Entre cavalos e bondes: uma história dos transportes no Brasil

Publicado em 12 de dezembro de 2013 por - História do Brasil

Em tempos em que a mobilidade urbana e a precariedade da infraestrutura se tornaram os maiores problemas na vida econômica do país, vale a pena conhecer um pouco mais sobre a história dos transportes. 

 

Vamos começar pelo Período Colonial: em toda a parte, mas sobretudo nas cidades litorâneas brasileiras, o transporte das pessoas foi feito por meio de cavalos, mulas, cadeirinhas e liteiras. Havia, também, a sege, de tração animal. Com as transformações sofridas nas cidades, graças à vinda da família real portuguesa, os veículos melhoraram. A cadeirinha de arruar aperfeiçoou-se. Ganhou ornamentos, cortinas de seda, pinturas, entalhes e até vidros nas janelas. Popularmente conhecida como gaiolinha, foi retratada por inúmeros viajantes de passagem pelo país.  Até D. João VI possuía a sua, ricamente adornada e que tinha nas portas uma pintura a óleo do deus Apolo. O  transporte privado dos abonados democratizou-se com o aumento da população urbana. Nesta época, os negros forros tomaram o lugar dos brancos na exploração deste trabalho e multiplicaram os serviços.  Havia casas de aluguel de cadeirinhas em muitos cantos – palavra de origem africana – da cidade. A espécie de liteira pequena e fechada por cortinas de luxo ou de algodão estampado, conduzida por carregadores em librés exóticas era a condução mais usado até meados do século XIX. Ela variava em apresentação e luxo, conforme a condição econômica do proprietário ou da família que dela dispunha. Para missa, batizado e casamento, era o meio mais utilizado. Para vencer as pequenas distâncias, raras as famílias de recursos que não dispunham das suas. “A maior parte das casas urbanas de gente abastada mantinha cocheira e estábulo no andar térreo”, conta-nos Gilberto Freyre referindo-se às décadas de 40 e 50 no Rio e Pernambuco, que ainda explica que elas ficavam penduradas para evitar esbarrões e brincadeiras de crianças.

Na mesma época, alguns tipos de carruagens eram anunciados nos jornais: “carruagem (briska) elegante, boa e cômoda, feita em Paris com dois cavalos e dois jogos de arreios”, estampava o Jornal do Commércio de 5/3/1844. Para o servi-la, o ofício de cocheiro requeria diversas qualidades e aptidões como as exigidas por este anunciante no Jornal do Comércio de 18/3/1844: “bom, branco, pronto para todo o servi-lo, muito inteligente, falando português, alemão, inglês e francês

Também muito utilizada foi a serpentina: cadeirinha mais simples constituída por um estrado com teto de coruchéo e cortinado à volta. No centro, um tamborete ou banquinho onde se sentava o passageiro. Tirantes de ferro sustentavam o estrado á cobertura a um varapau que era levado nos ombros dos escravos. O modelo foi trazido da China pelos portugueses e teve grande sucesso junto com outros modismos orientais como os fogos de artifício ou os pentes de marfim.

Certo Sebastião Fabregas Surigue lançou ao tráfego as primeiras diligências que ruidosamente rolaram pela cidade. Por volta de 1808, a cidade já dispunha de seis cocheiras de aluguel de seges e algumas lojas de segeiros. As primeiras diligências iam até São Cristóvão e Santa Cruz para o tradicional “beija-mão de Sua Alteza”. Os franceses Martin & Cia., que haviam requerido concessão para um serviço de coches – chamados gôndolas fluminenses – obtém esse privilégio e, de acordo com o decreto do governo da Regência, em 1838, as suas linhas eram cinco, sendo três de menor percurso. Puxados por parelhas de bestas, as gôndolas transportavam nove passageiros, cobrando 120 réis, nos dias úteis e 160, nos domingos e feriados. Altas e pesadonas, as gôndolas serviram o público do Rio das sete da amanhã ás dez da noite, no inverno. E das seis às onze da noite, no verão. Os cabriolés surgidos em 1817, alugavam-se, em 1847. ao preço de 1$000 réis por hora para um passageiro e 1$500 para dois.

