Espiritismo e abolicionismo: uma combinação curiosa

Publicado em 7 de outubro de 2014 por - História do Brasil

“A revolução é o sagrado direito de um povo oprimido; num país de escravos ela se traduz pela insurreição […] a escravidão mata o direito e se baseia na força; para repelir a força, todos os meios são bons.” Com essas palavras, o abolicionismo ganhava um adepto: o espírito de Espártaco, o líder da maior revolta de escravos na Roma Antiga, cuja presença foi solicitada por um membro do movimento durante uma sessão. Aliás, a presença de espíritas empenhados no fim da escravidão foi importante. Eles acreditavam que não haveria moralidade num país onde perdurava a escravidão. Pela boca da mesma médium que recebeu Espártaco, outro aviso: “Mas o sangue e a hora fatal estão iminentes. As crateras vão vomitar suas lavas; e, após o cataclismo, quem poderá dizer: onde foi o Brasil?”. E, entre os espíritas abolicionistas, os baianos foram pioneiros.

O jovem Antônio da Silva Neto foi um deles. Nascido em Viçosa, filho de fazendeiro, bacharel em Matemática e Ciências Físicas, liberal,foi o autor, em 1866, de Estudos sobre a emancipação dos escravos no Brasil. Há tempos, panfletos e opúsculos sugeriam o fim da escravidão a um governo que tergiversava sobre o assunto. E que apostava no “curso natural” das consequências da Lei do Ventre Livre para extinguir
a “chaga crônica”. Sem filhos de escravas, em três quartos de século, seria o fim do regime. Para Silva Neto, isso era pouco. Seria preciso impedir uma guerra
civil – as crateras que vomitariam lavas – como a ocorrida nos Estados
Unidos. Para atuar em prol da abolição, bastava que os jornalistas
orientassem, ou melhor, conscientizassem os senhores de escravos: que
eles tivessem uma conduta humanitária para com seus cativos. Em vez
de castigos físicos, os morais. Nada de chicote, mas gratificações. Para
ele, a propriedade justificada por leis injustas transformava a posse de escravos num crime.

Ao direito romano, que determinava que a condição do filho seguisse
a do ventre materno, ele respondia com uma recomendação:
liberdade para os cativos recém-nascidos e que os agricultores se preparassem
para o fim da escravidão. E não confiassem no governo que prestava “pouca atenção às graves questões que afetam os interesses da lavoura”. Ah! Que os senhores moralizassem seus costumes. Nada mais de concubinatos com escravas, mas escolas agrícolas para seus filhos. E apelava: “Meu Deus, absolvei do pecado aqueles que querem prolongar a escravidão”. Silva Neto alforriou seus escravos, apostava no progresso e representou as ideias liberais que grassavam nos meios universitários. Por isso mesmo, foi um dos fundadores do Clube Radical, mais tarde Clube Republicano. Juntou-se a 57 intelectuais que assinaram o Manifesto e o jornal A República, em cujas páginas colaborou.

E o lado espírita, quando nele despertou? A influência de outro grande republicano, o político e poeta Bittencourt Sampaio, o atraiu para o grupo de estudos que se formava na corte. O papel do magnetismo lhe interessava. Ele queria ter certeza da manifestação post-mortem da alma, de que duvidava: “Nada – movimento de objetos,
pancadas fortes – me havia convencido de minha imortal individualidade”.
Mas só foi persuadido depois de ver a fotografia de um espírito. Para ele, a imagem era um dado irrefutável, uma comprovação científica da existência de outras vidas e de outros mundos. Engenheiro de formação, Silva Neto era considerado portador de conhecimentos científicos por excelência. Logo, ninguém mais abalizado para dar
legitimidade às fotografias de ectoplasmas.

