Feminismo brasileiro: as pioneiras

Publicado em 28 de fevereiro de 2016 por - História do Brasil

O século XIX foi marcado por importantes transformações no cotidiano dos brasileiros. Foram registradas as primeiras tentativas de participação das mulheres nas discussões em favor de melhorias na sociedade. Sua arma? A pena, a escrita. No momento em que emergiam movimentos sociais como o socialismo e o sufragismo (campanha pela universalização do direito de voto), elas não usaram apenas a voz, mas, sobretudo, as palavras como instrumento de luta.

Uma das pioneiras foi Nísia Floresta. Nascida na pequena localidade de Papari, no Rio Grande do Norte, casada contra a vontade aos 13 anos, logo abandonou o marido e, em 1832, já sustentava mãe e filhos com o salário de professora. Em 1832, publicou #Direitos das mulheres e injustiças dos homens#, artigo em que enfrentava os preconceitos da sociedade patriarcal, exigindo igualdade e educação para todas.Segundo Nísia, a situação de ignorância em que eram mantidas era responsável pelas dificuldades que as mulheres enfrentavam. Submetidas a um círculo vicioso, não tinham instrução e não podiam participar da vida pública. Não participando da vida pública, continuavam sem instrução. Alguns anos depois, já instalada no Rio de Janeiro, Nísia passou a realizar conferências defendendo a emancipação dos escravos, a liberdade de culto e a federação das províncias sob um sistema de governo republicano.

Na mesma época, no extremo oposto do Império, Ana de Barandas se opôs à Revolução Farroupilha. Advogando em favor da participação das mulheres na luta política, colocava-se contra a separação da província do Rio Grande do Sul. E não o fazia só: Delfina Benigna da Cunha e Maria Josefa Barreto usaram versos, redondilhas e panfletos para acusar de anarquistas os partidários da separação. Atacadas pelo sexo oposto por seu envolvimento em ações políticas, eram defendidas por Ana de Barandas: “Tendo nós os mesmos atributos (…) por que autoridade não haveis de querer que nós outras não façamos uso desse admirável presente que recebemos do Criador?!”.

Enquanto isso, na sede da corte, o Rio de Janeiro, a poetisa Narcisa Amália, primeira mulher a se profissionalizar como jornalista, compartilhava as preocupações de jovens intelectuais de sua geração. Eles colocavam a pena a serviço das ideias democráticas e progressistas, da modernização da nação e da elevação do nível cultural e material da população. A percepção da necessidade de educação unia as agendas femininas, de norte a sul: “Sem a instrução popular – dizia Narcisa – a democracia jamais passará de uma dourada quimera”.A segunda metade do século XIX assistiu também ao engajamento de muitas de nossas avós na luta pela abolição. Há inúmeros exemplos: Adelina, a charuteira, escrava do próprio pai, participou de inúmeros comícios abolicionistas em São Luís do Maranhão. Conhecedora dos meandros da cidade onde circulava para vender seus charutos, passou a ajudar os abolicionistas passando-lhes informações e articulando a fuga de escravos.

Na Bahia, Amélia Rodrigues protestava contra o envio de cativos para a Guerra do Paraguai em artigos publicado no jornal O Monitor. Em Pernambuco, Ignês Pessoa descrevia, empoemas, a miséria, sangue e lágrimas dos afro-descendentes, enquanto Maria Amélia de Queiróz, batalhadora polêmica e conferencista renomada, redigia incontáveis artigos defendendo o fim da “criminosa instituição” e em favor da república e da participação das mulheres nas “lutas dos homens”. Já no Ceará, Maria Tomásia Figueira de Melo presidia a sociedade abolicionista feminina Cearenses Libertadoras.

Depois do golpe militar que proclamou a República, em 1889, a vida urbana se acelerou e as indústrias se multiplicaram. Imigrantes trabalhavam mais de 12 horas diante de máquinas, nas piores condições de salubridade. A melhor porta-voz de suas dificuldades foi Patrícia Galvão, mais conhecida pelo pseudônimo Pagu.Desde cedo dedicada às letras, Patrícia participou da Semana de Arte Moderna de 1922, colaborando com a Revista de Antropofagia. Conheceu Luís Carlos Prestes, com quem dizia ter “se feito ciente da verdade revolucionária”. Seu romance Parque industrial, publicado em 1922, provocou escândalo por seus ataques à sociedade paulistana, pela revelação das atrozes condições de vida dos operários e pela desmistificação da figura feminina fora do espaço doméstico.Em 1931, Pagu filiou-se ao Partido Comunista e criou o pasquim O Homem do Povo, de curta duração. A militância política absorveu-a completamente, razão pela qual foi presa várias vezes, no Brasil e no exterior. Em 1950, sua inquietação política a levou a candidatar-se a deputada estadual pelo Partido Socialista Brasileiro, sem sucesso. As mudanças trazidas pelo novo sistema político abriram caminho para a criação de organizações de luta.- Texto Mary del Priore.

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8 Comentários

  1. Marilia Gonçalves de Carvalho disse:

    Adorei a citação sobre Nísia Floresta, é um passo fundamental para torna-la conhecida em todo Brasil.

  2. Vânia Roseli de Alencar disse:

    Gostei muito das contribuições aqui relatadas. Estou iniciando um pre projeto sobre a inserção da atuação de mulher nas engenharias e as referências aqui expostas contribuirão muito para minha fundamentação. Estou apreciando muito a temática.

  3. MARINA BADUY disse:

    GOSTEI MUITO DO TEXTO, MUITO BEM ESCRITO PELA HISTORIADORA MÁRCIA, QUE ANALISA A SITUAÇÃO DA MULHER NO BRASIL DESDE O IMPÉRIO, CHEGANDO NA REPÚBLICA E ENUNCIANDO AS CONQUISTAS FEMININAS. É INTERESSANTE COMO AS MULHERES NORDESTINAS SE DESTACAM NESSA LUTA E TAMBÉM DO RIO GRANDE DO SUL, SÃO PAULO E RIO DE JANEIRO. A MULHER AINDA SOFRE DISCRIMINAÇÃO E PRECONCEITO NESSE NOSSO PAÍS, ONDE OS HOMENS QUEREM COMANDAR.

  4. José Raimundo Cadilhe de Souza Júnior disse:

    A História de luta das mulheres por seus direitos na sociedade é motivo de estímulo para que se continue a luta pela igualdade entre homens e mulheres em todos os seguimentos da escala produtiva nesse país e no mundo, pois é preciso que muitas injustiças sejam reparadas e não mais admitidas, numa sociedade que se diz democrática, onde todos tem os mesmos direitos e deveres perante a lei,a Justiça deve cumprir o seu papel defendendo esta igualdade e punindo toda violação da lei e as arbitraridades cometidas à revelia da mesma lei .

    • marcia disse:

      Agradecemos pelo inédito e imprescindível esclarecimento. A foto nacionalmente conhecida de Nísia, assim publicada em várias obras, não é dela. Essa informação é fundamental para tantos trabalhos que procuram unir literatura e história. Agradecemos, também, por fazer de nosso blog o suporte para tal informação. E parabéns pela pesquisa que há de revelar outros novos dados sobre essa grande feminista.

  5. katia Pereira Cardoso disse:

    O texto é historicamente bem trabalhado. Adoro a história da Construçao do espaço feminino, em qualquer sociedade. Muito há ainda o que se vencer, Para que a mulher empondere-se e possa descontruir o processo machista de submissao ao qual foi e infelizmente ainda lhe é imposto!

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