Espírito, sorria! Você está sendo fotografado

Publicado em 21 de março de 2015 por - História do Brasil

Na metade do século XIX, o grande escritor José de Alencar foi dos intelectuais que se interessou pelo fenômeno do espiritismo. Longe de considerá-lo um apenas fato curioso, ele acompanhou atentamente as experiências dos círculos iniciados, inclusive as de seu amigo Araújo Porto Alegre, o barão de Santo Ângelo. E agregou a um de seus romances um dos aspectos da prática em voga. Em Guerra dos Mascates, publicado em 1873, alude à sua época como “século dos espiritistas em que se tiram fotografias às almas do outro mundo”.

O renomado matemático e físico Silva Neto, um estudioso do magnetismo, só depois de ver uma foto de um espírito, se converteu ao espiritismo. Para ele, a imagem era um dado irrefutável, uma comprovação científica da existência de outras vidas e de outros mundos. Engenheiro de formação, Silva Neto era considerado portador de conhecimentos científicos por excelência. Logo, ninguém mais abalizado para dar legitimidade às fotografias de ectoplasmas.

Sim, o século que descobriu os espíritos descobriu também a fotografia. Em grandes centros como Londres, Boston, Paris, multiplicavam-se fotógrafos e espíritos fotografados. A fotografia incitava a questionar o invisível. E isso, numa época em que os indivíduos se afastavam de explicações metafísicas ou religiosas e queriam provas concretas. A imagem em preto e branco era uma! E sua explicação tinha que ser buscada no mundo físico. Nada de esoterismos, mas, um realismo total. O invisível tomava forma e podia ser apalpado e mesmo fotografado. Tal realidade confirmava que o diálogo entre vivos e mortos era possível. O espaço formigava de espíritos que circulavam e buscavam contato.

Só fotografia? Não. O espiritismo acompanhava a revolução técnica dos meios de comunicação: telegrafia, descobertas da ótica e da acústica. Pois era preciso utilizar tais meios para alimentar a conversa entre vivos e mortos. A física fizera progressos consideráveis no domínio da termodinâmica e dos fenômenos vibratórios. Ela descobriu os raios catódicos. Fotografavam-se raios infravermelhos e ultravioletas. Em 1864, a teoria eletromagnética da luz foi formulada. Em 1876, Graham Bell inventou o telefone, Em 1877, Edison, o fonógrafo e a lâmpada incandescente. As grandes transformações da época se conectavam a um conjunto de técnicas que tinham por objetivo captar e transmitir o universo invisível de ondas e raios, capazes de atravessar paredes e distâncias cada vez maiores. E por que não trasportar os espíritos?

Um dos pioneiros da fotografia no Brasil foi o pintor e naturalista francês radicado no Brasil, Antoine Florence. Florence, que chegou aqui em 1824, se estabeleceu em Campinas, onde realizou uma série de invenções e experimentos. Em 1833, usava uma câmera escura com uma chapa de vidro e papel sensibilizado para a impressão por contato. O Imperador Dom Pedro II, foi outro fotógrafo apaixonado, tendo adquirido em 1840 um daguerreótipo, em Paris. A seguir, imigrantes vindos para cá trouxeram novas tecnologias e retratistas se espalharam pelas principais capitais.

Desde 1838 e, depois, as condições técnicas da aparição da imagem sobre daguerreótipo, sobre papel, foram espantosas. A novidade e a originalidade do fenômeno impressionavam a todos! Desaparecia a intervenção do gesto e da mão, que estavam na base da pintura. Graças à fotografia, o olhar era direcionado para coisas nunca dantes vistas. E a câmara escura tornava o espaço em que a imagem emergia. E junto com ela ectoplasmas e fantasmas.

A chamada “fotografia espectral” foi inventada nos anos 1860, nos Estados Unidos. Certo William H. Mumler inaugurou um comércio delas, sendo rapidamente imitado na Europa. Primeiro, na Inglaterra e em seguida, na França. Se os médiuns viam os espíritos, por que não, o “olho” do aparelho fotográfico? Lógico que pipocaram imagens trucadas, mas as fotos flous ou em movimento, assim como as que tinham pouca ou muita exposição de luz, convidavam a fazer surgir estranhas realidades sobre o papel.

