Especial TCC – A arte de escrever: aspectos e cuidados redacionais na elaboração de textos científicos (parte 2)

Publicado em 26 de novembro de 2014 por - Educação

Por Iuri Andréas Reblin.

A quarta consideração é voltada mais à questão da redação: escrever bem não tem a ver com escrever difícil ou buscar linguagem rebuscada ou vocábulos refinados. Escrever bem é, antes de tudo, escrever simples, ser compreensível e manter a fluidez da linguagem. Como podemos fazer isso? Algumas dicas (velhas e novas), bem práticas, atinentes à redação e à construção do raciocínio no texto:

a)      Em geral, textos confusos são reflexos de pensamentos difusos. A primeira regra é buscar compreender bem o autor e a autora do texto, buscando resposta às perguntas elementares de interpretação e apreensão: qual é o tema? Qual é a afirmação principal que o texto está fazendo? Quais são seus principais argumentos? Contra o que ou qual situação ou contexto ele está argumentando? Qual é o objetivo do texto?

b)      Procure escrever frases curtas, sem demasiadas subordinadas. Frases curtas auxiliam a manter o raciocínio claro. Quanto mais longas são as frases, maiores são as chances de você se perder. Utilizar frases curtas não significa “telegrafar” o texto. Existem elementos de ligação que podem dar coerência e fluidez textual. Acerca da fluidez da linguagem também vale lembrar a importância de buscar, sempre que possível, manter os elementos frases na sua sequência sugerida pela ortografia. Quanto mais deslocamentos de elementos (de advérbios, por exemplo), mais vírgulas são necessárias, o que quebra a fluidez e a leveza do texto. O princípio elementar da linguagem é comunicar uma mensagem da melhor maneira possível. E isso pode ser feito utilizando orações curtas, em sua sequência lógica, com palavras simples.

c)       Acerca da redação algumas sugestões gerais: utilize preferencialmente a linguagem impessoal; evite a todo custo o uso de “achismo” e emissão de opinião, bem como adjetivações e repetições (de conteúdo, de vocábulos) desnecessárias.

d)      Algumas confusões redacionais comuns:

  1. Confundir afim (de “estar afim de você”) e a fim (de “com a finalidade de”)
  2. Colocar em algum momento o “por outro lado”, esquecendo-se de indicar, anteriormente o “por um lado”. Só pode haver outro lado, se houve um lado antes.
  3. Não atentar-se para o paralelismo sintático ou semântico. Para ilustrar isso, segue um exemplo retirado de uma avaliação de tese. Na frase “Obra voltada à série em si, o livro traz entrevistas com os atores, produtores e diretores…”, pereba que o primeiro substantivo “ator” possui artigo definido, ao passo que os seguintes não possuem. Para ir ao encontro do paralelismo sintático, o ideal seria, de duas opções, escolher uma: ou simplesmente omite-se o artigo definido, ou inclui-se o artigo aos demais substantivos que sucedem o termo “ator”. Em outro exemplo, na frase “Seus diálogos, porém, não são travados tanto em função das doenças e diagnósticos…”, o problema do paralelismo é mais grave, pois há uma mudança de gênero entre os dois substantivos que estão juntos “doenças” e “diagnósticos”. De igual modo, revelam-se aí duas opções: ou acrescentar o artigo definido, ficando “em função das doenças e dos diagnósticos” ou omitir totalmente o artigo definido, ficando “em função de doenças e diagnósticos”.
  4. Passe sempre um corretor ortográfico do editor de textos e dê o texto para alguém habilidoso e de sua confiança ler seu trabalho. Por vezes, essa pessoa poderá identificar erros ou lacunas (de ortografia, de argumentação) que passam despercebidos de seu olhar, bem como vícios de linguagem.
  5. Em livros, autores e autoras não dizem, eles e elas escrevem! É comum encontrar em TCCs, as expressões “no livro tal, fulando de tal disse que…”. É algo que frequentemente utilizamos em nossa linguagem coloquial oral, que deve ser repensada na linguagem forma escrita.
  6. Lembrar-se sempre de utilizar aspas no corpo do texto quando estiver extraindo uma citação de alguém. Citações diretas (literais) deverão vir sempre entre aspas, considerando que as curtas (até três linhas) deverão vir no corpo do texto e acompanhando a configuração do parágrafo e que as longas (com mais de três linhas – quatro em diante) deverão vir em paragrafação especial (em geral com recuo esquerdo de 4cm, fonte em tamanho menor, em geral, 10pt, com espaçamento entre parágrafos antes e depois no “modo automático”).
  7. Paráfrase: É muito comum (e imprescindível, na verdade) a utilização de paráfrase, isto é, traduzir com as próprias palavras o pensamento de um autor ou de uma autora. É importante considerar que não se faz paráfrase uma frase ou de trechos de um parágrafo. Isso pode configurar crime de plágio. Paráfrases são adequadas para traduzir ideias de conjunto de parágrafos, páginas ou até a ideia de um capítulo, numa perspectiva de sintetização. Se você não souber traduzir uma ideia precisa de um autor ou uma autora com suas próprias palavras, é preferível que você transcreva a ideia, cite.

e)      Por fim, a regra de ouro da redação, na minha perspectiva, é a seguinte: garanta que seu texto tenha início meio e fim, desde o sentido macro ao sentido micro. É isso que tornará também o seu texto leve e, sua ideia, inteligível. Como fazer isso?

Assim como o TCC como um todo está dividido em introdução, desenvolvimento e conclusão (sentido macro), todas as demais partes textuais deveriam possuir a mesma estrutura: tanto nos capítulos quanto nos parágrafos. Isso auxilia a manter a coerência e a conduzir o leitor ou a leitora, de modo que a pessoa que estiver lendo seu texto saiba exatamente de onde você está partindo e para onde você está indo.

Uma sugestão, portanto, é a de que, em uma instância, cada capítulo tenha uma introdução (que no início se apresente brevemente os principais tópicos a serem desenvolvidos e o porquê de eles serem desenvolvidos) e uma conclusão (que também pode ser chamada de considerações finais ou “em síntese” e que serve para retomar de maneira sucinta os principais tópicos e interliga-los com tema do capítulo seguinte – lembre-se: de onde, para onde). Essa mesma lógica, na verdade, permeia também a construção de parágrafos. Não existem parágrafos de uma só frase (ou, dito de outra forma, uma frase sozinha não é constitui um parágrafo, mas sim a junção de duas ou mais frases). Parágrafos são (ou deveriam ser) como microtextos se iniciam com uma ideia, apresentam-se dois ou três argumentos, seguidos de uma breve amarração que conduz ao parágrafo seguinte. Essa seria, a meu ver, a construção adequada de um parágrafo [um exercício rápido: confira como estão construídos os parágrafos deste texto ou de outros textos do Especial TCC. Você irá verificar que eles possuem mais de uma frase e, em geral, uma média de 5 a 15 linhas, dependendo da densidade do argumento, e sempre dentro da lógica indicada acima e destacada em sublinhado]. Parágrafos elaborados dão mais consistência e profundidade à argumentação e ao texto.

Enfim, há muitas possibilidades e desafios atinentes à elaboração de um TCC e não é possível sintetizar tudo nessas poucas (e já extensas) linhas. Espero que você tenha aproveitado a jornada até aqui. Desejo um bom trabalho e até uma próxima vez!

 

Prof. Dr. Iuri Andréas Reblin

Autor de
O alienígena e o menino.
(São Paulo: Paco Editorial, 2014)

leitora

“A Leitora”, de Jean-Honoré Fragonard.

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