Erotismo à lusitana

Publicado em 1 de abril de 2014 por - História

Em Portugal, a Contrarreforma católica age de maneira mais forte no sentido de reprimir o erotismo. Essa ação normalizadora dos costumes da Contrarreforma, que incluí a Inquisição, se apoia sobre iniciativas conservadoras dos portugueses cujos costumes austeros eram notados pelos cronistas estrangeiros entre os séculos XVI e XVII. Alguns historiadores atribuem à religião, uma das razões para as atitudes, sensibilidades e comportamentos: “Durante os dois séculos que correram entre o tempo do rei D. João III e de Pombal, Portugal era, provavelmente, o país mais dominado pelo clero em toda a cristandade e só foi ultrapassado nas demais regiões, a esse respeito, pelo Tibet”, esclarece o historiador Charles Boxer.

A questão do amor foi tratada em Portugal de forma muito diferente da França ou da Itália. A maior parte dos livros então publicados em português ignora ou condena o amor. Há um aumento do tom das censuras morais após o concílio de Trento, mas as teorias medicalizadoras da luxúria como doença moral, já estão em vários textos médicos do começo do século XVI. Na França, a diferença do ambiente cultural pode ser medida pela natureza das publicações exaltadoras da sexualidade e de uma erótica praticamente inexistente em Portugal. A corrupção dos costumes foi o tema chave, a viga mestra do discurso moralizante na época moderna e teve no discurso científico um novo arsenal argumentativo.

A eficácia destes modelos em Portugal, e por conseguinte, na sua Colônia, deve-se à situação das letras e da cultura, durante o século XVIII. O atraso do sistema português de ensino, das primeiras letras à universidade, era uma evidência para todos aqueles que saíam do país. Na faculdade de Medicina, para ficar num exemplo, a observação dos cadáveres nas aulas de anatomia era proibido e todo o aprendizado era feito sobre dois carneiros que se abriam, anualmente. Na segunda metade do século, se ensaiam algumas modificações, sem muito sucesso. Elas esbarram na censura, em professores que ainda não tinham se afastado dos dogmas da Igreja, em preconceitos raciais.

Apesar da difusão de toda a literatura estrangeira “iluminista”, a estrutura mental lusa não apagava a religião. Mesmo os mais avançados amantes do espírito racional não se libertavam do ambiente profundamente religioso do período. Há poucos ataques à Igreja ou a seus membros. Isto significa que a aliança entre medicina e Igreja, na tentativa de manter o amor como algo perigoso e inconveniente, tende a prevalecer. As observações puramente empíricas e práticas que se faziam, até na Academia de Ciências, colaboravam para que sua condição de doença se autoalimentasse.

-Mary del Priore

Quadro da Suplica de Inês de Castro_thumb[3]pombal

 

“Súplica de Inês Pereira”, amor e sofrimento; Marquês de Pombal, inimigo do poder da Igreja.

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