Esporte, saúde e emancipação feminina

Publicado em 1 de outubro de 2016 por - artigos

      No início do século XX, elegância feminina começou a rimar com saúde. Se a mudança ainda se revelava hesitante, não demorou muito a se instalar e a tornar-se inexorável. Nascia uma nova mulher. “Hoje em dia, preocupada com mil frivolidades mundanas, passeios, chás, tangos e visitas, a mulher deserta do lar. É como se a um templo se evadisse um ídolo. É como se a um frasco se evolasse um perfume. A vida exterior, desperdiçada em banalidades é um criminoso esbanjamento de energia. A família se dissolve e perde a urdidura firme e ancestral dos seus liames”, queixava-se um editorial da Revista Feminina. Ela abandonara os penteados ornamentais com ondas conseguidas graças aos ferros de frisar para cortar os cabelos à “la garçonne”. O sport, antes condenado, tornara-se indicativo de mudanças: “Nosso fim é a beleza. A beleza só pode coexistir com a saúde, com a robustez e com a força” alardeava o autor de “A Beleza feminina e a Cultura Física”,  em 1918.

     Mas as mudanças caminhavam a passos largos. Para ficar num exemplo, no dia 8 de fevereiro de 1920, na piscina do Fluminense Futebol Club, ocorreu a primeira competição em piscina com três provas femininas. Nadaram: Edith Julien, Maria Augusta Lopes, Mirian Antunes e Adélia Caldas Brito. Tudo indica que, desde 1919, quando a piscina do Fluminense foi inaugurada (a primeira no Rio), mulheres, sócias do clube, já participavam de aulas de natação. Em 1949, a ligação pelo então túnel Carioca, hoje Túnel Novo, ganhou uma segunda galeria. O fácil acesso às praias de Copacabana e Ipanema chegou com uma nova invenção: a do biquíni. Os cinejornais de César Nunes revelam as cariocas em pesados duas-peças, muitas delas esquivando-se das câmaras para não serem reconhecidas pelos familiares. A voz do locutor anunciava que a praia era patrulhada por uma “polícia marítima” encarregada de impedir “os malandros de tirar casquinhas no rebuliço das ondas da arrebentação”.

    Esses foram os anos dourados da natação feminina. Na piscina do Flamengo, por exemplo, a arquibancada vinha abaixo com gritos de “Boa”, “Boa”, cada vez que a escultural Neusa Cordovil subia à raia para disputar uma prova. Em São Paulo, treinando no Tietê, destacou-se a grande nadadora Maria Lenk, autora de Natação, coroa dos exercícios físicos, livro no qual explicava que nadar “não prejudicava as virtudes femininas de graciosa fragilidade impostas pelo machismo dominador”. Revistas como a Tricolor, de 1929, louvavam a natação, esporte que transformava mulheres em sereias:
“Devemos destacar a prova em que Vera Oiticica, qual sereia encantadora, olhando o teto da piscina com o sorriso da vitória nos meigos lábios entreabertos, venceu a já famosa Veroneze. […] venceu admiravelmente bem. Como a nadadora excelente que é e empolgou ainda mais pela elegância do estilo que possui […]. O seu triunfo foi saudado por estrepitosa salva de palmas […] que sirvam de incentivo […] para que ela, jovem como é, chegue a ser mais tarde a embaixatriz brasileira em contendas mundiais […] Que Vera ofereça ao mundo um exemplo da pujança da nossa raça”.
Entre os homens o desafio não chegava a ser a travessia do canal da Mancha, mas da baía de Guanabara, como conta Carlos Imbassay:
“Anualmente, havia esta célebre prova, com largada em Niterói, ao longo da praia do Rio Branco, entre a Ponte das Barcas, no largo central da cidade, e a Ponta da Armação. Naquela época, ainda não existia o campo de Aviação Santos Dumont e a praia da chegada, no Rio de Janeiro, se estendia do Cais dos Pharaux, ao lado do Forte de Villegaigon, na ilha do mesmo nome, onde hoje funciona a Escola de Oficiais de Marinha, e da praia de Santa Luzia à da Glória. Neste ponto estava instalada a Comissão de chegada. Havia duas espécies de medalha: para o “fita azul”, colocação do primeiro lugar, premiando os três melhores, e de honra para os que conseguissem realizar a proeza da travessia, independente de classificação. Cada concorrente era acompanhado de um barco, sendo o barqueiro, ao mesmo tempo, fiscal e socorrista de emergência dos que perdessem o fôlego. O barco recolhia o desistente, fazia o trasfego para a lancha de comando, acabando aí sua missão, ou então acompanhava o nadador até o fim da prova, quando não baqueava”.

