Escravidão, liberdade e fugas

Publicado em 20 de novembro de 2016 por - artigos

     Os mineradores passavam o dia com o corpo imerso na água fria das montanhas, bateando e transportando o cascalho dos rios até as margens, para ser lavado. O grosso do serviço era feito por escravos. A flagrante superioridade numérica da “gente de cor”, como eram chamados, seria característica das Minas. Mestiços e negros somavam 77,9% da população, e a única exceção foi a Comarca de Rio das Mortes, onde apareciam brancos em maior número.

     Os cativos tinham um regime de trabalho diferente do que realizavam nos engenhos de açúcar, pois além de este regime exigir mão de obra especializada, eles tinham relativa liberdade de ação e maiores oportunidades para comprar sua liberdade. Eles não só escondiam oitavas de ouro que catavam nos ribeiros como tinham licença de seus senhores para batear em dias santos e ao cair da tarde. Estímulo depois da obtenção de uma quantidade mínima de ouro, dizem uns, resistência à escravidão, dizem outros. Os dois, certamente. Outra profissão exercida por forros e escravos era a de enfermeiro. Encaminhados a hospitais e às Santas Casas mediante remuneração, eles recebiam melhor tratamento e comida do que trabalhando na lavoura ou nas lavras.

      Apesar do elevado preço dos escravos na região de Minas, a alforria parece ter sido prática comum, a ponto de preocupar as autoridades. Por gratidão do dono ou “por dinheiro que ajuntavam”, os negros se viam em liberdade. E a população livre de cor cresceu tanto que se tornou duas vezes superior à de outras áreas escravistas na América, como a Jamaica ou o Sul dos Estados Unidos. A região apresentava também um índice altíssimo de escravos coortados: aqueles que compraram sua liberdade ou detinham “carta de corte”, ou seja, um documento atestando que estavam saldando prestações referentes à compra de sua carta de alforria. Eles podiam vender sua força de trabalho numa atividade suplementar realizada fora do tempo dedicado ao seu senhor ou trabalhando “de ganho” ou “de aluguel”. Em época de dinamismo econômico, as coortações aumentavam. Alguns recebiam de seus senhores instrumentos de trabalho, a fim de poder se dedicar a uma função remunerada e, consequentemente, juntar a quantia estipulada. Outros se viam prejudicados pelos senhores que os impediam de trabalhar. Muitos senhores impunham condições: trabalhar por mais um número específico de meses, ou só aceitar dar carta de corte se houvesse um fiador. Pagamentos podiam ser escalonados: de seis em seis meses, por exemplo. Havia senhores tolerantes com o atraso de pagamentos e outros que ameaçavam vender o cativo “por justo preço”, caso não cumprisse as condições combinadas.

     Conflitos? Muitos – e também pactos rompidos. Alguns cativos se queixavam de ter tudo pago, o que não era reconhecido pelos senhores. Senhores, do seu lado, se queixavam de terem sido roubados ou da ingratidão de seus escravos. Havia discordância de datas da coortação ou separação entre pais e filhos, ou marido e mulher, quando um deles não conseguia pagar o valor arbitrado. E não poucas vezes se recorreu ao juízo de governadores, que decidiam, depois de exame, se devia ou não ser dada a liberdade a tal e qual pessoa. Alforrias e coortações colaboraram para pacificar a latente insubordinação dos cativos. Mas aumentou em muito o número de negros e mulatos livres, fato que preocupava as autoridades, como fica claro numa carta de D. João V ao conde de Galvêas, então governador da capitânia:“No que respeita aos mulatos forros, que estes são mais insolentes porque a mistura que têm de brancos os enche de tanta soberba e vaidade que fogem do trabalho servil com que poderiam viver, e assim vive a maior parte deles como gente ociosa.” E pergunta o rei: “Não seria melhor tomar providências contra o excesso de forros vivendo em grande liberdade?”

     Uma vez liberto, o ex-escravo comprava escravos. Um número expressivo de ligações e casamentos entre senhores e escravas foi outra forma de acelerar alforrias. De 1,2% do total da escravaria em 1739, os alforriados passaram a corresponder a 41% em 1808. Eram “os pretos forros filhos do país, chamados crioulos”, segundo Basílio Teixeira de Saavedra em sua Informação da Capitânia de Minas Gerais, de 1805.

     Na segunda metade do século XVIII, quando foi mais efetiva a exploração do ouro e se desenvolveu a exploração de diamantes, os assuntos mais mencionados pelas autoridades eram: a eficiência do trabalho, a temida criminalidade e a desordem, além da presença de quilombos. Se antes preocupava o grande número de africanos na população, doravante sua organização é que seria alvo de medidas coercitivas, tanto mais quanto aumentavam roubos, ataques a vilas e arraias e crescia o contrabando de ouro. Quando o metal começou a rarear e as minas a se esgotar, relatos pessimistas se acumularam. Do ponto de vista dos escravos, esse foi o momento em que, com atraso, teve início a preocupação com seu melhor tratamento e doenças, mencionando-se também a necessidade de importação de escravos de outras regiões, como Bahia e Pernambuco.

  • Texto de Mary del Priore. “Histórias da Gente Brasileira: Colônia (vol.1)”. Editora Leya, 2016.

 

Carlos-Juliaodiamante

Carlos Julião: as minas de diamante.

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