Feitiçaria na Terra de Santa Cruz

Publicado em 2 de abril de 2016 por - artigos

       As grandes cidades portuguesas queriam se ver livres dos elementos que pudessem abalar a paz social ou religiosa. Falava-se em “alimpar” as ruas. Os primeiros “lançados” ou “atirados” foram inicialmente deixados pelas praias a fim de aprender a língua dos nativos e atuar como intérpretes no escambo do pau-brasil em “Pindorama dos tupis”. A seguir, vieram vadios que ficavam pelas ruas à noite, alcoviteiras encarregadas de facilitar encontros galantes, ladrões de galinhas ou perseguidos por furtar “uma mão de trigo”, roubar bolsas na Ribeira ou frutas nas árvores, além de heréticos, feiticeiros, adúlteras e ciganos acusados de “falar geringonça”, ou seja, seu dialeto. Invariavelmente faziam parte do grupo de proscritos enviados a ferros onde faltava mão de obra. Houve quem tivesse sido degredado por assoar o nariz em panos da igreja ou, em sendo padre, falar com mulheres em “tom torpe e desonesto”. Valia tudo para purificar a metrópole.

      Em maio de 1535, um alvará ordenava que os originalmente degredados para a ilha de São Tomé passassem a ser enviados ao Brasil. Homiziados, ou seja, aqueles que viviam fugitivos da Justiça, poderiam vir para a capitania de Pero de Góis, sem lá correr o risco de serem “presos, acusados nem demandados”. Felizes? Não necessariamente. Muitos se queixavam dos sofrimentos e privações vividos no Brasil e não escondiam seu desejo de regressar à pátria. Choravam as saudades de parentes e amigos. Imploravam com insistência o perdão real e muitos chegaram a pedir clemência. Clima e doenças cobravam preço elevado por suas faltas. Sem esquecer que, sobretudo para os degredados pelo Santo Ofício da Inquisição, enviados à Terra de Santa Cruz para pagar pecados, não faltava vigilância, sobretudo pelas denúncias de vizinhos. Cuidava-se para que não difundissem suas práticas “insanas” e múltiplas “culpas” nos territórios colonizados. O Brasil era mesmo o “purgatório” de Portugal.

         Degredados e mamelucos acabaram também por promover um denso caldo de culturas. Veja-se, por exemplo, o caso de certa mulata Maria Barbosa, cujo degredo começou na metrópole, em Évora, bastião dos jesuítas e da Inquisição. Processada por feitiçaria, ela foi enviada a Angola. Lá, prosseguiu suas atividades aliando feitiçarias e alcovitice. Na costa africana, uma verdadeira antecâmara de mestiçagens, Maria teria convivido com os tangomaos, aventureiros de origem incerta, contrabandistas europeus, traficantes de escravos, além de ter visto passarem escravos cristãos portando amuletos e fetiches, mal disfarçados sob as contas dos rosários. De lá, veio para Pernambuco, onde, em 1610, foi acusada de feitiçaria e prostituição. Um africano lhe forneceria as ervas necessárias aos rituais aprendidos em Angola. O bispo da Bahia a remeteu de volta a Lisboa, para ser julgada pela Inquisição. Mas o barco em que viajava foi assaltado por piratas, e ela, abandonada à própria sorte em Gibraltar. Chegou a Portugal, depois de mendigar através da Andaluzia, onde se apresentou ao Santo Ofício. Teve pena leve e foi proibida de voltar à Bahia. Mundialização avant la lettre? Maria Barbosa é um exemplo de como pessoas, crenças e práticas circulavam e interagiam nesses tempos em que os oceanos eram estradas trilhadas com regularidade. – Texto de Mary del Priore.

feitiçariadosso

Feitiçaria, Dosso Dossi.

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