Estupro, Machismo e História

Publicado em 2 de maio de 2017 por - artigos

        Em meu livro Histórias e Conversas de Mulher desenvolvo as razões pelas quais vivemos uma longa tradição machista. E, de modo curioso, somos nós que a alimentamos. Estudiosos de revistas femininas, letras de músicas e imagens publicitárias demonstram que “uma mulher livre” não é absolutamente, aquela que faz escolhas. E, sim a que se conforma aos modelos da mídia; que só se enxerga através da visão do homem. Ou seja, as leis mudam, mas o essencial continua intocado: mulheres continuam a educar seus filhos e tratar os maridos, reforçando a idéia de superioridade do sexo masculino. Filhos não lavam louça. Maridos não fazem a cama. Em casa, elas devem agradá-los. Só gostam de ser chamadas do que for comestível, tipo “gostosa” e “docinho”. Mulher inteligente? “É sapatona!” Mulher fruta? “Linda” – as outras querem ser iguais a ela. Palavrões e pancadas? Algumas acham que tal forma de demonstrar zelo e ciúmes “é boa”; que, quando Nélson Rodrigues afirmou que “mulher gosta é de apanhar”, estava certo.

       Tudo indica que o problema não é na rua, mas em casa. É lá que elas escondem os sentimentos masculinizados. Muitas protegem filhos que agridem outras mulheres. A ideia é tornar marido e filhos dependentes delas em assuntos domésticos, pois muitas são dependentes financeiras deles. Outras calam sobre comentários machistas dos companheiros, incentivam piadas e estereótipos sobre a “burrice” feminina, cultivam cuidadosamente o mito da virilidade. Gostam de se mostrar frágeis, pois acreditam que eles, assim, sentem-se mais potentes. Acreditam que a feminilidade é um estado natural, a ser conservado, e que todas as despesas aí investidas, até cirurgias que acabem por desfigurá-las, são um bom negócio. São coniventes com a propaganda sexista e com a vulgaridade da mídia. Na TV, aceitam temas apelativos e não se incomodam que estes encham a cabeça das filhas.

      Conclusão: há uma desvalorização grosseira das conquistas das mulheres por elas mesmas. Esse comportamento ajuda, certamente, a que se continue a cavar um grande fosso entre homens e mulheres, perceptível na questão salarial. É compreensível. Afinal, o chefe teve uma mãe machista! Ora, vivemos um tempo de transformações: na família, no trabalho, nas instituições. Nele, importa eliminar as pendências entre homens e mulheres, mas, sobretudo, aquelas enraizadas dentro de nós.

     As Visitas do Santo Ofício da Inquisição revelam que a falocracia foi uma constante em nossa história: meninas de sete e oito anos eram estupradas sem que o Bispo Inquisidor desse a menor atenção ao fato. O crime perseguido pelo Tribunal era o de desperdício de sêmen que só podia ser usado para a reprodução da família. Isso aponta não só a presença da pedofilia, mas também do abuso sexual. Há milhares de registros de índias e africanas estupradas em nome da ocupação territorial e da colonização. A escravidão reforçou a submissão da mulher que livre ou cativa, era tratada como uma escrava. A Igreja católica explorou as relações de dominação que presidiam o encontro de homem e mulher dentro de casa, incentivando a última a ser exemplarmente submissa. A relação de poder já implícita na escravidão se reproduzia nas relações mais íntimas entre marido e mulher, condenando esta a ser uma escrava doméstica, cuja existência se justificasse em cuidar da casa, cozinhar, lavar a roupa, servir ao chefe de família com sexo, dando-lhe filhos que assegurassem sua descendência e servindo como modelo para a sociedade com que sonhava a Igreja.

     O estupro é um fato histórico registrado do Deteuronômio à mitologia grega. O Direito Romano creditava ao pater familie o controle sexual das mulheres da casa. Mas é nas guerras que o estupro se revela uma forma terrível de humilhar os vencidos. Santo Agostinho já observara que eram comuns os estupros junto com as pilhagens e o massacre dos homens. Depois da I Guerra, as americanas enviaram à Conferência de Paz de Paris uma petição para que as milhares de “desonradas” fossem consideradas “feridas de guerra”. Na Segunda Guerra Mundial, o exército japonês colocou à disposição de seus soldados entre 20 e 200 mil mulheres chinesas para “seu conforto”. O exército russo também violou cerca de dois milhões de alemãs quando da queda do III Reich, dando o troco às invasões nazistas de 1941-44 em que tantas milhares de russas foram violadas.

     Entre outras, nas guerras da Argélia, de libertação do Bangladesh, no Congo-Brazzaville, no Iraque, ou na Bósnia, Croácia, Ruanda e Darfour, onde o estupro se tornou uma forma de depuração étnica associada à difusão da AIDS, os casos se tornaram tão brutais que em 2001, o Tribunal Penal Internacional incluiu o estupro entre os crimes contra a humanidade.

      No Brasil Colônia, devemos destacar que nem todas as escravas eram objeto sexual e nem todas foram estupradas. Isso é um estereótipo que a história já demonstrou não se sustentar. Por outro lado, estupros ocorriam e os violadores só eram acusados quando de tratava de escravas, ou seja, de propriedade, de outra pessoa. Porém, a desqualificação da cativa era um fato e Gilberto Freyre lembra que, no período colonial se acreditava que a sífilis podia curar-se, infectando sete jovens virgens, escolhida normalmente entre escravas. Uma das heranças é o desprezo pela integridade da mulher objeto, usada quando e como se quer.

  • Texto de Mary del Priore (edição: Márcia Pinna Raspanti).

Zichy Mihaly – Artists Love.

 

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2 Comentários

  1. Thiago disse:

    Pedofilia nesse caso não seria um termo anacrônico? visto que esse conceito ainda não tinha sido construido no periodo colonial?

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