Feminismo: as mudanças nos anos 70

Publicado em 23 de junho de 2014 por - História do Brasil

Um novo ato se abriu com o desembarque da pílula anticoncepcional no Brasil. Livres da sífilis e, ainda, longe da aids, as jovens podiam provar de tudo. O rock and roll, feito sobre e para adolescentes, introduzia a agenda dos tempos: férias, escola, carros, velocidade e, o mais importante: amor! A batida pesada, a sonoridade e as letras indicavam a rebeldia frente aos valores e a autoridade do mundo adulto. Um desejo sem limite de experimentar a vida hippie e os cabelos compridos se estabelecia entre nós. As músicas de Bob Dylan e Joan Baez exportavam, mundo afora, a ideia de paz, sexo livre, drogas como libertação da mente e, mais uma vez, amor. Os países protestantes – Estados Unidos, Inglaterra e Holanda – consolidavam uma desenvoltura erótica, antes desconhecida. Tudo isso junto não causou exatamente um milagre, mas, somado a outras transformações econômicas e políticas, ajudou a empurrar algumas barreiras.

Insisto, só algumas… Nas capitais e nos meios estudantis, os jovens iam escapando às malhas apertadas das redes familiares. Encontros em torno de festas, festivais de música, atividades esportivas, escolas e universidades, cinemas, a multiplicação de boates e clubes noturnos deixam moças e rapazes cada vez mais soltos. Saber dançar tornou-se passaporte para o amor. “Banho de lua” e “Estúpido Cupido”, na voz de Celly Campello, representavam tentativas de adaptação desse mundo, um universo novo e rebelde.

A moral sexual flexibilizava-se, e casais não casados eram cada vez mais aceitos, já podendo circular socialmente. A sexualidade ainda era vivida como um pecado aos olhos da Igreja, mas um número crescente de católicos – e, em 1950, 93,5% da população declarava-se apostólica romana – começava a acreditar que amor e prazer podiam andar juntos. O Concílio do Vaticano II e a encíclica Gaudium et Spes convidavam a olhar o mundo com simpatia e compreensão. Falava-se em paternidade responsável, em planificação familiar por meio de métodos naturais e muito importantes, em amor conjugal: o amor entre esposos como um bem incalculável para os filhos, a interação entre amor físico e espiritual e a renovação contínua do amor – uma agenda, sem dúvida, revolucionária e generosa para seu tempo.

Por influência dos meios de comunicação e, sobretudo, da televisão, o vocabulário para expressar o amor passa a evitar eufemismos. Embora nos anos 1960 ainda se utilizasse uma linguagem neutra e distante para falar de sexo – mencionavam-se, entredentes, “relações” e “genitais” –, aos poucos, caminhou-se para dizer “coito”, “orgasmo” e companhia. Os adolescentes ainda eram “poupados”, pelos adultos, de informações mais diretas. As relações no cotidiano dos casais começaram a mudar. Ficava longe o tempo em que os maridos davam ordens às esposas, como se fossem donos. Um marido violento não era mais dono de ninguém, apenas um homem bruto.

Carícias se generalizavam, e o beijo mais profundo – o beijo de língua, ou french kiss –, antes escandaloso e considerado até um atentado ao pudor, passava a ser sinônimo de paixão. Na cama, novidades. A sexualidade, graças aos avanços da higiene íntima, estende-se da boca a outras partes do corpo. As preliminares ficam mais longas. A limpeza do corpo e certo hedonismo já latente alimentavam carinhos antes inexistentes. Todo corpo a corpo amoroso tornou-se possível. No quarto, a maior parte das pessoas ficava nua, embora no escuro – amar ainda não era se abandonar. É bom não esquecer que os adultos dos anos 1960 foram educados por pais extremamente conservadores; regras de pudor muito estritas lhes haviam sido inculcadas. Na moda, a minissaia começava a despir os corpos. Lia-se William Reich, segundo quem o nazismo e o stalinismo teriam nascido da falta de orgasmos. A ideia de que os casais, além de amar, deviam ser sexualmente equilibrados começa a ser discutida por alguns “modernos”. Era o início do direito ao prazer para todos, sem que as mulheres fossem penalizadas ao manifestar seu interesse por alguém. Era o início do fim de amores que tinham de se deter no último estágio: “quero me casar virgem”! Deixava-se para trás a “meia virgem”, aquela em cujo corpo as carícias sexuais acabavam “na portinha”. As mulheres começavam a poder escolher entre obedecer ou não às normas sociais, parentais e familiares.