As reuniões contínuas convidaram a formar um núcleo, com estatutos
impressos e uma diretoria. A 2 de agosto de 1873, nascia a
Sociedade de Estudos Espiríticos, cujo lema era: “Sem caridade não
há salvação. Sem caridade não há verdadeiro espírita”. No dia de sua
abertura, um sábado, manifestaram-se respectivamente os espíritos de
Confúcio, filósofo chinês, e Kardec. E o recado encorajador deste último:
“Trabalhai, trabalhai, pois, incessantemente, sem interrupção,
sereis assistidos, esclarecidos e abençoados”.

Outro grande abolicionista envolvido com o espiritismo foi Adolpho Bezerra de Meneses: cearense, nascido em 1831, filho de um tenente-coronel da Guarda Nacional e proprietário de terras onde criava gado. No Rio de Janeiro, fez os estudos de medicina, tornou- -se cirurgião e deu início à carreira política ingressando no Partido Liberal. Abraçou a causa abolicionista desde então. A Fala do Trono do Imperador em 1867 havia prometido reforma no sistema? Mentira. O governo “estudava, mas não resolvia”. “Estudará eternamente e nunca resolverá nada”, e a Guerra do Paraguai era desculpa para o imobilismo. O novo gabinete conservador era composto só de ministros contrários à emancipação dos escravos.

Em 1870, ocupou a redação do jornal Sentinela da Liberdade, e por meio dos editoriais fustigava o governo. Segundo ele, o imperador, coagido, não respeitava a opinião do país, dissolvia gabinetes para atender a caprichos e facilitar perseguições. “Cancro” e “lepra” foram palavras usadas pelo médico para definir a escravidão. E o escravo
se vingaria com ódio dos seus senhores, tamanho o sofrimento pelo qual passava. Quando muitos temiam o fim da mão de obra, Bezerra de Menezes citava o caso do Ceará como exemplo de situação bem-sucedida: depois da grande seca de 1845, as senzalas se esvaziaram e os senhores foram obrigados a contratar mão de obra livre. E a economia ia muito bem, obrigado.

Para não criar maiores problemas, Bezerra de Menezes apostava na libertação gradual dos cativos. Não estava só. A maioria dos emancipacionistas queria evitar uma ruptura dentro do sistema. Para evitar a “corrupção dos pretos”, era obrigatório ministrar educação desde cedo: instrução primária, além de religiosa e moral. As crianças iriam para casas de criação, onde sua formação seria garantida pelo
Estado. O governo gastava tanto dinheiro com o “funcionalismo estragado”,
por que não investir em educação? Em 1869, publicou A
escravidão no Brasil e as medidas que convém tomar para extingui-la
sem danos à nação.

Bezerra não tinha dúvidas: não bastava a liberdade. Era preciso
trabalho, inserção e dignidade. Nove anos depois, recém-viúvo, ele
recebeu de presente O livro dos espíritos, que devorou numa viagem
de bonde. “Lia; mas não encontrava nada que fosse novo para meu espírito,
entretanto aquilo tudo era novo para mim! Eu já tinha lido ou ouvido tudo o que se achava no Livro dos espíritos. Preocupei- me seriamente com esse fato maravilhoso e a mim mesmo dizia: parece que eu era espírita inconsciente, ou, como se diz
vulgarmente, de nascença”.

Suas visitas a um médium receitista seguidas de curas o levaram a adotar a doutrina. Na década de 1880, o movimento contra o espiritismo recrudesceu. Ele juntou-se aos articulistas de O Reformador, jornal do movimento. Em agosto de 1886, numa conferência pública na Federação Espírita Brasileira e diante de um salão lotado com
1.500 pessoas, afirmou de viva voz sua adesão. No dia seguinte, O País publicava a notícia: “O orador, discorrendo sobre os motivos que o levaram a
abraçar a nova doutrina, fez uma brilhante comparação entre as
teogonias romana e espírita, concluindo que esta e não aquela era
o coroamento da teodiceia e da moral cristã. O orador teve por
mais de uma hora presa a atenção dos seus ouvintes que o aclamaram
com uma salva de palmas ao deixar a tribuna”.

Mary del Priore (extraído de “Do outro lado: a história do sobrenatural e do espiritismo”).

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Cena de um feitor castigando escravos, de Debret.

 

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