ET NOUS AUSSI, NOUS SOMMES CITOYENNES: AS MULHERES E A REVOLUÇÃO NA FRANÇA

Publicado em 26 de dezembro de 2014 por - História

Por Natania Nogueira.

Na França pré-revolucionária do século XVIII, nem mesmo as ideias da ilustração foram capazes de oferecer às mulheres direitos iguais aos dos homens. Principalmente entre aquelas que pertenciam a grupos socialmente ou economicamente privilegiados, a vida pública lhes era negada e poucos eram os momentos em que lhes era permitido interagir com os homens. Sua formação era voltada para o casamento, sua educação era mínima não havendo, nesse sentido grandes mudanças entre o século XVI e o século XVIII.

O espaço público pertencia ao homem, enquanto a mulher deveria ser relegada ao espaço privado. Dentro da lógica da dominação masculina, cabia ao homem realizar todos os atos espetaculares, que exigissem riscos e bravura, ações onde pudesse fazer valer suas habilidades e força física superiores. Às mulheres atribuíam-se os trabalhos domésticos, privados, invisíveis e vergonhosos, sujos monótonos e mais humildes.

Mas na França do século XVIII, as mulheres fizeram muito mais do que isso. Antes da eclosão da Revolução de 1789 elas se faziam presentes no movimento ilustrado como tema dos debates políticos ou mesmo sendo suas incentivadoras. Nesse período, desenvolveram-se na França duas correntes de pensamento acerca do papel da mulher na sociedade. Uma, que teve menos penetração, baseava-se nas ideias de Paullain de La Barse, que defendia a igualdade entre homens e mulheres. Segundo La Barse e seus seguidores, as mulheres deveriam ter os mesmo direitos que os homens e compartilharem da mesma educação.

De outro lado, havia Jean Jacques Rousseau, para quem a mulher não era apenas diferente do homem, mas inferior a ele. Ela seria marcada por suas funções sexuais, uma eterna doente e incapaz de possuir um pensamento racional. Sua função seria tão somente ser mãe e esposa, dedicando-se às atividades domésticas. Para Rousseau e seus seguidores, as mulheres situavam-se fora da história, uma vez que sua razão e sua natureza não eram capazes de evoluir.

Atualmente, sabemos que Revolução Francesa foi marcada por uma intensa participação das mulheres, que representavam os diversos grupos que acreditavam estar lutando por mudanças na sociedade. Elas acompanhavam os trabalhos na Assembleia e manifestavam-se, apoiando ou pressionando os deputados. Apesar de não terem direitos de representação, eram elas que levavam informações e reivindicações aos membros da Convenção.

Entre os anos de 1789 e 1791, formaram-se as primeiras organizações mistas ou femininas. Esses clubes eram compostos por mulheres que assumiam sua direção e administração. Inicialmente formados por mulheres de origem burguesa, mas, à medida que a revolução ganhava as ruas, começaram a se abrir para mulheres de todos os grupos. Neles, as mulheres desenvolviam atividades assistenciais e começavam a se interessas pela política. Nesses clubes, elas expressavam seu patriotismo por meio da caridade, reunindo-se em celebrações de cunho cívico e religioso, enfim, com atividades que eram consideradas socialmente adequadas ao sexo feminino.

Entre 1791 e 1793, foram criados clubes políticos femininos em cerca de cinquenta cidades. Nesses clubes, as atividades eram direcionadas à ação política efetiva, e neles as mulheres faziam debates sobre os direitos da mulher e sobre os rumos da Revolução. O patriotismo feminino evolui e, a certo ponto, chega a ameaçar os homens, dada a intensidade das campanhas e o ativismo feminino. Nesse momento, algumas mulheres vão se destacar.

Uma delas foi Claire Lacombe, uma artista de província, que recebera uma coroa cívica por ter participado da Tomada das Tulherias. Em maio de 1793, ela foi uma das fundadoras da Sociedade das Republicanas-Revolucionárias, de orientação jacobina, o mais famoso clube de mulheres durante a Revolução. Elas participavam de manifestações populares que geralmente terminavam em embates com girondinos, com quem poderiam ser implacáveis.

