava: “sempre houve solteironas, até por vocação; e ainda das que não o foram por vontade própria, muitas viveram satisfeitas, souberam ser úteis, desenvolveram plenamente sua personalidade”.

A seguir uma reflexão de Mary del Priore sobre a situação da mulher nos dias atuais:

 

Hoje, menos obrigadas a se consagrar exclusivamente ao marido e aos filhos, ou à vida doméstica, as mulheres podem investir numa carreira, casar-se, fazer filhos quando querem e, se não estão felizes, divorciar-se. A revolução das comunicações que começou com o telefone, e prossegue no Facebook, contribui a diluir as fronteiras entre o isolamento e a vida social. A cultura urbana adaptou-se aos indivíduos autônomos. Serviços foram criados para o seu bem-estar: lavanderias, salas de ginástica, bares, deliverys de todo o tipo. A longevidade, também, transformou em viúvas aquelas que viveram a vida em casal.

O que faz dessa realidade demográfica um problema social é a busca da felicidade. E a pergunta: mulheres vivem sozinhas porque querem ou porque não têm escolha? Muitas não querem mais ser protegidas, assistidas ou se apoiar em alguém. A ver…

O fim do século XX parece marcar uma ruptura na história da invisibilidade das mulheres. Caminhamos para um pós-feminismo no qual a ideia de cuidar, combinar, associar, de mixagem tornou-se um valor fundamental, ético e universal, pois homens e mulheres não podem viver uns sem os outros. Ora, cuidar implica aplicar atenções, tratar, ter cuidados, afeiçoar-se, dedicar-se, enfim, amar. Podemos imaginar um mundo melhor, para o século XXI, do que esse em que melhor “nos cuidássemos uns aos outros”?

Além de cuidar dos outros, seria importante o cuidar de si. Da própria cabeça e coração. Nos últimos vinte anos, um nó de contradições marcou o papel das mulheres na sociedade brasileira. Assim como as desigualdades sociais, as disparidades entre os sexos se acumulam, multiplicando os benefícios deles, em detrimento das carências delas. Em casa, as tarefas continuam desigualmente compartilhadas: mais de 90% delas asseguram a “ordem e o progresso”, embora já surjam algumas zonas de negociação, como o fogão ou as compras. Se o casamento se desfaz, elas sofrem imediata desvalorização no mercado matrimonial. Em tempos de crise, será mais fácil ver as mulheres ameaçadas pelo desemprego ou aceitando ocupação em tempo parcial. A superioridade feminina é apenas numérica: mais mulheres chefiam famílias monoparentais, aceitam situações de subordinação e correm atrás do modelo de perfeição estética imposto pela mídia.

 Por que será? Tudo indica que o problema não é na rua, mas em casa. É lá que elas escondem os sentimentos masculinizados. Muitas protegem filhos que agridem outras mulheres. Não os deixam arrumar o quarto: “Homem não nasceu para isso”! A ideia é tornar marido e filhos dependentes delas em assuntos domésticos, pois muitas são dependentes financeiras deles. Outras calam sobre comentários machistas dos companheiros, incentivam piadas e estereótipos sobre a “burrice” feminina, cultivam cuidadosamente o mito da virilidade. Gostam de se mostrar frágeis, pois acreditam que eles, assim, sentem-se mais potentes. E de ser chamadas de xuxuzinho e tudo o mais que seja convite a comer. O título de cachorra é um elogio. Acreditam que a feminilidade é um estado natural, a ser conservado, e que todas as despesas aí investidas, até cirurgias que acabem por desfigurá-las, são um bom negócio. São coniventes com a propaganda sexista e com a vulgaridade da mídia. Na TV, aceitam temas apelativos e não se incomodam que estes encham a cabeça das filhas.

Conclusão: há uma desvalorização grosseira das conquistas das mulheres por elas mesmas. Esse comportamento ajuda, certamente, a que se continue a cavar um grande fosso entre homens e mulheres, perceptível na questão salarial. É compreensível. Afinal, o chefe teve uma mãe machista! Ora, vivemos um tempo de transformações: na família, no trabalho, nas instituições. Nele, importa eliminar as pendências entre homens e mulheres, mas, sobretudo, aquelas enraizadas dentro de nós.

Embora maioria na fotografia da população, as mulheres brasileiras estão adormecidas. Falta-lhes um projeto, uma agenda que as tire da mesmice, que as arranque da apatia, que as engaje numa causa qualquer. O problema é que a vida está cada vez mais difícil. Trabalha-se muito, ganha-se pouco, peleja-se contra os cabelos brancos e as rugas, enfrentam-se problemas com filhos, pequenos, médios e grandes, ou com netos. Esgrime-se ainda contra a solidão, a depressão, as dores físicas e espirituais que fustigam os corpos em todas as idades. A guerreira de outrora luta, hoje, um embate miúdo e cansativo: o da sobrevivência.

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Emma Watson, que incomodou muita gente com seu discurso; sufragistas inglesas.

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1 Comentário

  1. Mari disse:

    Sempre leio os textos, mas essa foi o melhor!
    Parabéns moças/mulheres e obrigada

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