Quando em 1873, depois da morte de Alain Kardec, o diretor da Revue Spirite, Pierre Leymarie perguntou ao fotógrafo Édouard Buguet se ele conseguia fotografar espíritos, ele respondeu que sim… E fotografou em seu ateliê no bairro de Montmartre. Os primeiros clientes se davam por satisfeitos quando reconheciam um defunto querido em segundo plano. As imagens foram reproduzidas durante um ano na Revue Spirite de grande circulação na Europa e no Brasil.

Mesmo Madame Allan Kardec se deixou fotografar com o marido falecido há cinco anos. Na primeira prova, seu espírito segurava uma coroa sobre a cabeça da esposa. Na segunda, um quadro negro exibia em letras diminutas a mensagem: “Obrigada, querida esposa; obrigado Leymarie; coragem, Buguet”. Madame Kardec queixou-se que nesta imagem a figura do marido não saíra tão clara quanto desejaria.

Depois, alguns clientes começaram a se queixar. As fotos custavam caro e então… Uma fraude foi descoberta. Um comerciante que solicitou a imagem do filho, morto aos dez anos, recebeu uma foto de um senhor com cinqüenta! Preso em flagrante delito em 1875, o fotógrafo confessou: antes da sessão de fotos, ele preparava os clichês com a ajuda de cabeças cortadas de outras imagens e coladas sobre papelão. Colocadas sobre um manequim e cobertas de gazes diáfanas, eram destinadas a se posicionar ao lado da imagem do cliente. Buguet e Leymarie foram julgados e condenados a um ano de prisão. A imprensa batizou o caso como “O processo dos espíritas”.

Na mesma década da fotografia psíquica, outra prática surgiu entre espíritas: a do gabinete negro. Fechava-se uma peça com cortinas pretas, criando um espaço isolado de olhares externos, onde se colocava o médium. Acreditava-se que da mesma forma que a câmara escura e a luz vermelha eram necessárias para a revelação do negativo, esse lugar permitia a aparição de espíritos. Pela boca, o nariz, o umbigo e, no caso de mulheres, o sexo, médiuns produziam ectoplasmas ou pedaços de corpos que, fotografados, se tornavam a prova de sua existência. A Revue Spirite assim descreveu uma dessas imagens:

“Sobre a cabeça do médium aparece uma mão, pequena como a de uma menina de quinze anos, palma virada para fora, dedos juntos e o polegar separado. A cor dessa mão é lívida; a forma não é rígida nem fluida. Dir-se-ia a mão de uma grande boneca.”

Mão, diga-se, percebida como aquela de um espírito momentaneamente encarnado graças ao médium. Ectoplasmas eram fotografados às centenas: provas da existência de seres vivos no Além.

Antes presentes só nos sonhos ou pesadelos, tais seres vindos de longe eram ainda capazes de deixar suas pegadas em argila fresca disposta para esse fim nas sessões espíritas. Ilusão? Um dos mais importantes químicos e físicos do século diria que não. O citado Sir William Crookes, especialista em espectrotopia, estudioso de eletrodos e raios catódicos, descobridor do tálio e do hélio, se deixou fotografar com uma jovem fantasma conhecida como Katie King! Tudo em seu laboratório de química!

Isso em Londres, pois em Lisboa a polícia prendia fotógrafos que pretendessem “tirar retratos espiritistas de pessoas que haviam partido desta para melhor vida” – dizia um jornal.

No início de 1890, certo coronel francês saído da renomada Escola Politécnica, Rochas d´Aiglun, clicou emanações fluídicas, espécie de eflúvios energéticos produzidos pelo corpo humano, que poderiam, segundo ele, explicar os fenômenos de levitação ou ocultismo. Inúmeras experiências desse tipo foram realizadas por sábios convencidos que a fotografia poderia revelar aquilo que o olho não enxergasse. Em 1908, um prêmio foi ofertado pelo jornal Lumiére “em favor do inventor de um aparelho fotográfico tão potente que permitisse às inteligências ou às coisas invisíveis do espaço se fixar sobre uma placa”.

Nada disso barrou a perseguição fotográfica aos ectoplasmas. A invenção de câmaras menores justificou a multiplicação de fotos, reproduzidas inclusive em jornais brasileiros. Mais do que uma simples experiência ou espetáculo, o que se desejava era um encontro com o Outro lado. Encontro que alimentava a convicção de que o contato com espíritos ou a conversa com mortos era possível.

– Mary del Priore.

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