Equitação: cavalos, arte e tradição na história

Publicado em 5 de novembro de 2013 por - História

Em 1845, certo Código do bom-tom ou Regras da Civilidade e de bem viver no século XIX, vendido nas boas casas do ramo se preocupava em ensinar como se comportar como gente de elite, ou “homem cavalheiro”. Além de recomendar assoar-se no lenço em lugar das mangas, ou da proibição de palitar os dentes com as unha, faziam parte desta etiqueta os chamados “jogos de cavalheiros”.

            Ser ou tornar-se um cavalheiro não era somente um simples caso de riqueza ou de sangue. Mas envolvia complexas considerações sobre o estilo de vida e a representação social que, desde a Idade Moderna, configuravam a identidade de determinados grupos sociais. E as atividades físicas faziam parte do amplo catálogo das consideradas boas maneiras.

Práticas pedagógicas de exercício físico deveriam preparar para a “graciosidade” que o cortesão exibiria como parte de sua herança e formação. Um tal comportamento ajudou a consolidar a imagem que, por séculos, a Europa usou para diferenciar-se dos bárbaros. Selvagens não sabiam portar-se à mesa, montar a cavalo ou esgrimir. Eram considerados quase animais, entre outras razões, por não controlar seu corpo.

Os padres jesuítas foram pioneiros em importar, além da fé católica, preocupações com a civilidade, adaptando-as as crianças indígenas que procuravam catequizar na América Portuguesa. Regras para a postura, o andar e a manutenção das costas e cabeças eretas eram aplicadas no cotidiano. E além do adestramento físico, das primeiras letras e orações, aos pequenos eram introduzidos aos “jogos dos meninos do Reino”, ou seja, de Portugal. “Correr argolinhas” era um deles: consistia num arremedo de torneio medieval, em que os meninos tinham que enfiar argolas em lanças sem ponta, retirando-as de postes onde pendiam, presas por uma garra. Tratava-se de uma tradição aristocrática que atravessou os tempos. Realizadas durante festas religiosas ou políticas, as “corridas de argolas” eram parte de um desafio maior: as cavalhadas. Delas participavam monarcas, príncipes, fidalgos da Casa Real e autoridades.

No Brasil Colônia, não eram só os “indiozícos” que corriam argolas. A participação das elites também foi uma característica de tais jogos nas conhecidas cavalhadas. Um dos mais antigos registros que delas temos, relaciona-se com as festas públicas promovidas por João Maurício de Nassau em janeiro de 1641, quando da comemoração da restauração de Portugal, do jugo espanhol e aclamação de D. João IV. O conde holandês mandou terraplenar e aterrar uma comprida carreira diante de sua casa e segundo Frei Manuel Calado, pregador que assistiu toda a ocupação flamenga:

E para que os cavalos não se pudessem desgarrar, mandou fazer uma estacada baixa da parte do mar e muitos palanques e teatros de madeira, para se assentar as gentes que viessem para as festas […] tanto pois que os mancebos cavaleiros de Pernambuco se viram  avisados por as cartas do Príncipe, logo se prepararam de custosas librés e ricos jaezes, como se requeria para as festas […] Fez o Príncipe duas quadrilhas  de cavaleiros, a saber de uma parte era o Príncipe que capitaneava a quadrilha dos holandeses, franceses, ingleses e alemães; e de outra parte capitaneava a quadrilha dos portugueses, Pedro Marinho Falcão”.

E como montavam estes últimos?

Os portugueses como todos iam à gineta corriam tão fechados nas selas, e tão compostos e airosos que levavam após si os olhos de todos e principalmente das damas […] a primeira carreira se armou a corda da argolinha; estavam postos muitos anéis de ouro com custosas pedras e trancelins do mesmo e voltas de cadeias de ouro e cortes de tela e seda […] começaram todos a correr, sendo o Príncipe João Maurício o primeiro, com umas lanças de pau muito agudo e de comprimento de dez até doze palmos; e os portugueses com lanças de 25 palmos”.

Já os cavaleiros holandeses, segundo o mesmo narrador, eram inábeis, não sabiam a arte da picaria e só davam saltos. Frei Manoel Calado contou também como seus conterrâneos eram ágeis em pôr a cabeça na sela e os pés para o alto ou, em entrar juntos e abraçados, um cavaleiro passando à montaria do outro. Incondicional, concluiu: “os Portugueses correram com tanto ar e tanta bizarria – palavras que na época queriam dizer elegância e criatividade – que algumas damas inglesas e francesas tiraram os anéis dos dedos e os mandaram oferecer, por prêmio, só por os ver correr”. Com desfiles de cavalos, corridas de cavaleiros, jogos de canas e argolinhas, as cavalhadas se espalharam pelo Brasil.

Manifestação de uma aristocracia que reativava seus ideais militares, que os encenava e exibia, as cavalhadas remetiam aos jogos militares e jogos de Corte, logo aos exercícios físicos que moldavam o caráter e o corpo do elegante cortesão. Certa cultura física andava junto com o modismo em voga na Europa: o de ter nos valores militares, os mais altos e caros à nobreza.  Para alguns, era uma maneira de demonstrar sua origem militar sem estar, necessariamente, a serviço das armas. Para outros, elas manifestavam a voz do poder instalado, ou seja, das monarquias, preocupadas em sublinhar as competências de seus soldados, sem necessariamente aplicá-las em batalhas ou guerras.

Mas não só europeus montavam a cavalo. Africanos e seus descendentes de origem jalofo, vindos da Senegâmbia, faixa de terra banhada pelos rios Senegal e Gâmbia, localizada entre o Saara e a floresta equatorial tinham total intimidade com a arte da cavalaria. Na descrição de um capitão português, André Alvarez, eram “grandes homens de cavalo, bons cavalgadores, boa gente de guerra”. Seus cavalos vinham do Magreb onde eram trocados por mercadorias, sobretudo, escravos. Cada animal valia de dez a quinze indivíduos. Os cativos vindos do Golfo do Benin tinham grande intimidade com cavalos berberes e árabes, pequenas jóias de beleza e resistência que se espalhavam pelo Norte da costa africana. Saber montá-los, mais do que um exercício, era uma arte revestida de simbolismo, sem contar que o animal era econômica e socialmente útil como meio de transporte. Usado para a caça nas savanas, o cavalo era, quer entre africanos ou europeus era uma coisa só: um símbolo de ostentação. – Mary del Priore

cavalo

“Henrique IV cumprimentando Gabrielle”, de Nicolas Antoine Taunay.

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