A dificuldade de transporte para as residências mais afastadas ou para viagens longas, fez com que os cavalos e os muares se tornassem, meios de transporte utilizados com frequência. Mas por volta de 1837, vindos da Europa, chegaram ao Rio ônibus de quatro rodas, dois andares e escada de ferro, pintados de vermelho. Os segeiros e alugadores de animais de montaria declararam guerra à inovação, que ia abrir-lhes forte concorrência. Eles previram que o novo tipo de transporte seria o desaparecimento dos já antiquados veículos, até então usados. No ano seguinte a novidade era vitoriosa e com privilégio exclusivo lançava quatro viaturas na cidade, puxados por quatro bestas e ao preço de 200 réis a passagem. No ano anterior, quarenta e sete cocheiras estavam abertas pelo centro do Rio, mas em 1847 seriam apenas catorze alugadores de animais e quase todos estrangeiros.

As carroças puxadas por animais eram comum meio de transporte de mercadorias. O barulho do ranger de rodas, a sujeira deixada pelos animais e o atravancamento das ruas criavam problemas. Por isso, em 1829, Sua Majestade Imperial ordenou que  “faça evitar que pela rua do Ouvidor passem carros de bois ou da porta da Alfândega e carroças, excetuando somente  os que se destinarem para algum serviço imediato da mesma”. Em 1867: “fica proibida, depois das 9 horas da manhã, a subida e descida de carroças pela Rua do Ouvidor”. Em 1881, a Câmara seria mais drástica ao vetar “o trânsito der cavaleiros e veículos de qualquer espécie, das 9 horas da manhã, ás dez horas da noite”. Por esta rua só podiam passar “os carros para casamentos, enterramentos e outros fatos religiosos”.

Em 1868, instalou-se na Corte uma companhia americana, a Botanical Garden Rail Road e os seus primeiros carros correram entre a rua Gonçalves Dias, canto do Ouvidor e o Largo do Machado. Pouco a pouco, a linha chegou ao Jardim Botânico e um ramal foi esticado até Laranjeiras. Não tardou que outros americanos estendessem linhas para São Cristóvão, Rio Comprido, Andaraí e Saco do Alferes, todas com ponto central no Largo de São Francisco. Em 1873, por iniciativa do Barão de Drummond, novos tramways aproximaram a Praça da Constituição da antiga Fazenda do Macaco, em Vila Isabel. A inauguração se fez a 9 de outubro de 1868, uma sexta-feira, às 10 horas da manhã. Saiu o primeiro bonde puxado por burros: da rua dos Latoeiros (atual Gonçalves Dias) para o Largo do Machado. D. Pedro II e a Imperatriz viajaram no primeiro carro, puxado como os demais por uma parelha. Lotação: 30 passageiros. Em 1890, havia 90 carros em circulação e 1300 burros estavam a serviço da população.

Em 8 de outubro de 1892 circulou na América do Sul, o primeiro bonde elétrico. A Companhia Jardim Botânico importou dos EUA o material necessário e a inauguração na sinuosa linha do Flamengo, se deu às 13 horas. Estiveram presentes ao ato o Vice-Presidente da República, em exercício na Presidência, Marechal Floriano Peixoto e representantes de diversos segmentos da sociedade. Os três carros elétricos, únicos que os recursos tinham podido adquirir deixaram o antigo Teatro Lírico, no Largo da Carioca e subiram a rampa da Rua Senador Dantas, com a lotação excedida. Depois deslizaram suavemente sob os aplausos do povo. Um aviso afixado nos espaldares dos assentos tranquilizava os medrosos: “A corrente elétrica nenhum perigo oferece aos senhores passageiros”. Sua velocidade era regulada por instruções baixadas pela Câmara Municipal: era proibido “dar aos carros maior velocidade do que a do meio trote dos animais nas ruas do centro”. A admoestação era para evitar atropelamentos.

Na direção do carro o cocheiro, mais tarde chamado motorneiro, cuja pose impressionou Machado de Assis, a ponto dele escrever na Gazeta de Notícias: “Para não mentir, direi que o que impressionou mais antes da eletricidade foi o gesto do cocheiro. Os olhos do homem passavam por cima da gente que ia no meu bonde, com ar de superioridade. Posto que não fosse feio, não eram as prendas físicas que lhe davam aquele aspecto. Sentia-se nele a convicção de que inventara, não só o bonde elétrico, mas a própria eletricidade”.

Nos pontos finais, aguardavam os rapazes na esperança de ver um palmo de panturrilha ou a pontinha do pé das moças que tomavam os bondes. Prova-o A Pata da gazela em que José de Alencar põe na boca do protagonista a seguinte invocação: “Senhor! Por que em vez de homem não me fizeste estribo de carro? Teria a felicidade de ser pisado por aquele pezinho”. – Mary del Priore

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3 Comentários

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    Muito bom conhecer um pouco da história dos transportes no Brasil.

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