Escravidão e Religião

Publicado em 22 de novembro de 2013 por - História do Brasil

A partir de meados do século XIX, a religião cristã começava a enxergar a escravidão como uma prática cruel, que deveria ser combatida por razões de caridade cristã. A própria princesa Isabel aderiu fervorosamente ao abolicionismo devido à sua religiosidade e dedicação ao catolicismo. Entretanto, nem sempre foi assim. A escravidão, nos séculos anteriores, era aceita e bem vista pelos religiosos, sendo considerada um meio de conversão das almas.

Nos séculos XVII e XVIII, por mais paradoxal que pareça nos dias de hoje, a escravidão era vista como uma oportunidade de salvação para os africanos. Por isso, os grandes pregadores e religiosos da época, destacavam sempre a importância de ensinar-lhes a fé católica e os costumes religiosos.

“Os escravos são as mãos e os pés do senhor de engenho, porque sem eles no Brasil não é possível fazer, conservar e aumentar fazenda, nem ter engenho corrente”, dizia o jesuíta João Antônio Andreoni, o Antonil, em 1711.

Em outras palavras, naqueles tempos entendia-se que a economia colonial dependia do sistema escravista, sem ele, seria inviável manter a Colônia. Mas, não se tratava somente de razões econômicas, já que moral, religião e economia se misturavam naqueles tempos.

Outro jesuíta famoso, Antônio Vieira, acreditava o escravo deveria servir bem seu senhor e salvar sua alma. “O que haveis de fazer é (…) dar muitas graças pelo cativeiro que vos trouxe e, sobretudo, aproveitar-vos dele para trocar a liberdade e a felicidade da outra vida, que não passa, como esta”.

Os senhores também tinham suas obrigações nessa sociedade idealizada pela Igreja. O mais importante era fazer dos escravos homens e mulheres cristãos, ensinando-lhes a doutrina, batizando-os, casando-os, nunca obriga-los a trabalhar aos domingos e nos dias santos. Era também preciso discipliná-los, castigando-os como um pai faria com os filhos.

Enfim, a escravidão era considerada necessária e até natural naqueles tempos, e o cativeiro dos negros era aceito como justo. A religião procurava normatizar as relações e evitar os conflitos, apesar de estes nunca deixaram de existir. Um século depois, a violência desta prática – e as mudanças na economia mundial – tornariam o trabalho escravo inaceitável. – Márcia Pinna Raspanti

feitordebret

Feitor castigando um escravo, obra de Debret: bem longe das relações idealizadas pela Igreja.

 

 

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3 Comentários

  1. wagner modesto disse:

    como sempre eu já sabia q a igreja era a favor da escravidão e cada vez mais q eu procuro entender a historia eu fico e sem entender como pessoas negras acreditam em deus pois a bíblia nunca foi d favorecer ou libertar os escravos isso e fato e historia q aconteceu…

  2. Nilo Tavares disse:

    Muito bom. Sinto falta apenas da mesma tendência que vamos encontrar no protestantismo brasileiro a respeito da escravidão. os colonos de Santa Barbara em São Paulo, muitos deles oriundos dos Estados Unidos, viam no Brasil a possibilidade de desenvolver a plantação de algodão utilizando a mão de obra escrava do Brasil. Não da pra generalizar e lógico, pois segmentos protestantes abolicionistas vão surgir também, mas seria importante mostrar um pouco dessa história.

    • marcia disse:

      Muito interessante a sua sugestão. Obrigada. O texto apresentado no blog, entretanto, discute um período anterior à chegada do protestantismo no Brasil, nos séculos XVII e início do XVIII, época em que o catolicismo dominava o cenário religioso. Os jesuítas, em especial, tiveram uma influência muito forte na formação política e na educação desde os primórdios da colonização.

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