    O ciclismo, que tinha passado de enormes velocípedes que chegaram ao Brasil em 1860, para a bicicleta, foi um das modalidades esportivas que apaixonou seus adeptos. Artigo de luxo e importado, ela ajudava seus usuários a se identificar com os esportes praticados na Europa. A Avenida Paulista, por exemplo, era associada por Laura Rodrigo Octávio aos passeios de bicicleta: “Conheci esta avenida despovoada […]Meus pais e outros amigos adeptos do novo esporte iam com suas máquinas fazer exercícios na larga avenida, sem ninguém que os perturbasse. As moças suavam uma calça bombacha, coberta por saia fendida, apesar de usarem bicicletas especiais e chapéu canotier, em palha – chapéu bilontra – e a criançada ficava na calçada de espectador”.

    Na revista A bicicleta, publicada em São Paulo, havia inclusive uma seção denominada “às cyclistas”, assinada pela colunista La mode, na qual descrevia os comportamentos e os modelos de roupas adequadas às mulheres em seus passeios sobre rodas.  Para elas, a bicicleta serviria para passeios. Nada de provas. As pernas separadas pelo selim despertavam o humor grosseiro e a desconfiança de muitos como se vê em charges de jornal.  Tanto em São Paulo, no Esporte Clube internacional, quanto em Porto Alegre, onde nasceu a União Velocipédica de Amadores, multiplicavam-se os esportistas, apesar de coibidos os jogos de azar. A bicicleta, ao contrário do vício do jogo, representaria um esporte capaz de trazer contribuições para a juventude brasileira.  O Velo Club do Rio de Janeiro era considerado pioneiro da modalidade: “ali se encontra o que há de mais chique e elegante no high-life fluminense” cravava o Jornal do Brasil. E sobre as competições, um instantâneo:

“No início do século os paulistas se divertiam indo ver corridas de bicicleta no Velódromo à Rua da Consolação. Corriam rapazes de família, entre eles, o Antonio Prado. Dentro do Velódromo existia uma arquibancada coberta e um gramado rodeado pela pista em cimento com seus declives na curva para corridas de bicicleta.– contou Laura Rodrigo Octávio. Vale acrescentar que Antonio Prado tornou-se o primeiro brasileiro a participar de competições internacionais e do Comitê Olímpico Brasileiro e, depois, Internacional. Estabelecimentos “velocipédicos” se multiplicaram, por “úteis, salutares e higiênicos” e o esporte serviu até para vender remédios. A propaganda de um tônico dizia: “Na pista do Velo-Club, chegou na ponta Joãzinho, porque bebeu Emulsão da Farmácia Abreu Sobrinho”.

    Se até o início do século, a maioria das mulheres acompanhava os desportos como plateia, “enfeitando com toilettes chiques” as arquibancadas, em algumas modalidades, algumas já participavam em igualdade de condições. É o caso do tênis. Tal como no hipismo, a prática era mista, e não havia divisão de papéis e sim, uma camaradagem que alimentava os laços sociais. Tanto no Rio de Janeiro, quanto em São Paulo, a modalidade foi introduzida por ingleses, eles também responsáveis pela construção das primeiras quadras. Nelas, duplas mistas exibiam-se no que era mais um estilo de vida, uma marca de classe do que um desporto que exigisse superação. Carolina Nabuco era adepta:

 “O velho Tênis Club que eu comecei a freqüentar desde a minha chegada ao Brasil em 1910. O clube fervilhava de animação. Os moços distraíam-se com o jogo; grupos menos jovens vinham à tarde conversar […] Entre os mais assíduos amigos da raquete contava-se o famoso Santos Dumont que se mudara para Petrópolis…Era visto de todo o lado acompanhado pelo seu policial alemão, um bonito cão…Pequeno, magrinho, grisalho, Santos Dumont era lépido como um terrier ao correr atrás da bola, mas seu jogo não era da classe ali praticada. Era atrasado pelo menos uma geração em métodos de jogar e em velocidade. Nunca batia bolas de alto para baixo, fosse no saque fosse na rede. Nada de smaches; só lobs. Os bons jogadores esquivavam-se de jogar com ele”.

  • Texto de Mary del Priore.

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Esporte e elegância: traje de banho nos anos 20.

Imagem: “A Moda da Década de 20”, organizado por Charlotte Fiel e Emmanuelle Dirix (Publifolha, 2014),

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