Uma vez acabado o amor, muitos casais buscavam a separação; outros agiam com mais simplicidade: tinham um “caso”. E, desse ponto de vista, o adultério feminino era uma saída possível para quem não ousasse romper com o uso da aliança. Muitos “casos”, sobretudo nas elites, sustentavam casamentos burgueses e sólidos. Maridos e mulheres, com vidas paralelas, encontravam em garçonnières – apartamentos secretos para encontros amorosos, espaço para relações afetivo-sexuais que já não existiam dentro do matrimônio. Na maior civilidade, “tinha-se um caso” com o melhor amigo do marido ou com a melhor amiga da esposa – o importante era não dividir os patrimônios: nem o material, nem o simbólico, este último bem representado em nomes de família tradicional, em posições profissionais de projeção, em carreiras públicas, enfim, no status que seguia impoluto, sem a mancha do divórcio, do lar desfeito ou da consciência pesada.

Nem tudo eram as flores e a liberdade prometidas pelo movimento de maio de 1968. Embora autorizasse a mulher a trabalhar sem prévio consentimento do marido, o Código Civil o mantinha na chefia da família, com todos os direitos assegurados. Ora, onde havia quem mandasse, havia quem obedecesse. As coisas não mudaram. Apesar do surgimento do Conselho Nacional das Mulheres do Brasil, chefiado por Romy Medeiros da Fonseca, que se destacou na luta para promover a posição socioprofissional da brasileira, o diagnóstico era de alterações lentas.

Rose Marie Muraro, em um clássico, A mulher na construção do mundo futuro, demonstrava que a brasileira andava em dois ritmos, o mais acelerado sendo o das grandes cidades. O problema, acusava, era o padrão de dupla moral. Ele não havia mudado. Não eram poucas as que ainda: “educam as filhas e os filhos com duas medidas diferentes, uma para a menina e outra para o menino. Depois, sua posição confortável de ‘dona de casa’, com o sustento garantido, e de ‘rainha do lar’ levam-na a fazer vista grossa aos ‘pulos de cerca’ do marido, em vez de exigir um diálogo franco e profundo”.

Os resultados? A revista Manchete, em janeiro de 1974, publicou uma pesquisa de opinião depois de consultar cem mulheres no país todo. Elas diziam preferir ser objetos dos homens a sujeitos da história. Não estavam interessadas em política nem em igualdade de salários. Davam maior importância à maternidade e à família. Contra o aborto, eram favoráveis à contracepção.

E quanto aos avanços? A imprensa da época revelou mudanças e permanências. A revista Ele & Ela abordava assuntos de interesse para o “casal moderno”. Editoriais indicavam a necessidade de a mulher conhecer a si mesma. E aos homens. Afinal, ela já estava “cansada das angústias que a marcaram por tanto tempo”. Mas os questionamentos influenciados por discussões em pauta nos Estados Unidos e na Europa eram relidos à brasileira quanto à “dificuldade de ser fiel”. Eis a conclusão de um jornalista: “Ora, a imagem da mulher emancipada não suprime a imagem da mulher essencialmente pura, basicamente fiel”.

Quanto ao homem, sua infidelidade seguia intocável. Mesma ambiguidade em relação ao feminismo: se a mulher deixara de “baixar a cabeça” para dizer “eu quero, eu posso, eu vou fazer”, os primeiros sinais de repulsa ao movimento não tardaram. Choviam depoimentos sobre feministas arrependidas, vistas como “mal amadas e masculinas”. E não faltavam conselhos antigos: “A mulher deve ser fêmea e assumir esta condição. Deve ser bonita, desejável e ser mãe. Deve cuidar da casa e dos filhos e esperar o marido de volta do trabalho bem-disposta e arrumada”.  – Mary del Priore.

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