Escola é lugar de “palavrão”?

Publicado em 18 de setembro de 2015 por - Educação

“Mamãe, por que inventaram os palavrões se não podemos dizê-los?”. Já ouvi a pergunta. E ela serve para começar essa conversa sobre a recente discussão em torno do livro Oliver Twist, cuja adaptação trocou a tradução de Machado de Assis, “mulher de vida airada” por “prostituta”. Leitores? Crianças a partir de oito anos de uma escola privada. Escândalo! Pais reagiram: “merda” pode, mas prostituta?!

Não vou entrar em questões de foro íntimo das famílias, mas dar uma opinião pessoal.  A presença das chamadas palavras de baixo calão em muitas obras infantis ou juvenis poderiam ter um objetivo: explicar seu sentido. Esclarecer as consequências de ouvi-las e repeti-las. E ilustrar como reagir diante delas. Afinal, crianças, jovens ou adultos, todos estamos sujeitos a escutá-las. A mídia escrita e falada ou as redes sociais tem abusado de palavrões e raramente se veem reações negativas frente ao seu uso abusivo como adjetivo. Sobretudo, quando aplicado aos políticos brasileiros.

Ora, na maior parte das vezes, o palavrão apenas acentua uma situação que o jovem leitor já conhece e, se não conhece, o ajuda a contextualizá-la. E, mais do que “na maior parte das vezes”, o palavrão já foi dito pelos próprios adultos em presença de crianças, embora muitos pais insistam que “não se deve dizer palavrão”. Em crianças muito pequenas, o palavrão pode ter uma função lúdica. Eles desconhecem seu sentido e provocam os adultos, manuseando termos que, por chamar sua atenção, geram reações.

Tive um livro recusado nas compras governamentais, Aventuras no Novo Mundo, pois, em um parágrafo afirmei que, no século XVI, as águas do porto de Lisboa cheiravam à merda. Merda não pode! O livro era endereçado aos adolescentes a partir de 12 ou 13 anos. Penso que seria como procurar agulha num palheiro, não encontrar um jovem que desconheça o termo. Fiz um enorme esforço de contextualização para ter o trabalho desqualificado por conta de uma palavra de baixo calão, que pode ser lida tanto nos muros da cidade, nas traseiras de caminhões sujos, nas paredes dos elevadores ou banheiros de escola quanto na imprensa.

Mas voltando a adaptação do Oliver Twist, ela foi feita em HQ por uma excelente editora. Sou uma fã dos quadrinhos, pois considero que a imagem tem poderes enormes e, quando apresentadas com rigor profissional, usando técnicas de impressão e expressão, elas são capazes de multiplicar leitores, informar, educar e, consequentemente, incutir cidadania. Mas, sobretudo, o HQ multiplica jovens leitores, de que tanto precisamos no país. Desde a mais tenra idade, o HQ oferece a possibilidade de confrontação intercultural, desenvolvendo a imaginação, despertando sentidos estéticos, familiarizando com a beleza, a vida, a diversidade das sociedades. É fundamental que a escola coloque, ao lado do livro didático, obras que conduzam crianças e jovens ao prazer da leitura aleatória e divertida. Sim, podemos e devemos aprender com alegria! Quantos filósofos não repetiram “ridendo castigat moribus”: mais do que reprimindo, é rindo que corrigimos os comportamentos.

Um palavrão na boca do pequeno anjo?  Ora, a criança se afirma, está crescendo. Muitas vezes é pela aquisição de palavras usadas pelos adultos que elas demonstram que não são mais tão pequeninas. Por favor, nada de pânico. Trata-se de uma fase de desenvolvimento pela qual todas elas passam. E se elas puderem ser ajudadas pela excelente literatura de Dickens, em forma de imagens, tanto melhor. – Texto de Mary del Priore.

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Clássico da literatura: Oliver Twist, de Charles Dickens.

 

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