Febre Amarela: uma velha conhecida…

Publicado em 19 de janeiro de 2017 por - artigos

A febre amarela volta a assombrar o Brasil. Ontem, o Ministério da Saúde confirmou a oitava morte no ano provocada pela enfermidade em Minas Gerais. De acordo com informações divulgadas pela imprensa, foram registrados no País 206 casos suspeitos da doença, com 53 óbitos, a maioria em municípios mineiros. Há ainda seis identificados em quatro cidades do Espírito Santo. A doença é uma velha conhecida dos brasileiros: de 1685 a 1692, houve um surto de febre amarela (ou mal da bicha como era conhecida na época) de Pernambuco a São Paulo, que teve efeitos devastadores na população. Havia várias teorias sobre as causas de tal enfermidade: muitos culpavam a sujeira das ruas e as águas paradas, outros acreditavam que as pestes eram causados pela promiscuidade sexual (os links estão no final da página) . Confira o texto de Mary del Priore sobre o assunto:

 

A primeira grande epidemia de febre amarela, transmitida por mosquitos, foi reintroduzida em 1849, na capital do Império, quando um navio americano chegou a Salvador, procedente de Nova Orleans e Havana, infectando os portos e se espalhando por todo o litoral brasileiro. Na capital, espalhou-se rapidamente, pois não existia esgoto e a infraestrutura sanitária era extremamente precária, desde o recolhimento dos resíduos ao abastecimento de água até o comércio de alimentos nas ruas, sem nenhuma condição de higiene.

       No entanto, antes de se estabelecer a aceitação do papel do mosquito, outras teorias e concepções eram propostas para sua transmissão. Era o caso das teorias miasmática e contagiosa. A primeira apontava para a crença segundo a qual, doenças seriam veiculadas pelos “ares pestilenciais”, enquanto que a ideia de contágio, presente inclusive na Bíblia, apostava na transmissão de pessoa a pessoa. Era assim que, no correr do século XIX, tentava-se esclarecer o misterioso mecanismo da transmissão da febre amarela e de tantas outras doenças: ora apelando para supostos miasmas – termo presente nas concepções hipocráticas e que em grego significa “manchar”, “tingir” -, ora propondo o contágio direto. Quando não, mesclando ambas as hipóteses. Isso, bem entendido, antes da assim chamada “revolução pasteuriana”.

        No caso de epidemias, elas seriam fruto da “mudança de temperatura”, a qual os emigrantes estariam mais expostos e suscetíveis. Segundo alguns doutores, os negros e aqueles que já se encontrassem aclimatados às regiões onde a doença se apresentava teriam menores possibilidades de contraí-la. As “causas atmosféricas” podiam por sua vez atingir não só aos indivíduos, mas às populações inteiras. Tais “causas atmosféricas” podiam ser os miasmas dos pântanos, emanações emitidas pelas proximidades do mar ou de terrenos úmidos, ou em todos os lugares que se acham próximos de matas e rios, expostos à ação de intenso calor, e onde a decomposição das matérias animais e vegetais fazia-se rapidamente. O ar era considerado como um “caldo pavoroso” onde se misturavam emanações de corpos em decomposição, fumaça, enxofre, vapores aquosos, voláteis, oleosos e salinos, entre outros elementos. Ali se incubariam todos os males.

       Uma grande epidemia de febre amarela matou mais de 3% da população da cidade brasileira de Campinas no verão do ano de 1889, Adolfo Lutz, em suas reminiscências sobre a febre amarela, calculou em três quartos a população que deixou Campinas em direção a outras cidades, fugindo da moléstia. O Brasil já era, então, considerado perigoso por conta das enfermidades infecciosas. As agências de viagem na Europa operavam direto para Buenos Aires, sem escala, privando o império do transporte marítimo e da exportação do café. Uma intrincada rede de acontecimentos afetava o país, a partir desse cenário: a cafeicultura era prejudicada – a mão-de-obra era emigrante e vulnerável à febre amarela; não havia como pagar a dívida externa – sobretudo, a contraída com bancos ingleses.

  • “Histórias da Gente Brasileira: Império (vol.2)”, Editora LeYa, 2016.

Os leitores do blog HistóriaHoje.com poderão comprar um exemplar autografado por Mary del Priore do segundo volume da coleção “Histórias da Gente Brasileira” . Para mais informações, escreva para historia.hoje@bol.com.br 

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Cirurgião negro, de Debret (1826).

SAIBA MAIS:

Doenças transmitidas por mosquitos são históricas no Brasil

Ministério confirma 8ª morte por febre amarela em Minas, G1

 

Febre Amarela deixa 8 mortos em MG, Folha de S. Paulo

Prostituição e doenças: os pecados que atraíam a “peste”

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