Erotismo, misoginia, racismo: sexualidade e escravidão

Publicado em 28 de junho de 2016 por - artigos

          Com relação à população escrava, estudos comprovam a presença do machismo e do racismo. Os gestos diretos, a linguagem chula era destinada às negras escravas e forras ou mulatas; às brancas reservavam-se galanteios e palavras amorosas. Os convites diretos para a fornicação são feitos predominantemente às negras e pardas, fossem elas escravas ou forras. Afinal, a misoginia racista da sociedade colonial classificava as mulheres como fáceis, alvos naturais de investidas sexuais, com quem podia-se ir direto ao assunto sem causar melindres. Gilberto Freyre chamou a atenção para o papel sexual desempenhado por essas mulheres, reproduzindo o ditado popular: “Branca para casar, mulata para foder e negra para trabalhar”.

         Degradadas e desejadas, ao mesmo tempo, as negras seriam o mesmo que prostitutas, no imaginário de nossos colonos: mulheres “aptas à fornicação”, em troca de alguma paga, explicou Ronaldo Vainfas. E na falta de mulheres brancas, fossem para casar ou fornicar, caberia mesmo as mulheres de cor o papel de meretrizes de ofício ou amantes solteiras, em toda a história da colonização. Nos séculos seguintes, a degradação das índias como objetos sexuais dos lusos, somou-se à das mulatas, das africanas, das ladinas e das caboclas – todas inferiorizadas por sua condição feminina, racial e servil no imaginário colonial. Mais desonradas que as “solteiras do Reino”, nome que se dava as prostitutas portuguesas, pois aquelas mulheres além de “putas”, eram negras.

       Mas nem por isso ficaram as cabrochas do trópico sem a homenagem do poeta. No século XVII, Gregório de Matos dedicou vários de seus poemas a certas mulatas da Bahia, em geral prostitutas; “Córdula da minha vida, mulatinha de minha alma” folgava o Boca do Inferno. O poeta louva o corpo e os encantos da mulata que, como a índia do século XVI, torna-se objeto sexual dos portugueses. Mas o mesmo poeta não ousa brincar com a honra das brancas às quais só descrevia em tom cortês, ao passo que às negras d’África ou às ladinas refere-se com especial desprezo: “anca de vaca”, “peito derribado”, “horrível odre”, “vaso atroz”, “puta canalha”. À fornicação e aos pecados sexuais nos trópicos, não faltaram pontadas de racismo e desprezo à mulher de origem africana.

       Não há dúvidas, por outro lado, que os afro-descendentes tivessem para seus rituais de sedução. A receita certa era extraída de falares africanos. Um manuscrito mineiro do século XVIII reconstitui um diálogo de abordagem sexual e negociação amorosa, em língua mina-jeje:

“– Uhámihimelamhi. Vamos deitar-nos.

Nhimádomhã. Eu não vou lá.

Guidásucam. Tu tens amigos (machos)?

Humdásucam. Eu tenho amigo (macho).

Nhimácóhinhínum. Eu ainda não sei dos seus negócios.

Nhitimcam. Eu tenho hímen.

Sóhá mádénauhe. Dê cá que eu to tirarei.

Guigéroume. Tu me queres?

Guitim a sitóh. Vosmicê tem sua amiga (mulher).

Gui hinhógampè guàsuhé. Tu és mais formosa do que ela (minha mulher).”

        Uma série de palavras de origem banto e iorubá com sentido erótico engordou nosso vocabulário: xodó, que quer dizer, em banto, namorado, amante, paixão. Nozdo, amor e desejo, Naborodô, fazer amor, Caxuxa, termo afetuoso para mulher jovem, Enxodozado, apaixonado, Indumba, adultério, Kukungola, jovem solteira que perdeu a virgindade, Dengue, Candongo e Kandonga, bem querer, benzinho, amor, Binga, homem chifrudo, Huhádumi, venha me comer/foder.

  • Texto de Mary del Priore. “Histórias da Gente Brasileira: Colônia (vol. 1)”, Editora LeYa, 2016.

 

fandangoRugendas

“Cena de Fandango Negro, Rio de Janeiro”, Johann Moritz Rugendas.

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