As republicanas-revolucionárias chegaram a ser aceitas nas reuniões dos conselhos das secções parisienses, mas não sem causar indignação dos homens, que negaram a elas os direitos políticos que tanto desejavam. Podiam participar, até se pronunciar, mas não tinham o direito de votar, de decidir. Não que isso as tivesse impedido de influenciar o resultado de muitas votações. No entanto, entre os anos de 1793 e 1795 sua participação foi sendo limitada até que os clubes políticos femininos foram proibidos.

Outra personagem importante foi Olympe de Gouges, a primeira a reivindicar para as mulheres direitos políticos. O seu verdadeiro nome era Marie Gouze,  oriunda de uma família burgueses de Montauban. Olympe colocou fim a um casamento infeliz e mudou-se para Paris onde acabou se destacando graças à sua inteligência e beleza. Acabou militando pela causa revolucionária, tornando-se uma grande oradora. Teve influência na Assembleia Nacional, que em geral não escutava as mulheres. Liderou campanhas contra a fome da população e para ajudar instituições que recebiam os pobres, como os hospícios, organizando caixas de socorro públicas.

Em 1791, escreveu a Declaração dos Direitos da Mulher, à qual dedicou à rainha Maria Antonieta. Nela, exigia para todas às mulheres a igualdade de direitos e deveres diante da lei. Além disso, reivindicou ainda o direito ao sufrágio universal. Foi presa em 20 de Julho de 1793, julgada em novembro pelo tribunal revolucionário e executada na guilhotina. Era  acusada de ter “tentado sabotar a República com os seus escritos”, sendo aí sido citado o texto de sua autoria Les trois umes ou le Salut de la Patrie.

As mulheres também pegaram nas armas, enfrentaram tropas leais ao rei e defenderam a revolução. Chegaram a exigir frente à Assembleia o direito ao porte de armas. Os deputados alegavam que as mulheres eram delicadas demais para manejar armas de fogo, mas isso não impediu que elas, de fato, o fizessem, participando de marchas armadas e até mesmo de enfrentamentos.

O discurso acerca da fragilidade do corpo feminino pode até justificar a recusa dos homens em liberar o porte de armas, mas não impede que muitas mulheres tomem a iniciativa. Mulheres se alistaram como voluntárias no exército ou simplesmente se disfarçavam de homens para poderem lutar, como soldados-cidadão. As mulheres soldados desejavam a oportunidade de lutar pela Pátria e pela revolução, defendendo-a de seus inimigos. O número exato de mulheres que se ingressaram no exército, assim como daquelas que participaram das milícias urbanas, é impreciso. Eram, possivelmente, mais numerosas do que se imagina. Mas a participação das mulheres em guerras não era necessariamente uma novidade.

As mulheres soldados francesas vinham um grupo social considerado modesto, sendo filhas de camponeses, operários e artesãos, não lutavam por suas terras, títulos ou privilégios ou desejavam fugir da repressão que lhes era imposta pelos seus pais e pela sociedade. Eram mulheres politizadas, apesar de possuírem pouca ou nenhuma instrução. Elas desejavam exercer seu dever cívico de proteger a nação. Muitas delas não militavam pela defesa dos direitos da mulher ou mesmo pelo sufrágio. Sua ação era cívica. A revolução instaurava um novo sentido de cidadania ao qual muitas se sentiam impelidas a compartilhar, seja por meio das armas ou dos clubes femininos.

 

OlympeDeGouge

Olympe de Gouges, pseudônimo de Marie Gouze, foi uma feminista, revolucionária, historiadora jornalista, escritora e autora de peças de teatro francesa. Disponível em: http://education.francetv.fr/frise-chronologique/l-histoire-des-droits-de-la-femme-o30178, acesso em 18 de dez. de 2014.

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