Espíritos, almas penadas, vampiros: quando os mortos estão entre os vivos

Publicado em 1 de outubro de 2014 por - História

Ouvir falar de espíritos não é nenhuma novidade, pois a coisa vem de
longe. Há séculos conversamos com o outro lado. Há tempos queremos
ouvir nossos mortos. Extrair deles uma informação. E tudo começou lá atrás. Entre os judeus dos tempos bíblicos, prevalecia a ideia de um destino indiferenciado dos mortos no mundo do Sheol: “tumba comum da humanidade”. Foi a partir do século II de nossa era que surgiu a crença na ressurreição e no julgamento no fim dos tempos. O sombrio Sheol se tornava assim um lugar de espera provisória. Uma parada antes do inferno ou do céu. Depois da morte, os justos ganhariam o reino dos céus e os pecadores a Geéna, ou vale dos Gemidos.

Retornos e aparições? Sobre eles, apenas uma referência na Bíblia: a pitonisa de Endor fez aparecer diante de Saul o espectro de Samuel. O judaísmo condenava a ideia de entrar em contato com os mortos ou de interrogá-los e invocá-los. Consequências? A ira de Deus. No Novo Testamento, a proibição do contato com os mortos é menos categórica. Embora haja certa reticência em frases do tipo
“Deixai os mortos enterrarem os mortos”, Jesus ressuscitou uma
menina e também Lázaro. Era o prenúncio de sua própria ressurreição
– cercada, aliás, de medo e terror: os guardas do túmulo fugiram
apavorados. No Evangelho de Nicodemos, também conhecido como
Atos de Pilatos, o mundo dos mortos é apresentado como uma cidade subterrânea e escura, com portas fortificadas e pesados gonzos. Quase uma prisão. Mas uma prisão permeável, da qual Cristo, quando o deseja, pode liberar o vaivém de alguns.

Alto e baixo se opunham: em cima, o céu; embaixo, o inferno. Acima,
luz; abaixo, trevas. Diferentemente do Sheol judaico, o cristianismo
imaginou um inferno povoado de demônios e regido por um maestro.
Deus criou um personagem que, bem entendido, inventado e dominado por Ele, era o Príncipe do Mal e governador das profundezas. O culto dos santos, que se propagou entre os séculos III e IV, firmou outra ideia: a de que era importante substituir o culto dos mortos, vindo da Antiguidade, pelo dos santos.

A ideia era de que só os santos ligassem os homens a um distante e quase inacessível Deus. Apenas eles ofereceriam proteção e conforto contra o medo e a insegurança. Apenas eles poderiam interceder como advogados das causas humanas. Nascia, portanto, uma mediação entre os dois mundos, graças exclusivamente a esses amigos invisíveis. E não mais aos mortos.
No entanto, as duas formas de encarar a relação entre vivos e
mortos subsistiram. Segundo um modelo herdado da Antiguidade, os
vivos deveriam cuidar dos seus mortos e vice-versa. Segundo um modelo
eclesiástico, definido por santo Agostinho, o conjunto da comunidade
cristã deveria rezar por seus fiéis defuntos. No primeiro caso, o
culto consolidava tradições velhíssimas. No segundo, ele modelava a
crença na qual apenas os santos podiam cuidar dos vivos.
No século XIII, uma novidade: a invenção da ideia de purgatório
permitiu aos mortos, até então tranquilos, achar um caminho para vir
pedir orações e sufrágios aos vivos.

Na concepção cristã, o purgatório era, igualmente, a morada dos
mortos que não repousavam em paz. Eram tidos por almas penadas
ou danadas, o oposto das boas, sempre belas e resplandecentes. Criaram-
se categorias para os mortos-vivos: havia os recalcitrantes, que
eram levados ao túmulo contra a vontade. E os que voltavam e o faziam
para ajudar os vivos. Ou ainda os invocados pela necromancia,
nome dado à arte de adivinhar o futuro por meio dos defuntos.

Na Idade Média, fantasmas e almas do outro mundo começaram
a registrar sua existência. Cronistas da Igreja não hesitavam em comentar
que os cadáveres saíam de sua sepultura, passeavam à vontade
e, depois, voltavam aos túmulos que abriam com as próprias mãos.Para muitos teólogos, isso não passava de uma armação do Demônio. Belzebu era capaz de criar alucinações.

Sempre com autorização de Deus, é lógico, e apenas para testar os homens.
A Igreja empurrava os fenômenos paranormais para o território da ilusão ou dos sonhos. Para as pessoas, porém, fantasmas existiam. Acreditava-se neles, sabia-se o que significavam. Eram silenciosos. Só articulavam para pedir orações. Por vezes, mostravam-se tão reais que era preciso provar com quem se estava falando. Confirmava-se isso por um teste: eles não aceitavam alimentos.
Os mortos-vivos e as almas do outro mundo tinham consistência
e três dimensões, por isso era difícil taxá-los de sonho ou ilusão.
Apareciam em carne e osso e, quando tocados – segundo alguns clérigos
–, tinha-se a impressão de mergulhar os dedos em matéria fantástica.
Apresentavam as características e a aparência que tiveram no
momento do trespasse. Se vestidos com um sudário diáfano e branco, eram bons. Se negro, maus. Se voltavam para fazer o bem, a roupa ia clareando na medida das boas ações. Mas também podiam ser mortais e perigosos. Quando chamavam as pessoas pelo nome, elas caíam doentes e depois morriam. Traziam a peste consigo. Mas sua mais impressionante característica era o barulho. Provocavam sons metálicos de martelos, correntes, sinos e armas. Imitavam os animais relinchando, mugindo, ganindo. Seus ruídos mais humanos eram gritos e gargalhadas que geravam tumultos e pateadas.

Tais sons se reproduziam, sobretudo, em lugares habitados. Depois no
campo ou nas florestas. Quando insistiam em suas maldades, os túmulos eram abertos, os corpos queimados, os corações arrancados ou trespassados com paus
de ponta. Nascia na época a crença naqueles que mais tarde chamaríamos
“vampiros”.

Já a Igreja insistia em métodos menos violentos. Incensar o túmulo antes do enterro, aspergir água benta no corpo, enterrar em terra consagrada, erigir uma cruz, exorcizar os mortos-vivos. O oposto do mau morto era aquele que morria na boa hora e era
apreciado quando vivo. Ele se transformava no ancestral encarregado
de zelar por sua família. De volta a Deus, serviria de mediador entre
Ele e os homens. Se voltasse, era porque estava descontente com seus
descendentes, porque não respeitavam os antigos costumes. Ou para
lhes dar conselhos e extraí-los de má situação. Então, ameaçava, castigava
ou indicava o que deveriam fazer. Aparecia como guardião da
moral, da ordem e da prosperidade.
Em 1600, já se publicavam ensaios sobre a questão. Por exemplo,
o Tratado da aparição de espíritos, da autoria de certo Nicolas
Taillepied, ou Discurso de espectros, ou visões e aparições, de
Pierre Le Loyer, de 1608. Em 1751, dom Augustin Calmet, abade beneditino, publicou a Dissertação sobre mortos-vivos para provar que, “em todos os tempos e nações, a aparição de mortos autentificava a existência da vida eterna e da imortalidade da alma”. Tudo isso ajudou a construir uma crença: a de que os mortos nunca estavam totalmente mortos. E, para muitos, assim seria por muito tempo e – por que não? – até hoje…- Mary del Priore (extraído de: “O Outro Lado – a História do Sobrenatural e do Espiritismo”).

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A obra de Goya é repleta de referências ao sobrenatural.

 

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