Família escrava no Brasil

Publicado em 20 de agosto de 2014 por - História do Brasil

Por Jonis Freire.

Os estudos sobre a escravidão no Brasil vêm, nos últimos anos, se dedicado a temas muito variados. Diversos aspectos do cotidiano daqueles homens e mulheres escravizados têm sido pesquisados. São novas abordagens que demonstram como aqueles indivíduos, apesar das dificuldades impostas pela escravidão, conseguiram se organizar em busca de “ganhos” políticos, econômicos e sociais.

Essa “nova” perspectiva tem levado os pesquisadores a encontrar um sistema escravista diferente daquele que até então se imaginava. Não se trata mais da “velha” dicotomia “pai João (o escravo submisso)” versus “Zumbi” (o escravo violento). A visão de um escravismo estático, baseado numa dicotomia entre senhores e escravos, no qual apenas aos primeiros caberia a condução do escravismo, não mais se sustenta. Está claro que os senhores eram a parte mais forte da contenda; entretanto, para os cativos havia a possibilidade de se mover dentro de certos espaços. O escravo, visto como sujeito dentro do sistema no qual se inseriu, estabeleceu uma relação ora de dependência, ora de autonomia.

Nesse sentido, os estudos sobre a família escrava, derrubaram várias teorias a respeito da promiscuidade dos cativos, da fragilidade de suas vidas familiares e de seus laços afetivos, sua suposta anomia e a instabilidade do convívio entre pais e filhos, etc. Apesar do impacto devastador do cativeiro não se pode mais dizer que a família escrava não existia ou a vida íntima dos escravizados era desorganizada.

A família foi importante para a vida e os projetos daqueles indivíduos inclusive aqueles ligados a liberdade. Liberdade era o desejo que rondava os corações daqueles homens e mulheres escravizados. A família teve papel importante nas estratégias empreendidas pelos cativos na sua luta pela alforria. A passagem da condição de cativo para a de forro/liberto foi motivo de variados estratagemas, ora solitárias ora familiares, que os escravos elaboravam, utilizando-se de suas experiências, conhecimentos e astúcia no embate cotidiano pela obtenção do sonho de liberdade. Comprando, ganhando, negociando, brigando. À medida que as oportunidades surgiam, a despeito das relações desiguais entre senhores e escravos, os cativos e seus familiares as aproveitavam com o intuito de retirar-se do cativeiro.

Na luta pela liberdade, as famílias escravas constituíram papel fundamental. A liberdade para os cativos ancorava-se na perspectiva de uma vida melhor para eles e seus familiares em sua nova condição jurídica; projeto em que muitos participaram. Para tanto, os escravos não se furtaram a cada vez mais lutar para retirar da escravidão suas mães, pais, filhos, avós, primos,…. Aqueles com quem iriam reconstruir suas vidas no mundo da liberdade.

A família escrava foi ainda muito importante para a vida cotidiana dos cativos, por meio dela, eles tiveram a oportunidade de manter e redefinir suas raízes africanas. Puderam também contar com uma instituição forte que lhes constitui espaços de sociabilidade e solidariedade.

Um diálogo ocorrido, em 1816, entre Saint-Hilaire e um escravo, quando ele passou por Minas Gerais, pode nos dar uma visão interessante da questão. Chegando a uma plantação de milho, o viajante avistou uma fumaça que “anunciava uma choça qualquer de negro”. Dirigindo-se para aquele lado encontrou uma barraca, que os pretos da Província de Minas tinham o costume de levantar quando eram obrigados a dormir no campo. Ao se aproximar da choça, Saint-Hilaire se deparou comum negro sentado no chão. A partir daí, travou um diálogo com o escravo em que, segundo ele, não modificou uma única palavra:

Saint-Hilaire – Você naturalmente se aborrece vivendo muito só no meio do mato?

Escravo – Nossa casa não é muito afastada daqui; além disso, eu trabalho.

Saint-Hilaire – Você é da costa da África; não sente algumas vezes saudade de sua terra?

Escravo – Não: isto aqui é melhor; não tinha ainda barba quando vim para cá; habituei-me com a vida que passo.

Saint-Hilaire – Mas aqui você é escravo; não pode jamais fazer o que quer.

Escravo – Isso é desagradável, é verdade; mas o meu senhor é bom, me dá bastante de comer: ainda não me bateu seis vezes desde que me comprou, e me deixa tratar da minha roça. Trabalho para mim aos domingos; planto milho e mandubis (Arachis), e com isso, arranjo algum dinheiro.

Logo a seguir, o naturalista francês fez declarações pouco convincentes a respeito da escravidão e da cultura africana. Afirmando que eles não eram tão infelizes e que se acostumavam com a escravidão preocupando-se pouco com o futuro. Parece que ele levou ao pé da letra o que o escravo lhe diz, sem se perguntar se o mesmo estava dizendo (a um branco, “amigo” dos senhores) o que realmente pensava. Ao dialogar com o viajante, o escravo pode ter feito uma representação daquilo que ele queria que fosse absorvida pelo estrangeiro. Neste sentido, é interessante se pensar em que medida os relatos de viajantes foram moldados pelos não europeus (como os escravizados).

O parentesco espiritual foi outro aspecto bastante importante para a família, e para os escravizados não foi diferente. O batismo cristão se mostrou uma instituição forte e almejada por todos os estratos da população, significava a entrada do pagão no seio da Igreja Católica. Aqueles indivíduos buscaram esse sacramento e estabeleceram a partir daquele momento relações de solidariedade e reciprocidade por meio do compadrio (parentesco espiritual). Para além de seu significado católico, os laços estabelecidos pelos cativos e seus padrinhos perante a Igreja Católica extrapolaram o espaço da Igreja e mostraram-se presentes em toda a sociedade. Tais laços podiam ser usados, para reforçar laços de parentesco já existentes, solidificar relações com pessoas de classe social semelhante ou estabelecer laços verticais entre indivíduos socialmente desiguais.

Mas a família para além do afeto, dos cuidados, das relações engendradas tanto com a comunidade cativa tanto com seus senhores, foi esteio, arrimo para a conquista da liberdade. Aproveitando-se de todas as “brechas” na relação senhor-escravo sempre com muita astúcia, estratégia, e utilizando-se das experiências conformadas em suas vidas na sociedade escravista de outrora aqueles escravizados buscaram a liberdade. A liberdade para eles era um projeto coletivo. Negociando, adquirindo pecúlio, revoltando-se, recorrendo à justiça, os cativos e suas famílias conseguiram resgatar do jugo do cativeiro, seus pais, mães, filhos, …

escravos1

Johann Moritz Rugendas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

2 Comentários

  1. José Ventura disse:

    Acho incrível como um historiador pode dominar o tema que aborda e o faça dr utilizando de um texto repetitivo, cansativo, sem pés nem cabeça…

    Sou fã dos textos da Dra. Mary del Priore e da Prof. Márcia Pinna Raspanti, e parabenizo a visível capacidade física e intelectual por sua grande dedicação ao blogue, que sempre evoluiu para melhor.

    José Ventura, historiador (SP)

Deixe o seu comentário!