Entre “casacas” e “pé-rapados”: a sociedade mineira do século XIX

Publicado em 29 de junho de 2014 por - História do Brasil

No século XIX, na zona rural, escravos andavam descalços e seminus, com um pano sujo passado entre as pernas, ou calças de riscado, o tronco nu ou com um molambo de camisa aberta no peito. Donos de engenhos e fazendas andavam ordinariamente descalços, camisa meio rasgada, calças de tecido de algodão, chapéu de palha e rosário pendente do pescoço. Em dias festivos, portavam chapéu de feltro preto, calças brancas curtas e botas compridas, presas por correias abaixo do joelho e jaqueta de chita de cor por cima do colete branco. O traje feminino compunha-se de vestido de montar, de pano azul ou verde, ornado de botõezinhos e, por baixo, longo vestido branco, bem amplo de modo a permitir montar a cavaleiro à maneira masculina. Com frequência, viam-se duas mulheres montadas num só animal. Mais freqüentemente ainda, o homem trazia sua mulher à garupa. Atrás do casal, também a cavalo, seguiam os parentes. Fechavam o cortejo, a pé, os escravos, a pé, em fila indiana. As mulheres abrigavam a cabeça com um lenço, sobre o qual encarapitavam um chapéu de homem, redondo, preto. Ao pescoço, penduravam rosários e escapulários. E tanto os homens, quanto as mulheres não dispensavam o guarda-sol. Mesmo a cavalo.

A indumentária opunha a “gente de casaca”, ou seja, os mineiros que andavam mais arrumados com casacas de casimira preta, aos demais que andavam de jaleco e em manga de camisa: “os pés-rapados”. Para proteger-se da chuva que caia fria, até nos meses de verão, os moradores usavam “guarda-chuvas cobertos de algodão e os escravos, mantos feitos com capim-mumbeca ou buriti.

O assunto preferido nessa época, segundo Joaquim Felício dos Santos, era a “civilidade”. Como comportar-se para parecer um “reinol”? A etiqueta era alvo de indagações: devia um cavalheiro sentar-se à mesa com espadim, sim ou não? Podia assoar-se na manga da camisa? E limpar o nariz ou escarrar em público? Eram frequentes, então, as reuniões de família, “quando a música eletrizava os espíritos”. Leituras e bibliotecas ocupavam muito o tempo dos moradores.

Jogar peteca era passatempo apreciado, para ambos os sexos. O baralho e o “whist” preenchiam a noite dos homens, enquanto as mulheres proseavam, bebericando chá. Os escravos reuniam-se nos “coretos” onde podiam cantar, beber e dançar a vontade. Batuques e lundús ao som dos poderosos caxambús, – tambores de pele -, as catiras com palmas e bate-pés no ritmo da viola, as rodas de Mineiro-Pau cantando quadrinhas, animavam as horas de folga. Em muitas fazendas, cativos tinham sua própria roça onde trabalhavam aos domingos e feriados. Também lhes era permitido criar galinhas e porcos.

O tema das conversas era sempre o mesmo: Napoleão e seus generais. “Mineiros nunca se cansam de ouvir falar de Napoleão Bonaparte e da história trágica de nossa revolução”, registrou Saint-Hilaire. Em Formiga, reunido com os principais habitantes na casa do comandante do arraial, o assunto eram as mulheres francesas. “seriam tão livres quanto afirmou outro viajante” perguntavam ao estrangeiro? Diante da confirmação, a reação dos mineiros era rápida: “Deus nos livre de tamanha desgraça”!

Porque as suas, na maior parte das vezes, nem se mostravam à janela. “Na região do Rio Grande e em geral na Comarca de São João se deixam ver mais frequentemente que em outras partes de Minas. Entretanto, como esse não é um costume muito difundido nem muito bem aceito, as que se apresentam diante de seus hóspedes só o fazem desafiando os preconceitos. Ali, como no resto da província, a dona da casa e suas filhas esticavam o pescoço por trás da porta entreaberta a fim de me verem escrever ou estudar as plantas, e se eu me voltava bruscamente à cabeça via seus vultos recuando apressadamente. Centenas de vezes me foi dado assistir a essa pequena comédia” – diria Saint-Hilaire.

Sim, as mineiras, além de elogiadas pela beleza, eram curiosas. As que jantaram com John Mawe na fazenda Mantiqueira bombardearam-no com perguntas sobre as modas na Inglaterra. Como se vestiam as damas por lá? Surpreenderam-se quando o viajante falou-lhes que elas cobriam as cabeças com “bonnets” visto que as senhoras brasileiras só cobriam as cabeças em idade avançada e para ornamento do cabelo preferiam um pente ricamente trabalhado. De preferência, de ouro. A que hospedou Marianne North mostrou-lhe seu guarda-roupa com “roupas elegantes e rendas, feitas à mão por ela mesma”.

Mulheres fazendeiras? Sim. De uma delas deixou-nos o retrato o médico prussiano barão Georg von Langsdorff: D. Ana proprietária da fazenda Bom Retiro perto de Barbacena. Viúva, sexagenária, administrava só a propriedade que contava com 12 escravos. Tinha engenho de açúcar e serraria. “Casou todos os seus negros e deles recebeu vários crioulos, ou seja, filhos de negros nascidos aqui […] Ela está em toda a parte, fiscaliza tudo ela mesma; é a primeira a começar a trabalhar e a última a deixar o trabalho”- ajuizava.

A hospitalidade para com viajantes era constante. Gardner, em viagem ao longo do rio Jequitinhonha foi acolhido com o envio de frutas frescas, sobretudo laranjas e jabuticabas, pelo fazendeiro capitão Almeida. Saint-Hilaire emocionou-se ao dizer adeus aos donos da Fazenda Boa Vista: no momento da separação, pai e filhos tinham lágrimas nos olhos. O barão de Langsdorff teve os maiores elogios para “o banho quente de pés” com que foi agraciado. Mawe registrou que “nunca encontrou em nenhuma parte do Brasil sociedade mais escolhida e agradável […] as suas maneiras não são cerimoniosas, nem usam os requintes da Corte, mas sua conduta é a de pessoas gentis e bem educadas, animadas por um humor espontâneo”. Enfim, o inglês adorou os mineiros!

Fazendeiros ricos tinham o cuidado de enviar seus filhos para estudar na Europa ou no Seminário de Mariana. A expressão “padre-mestre”, aplicável a todo o sacerdote que não era vigário, documenta quanto era generalizado o ofício de ensinar. Junto com os capuchinhos italianos, foram eles também os introdutores da música litúrgica e social. Afinal, a modinha nasceu em Minas, nos finais do século XVIII. E as primeiras orquestras mineiras adotaram os afro-descendentes e mestiços, os “mulatos músicos”, como regentes e virtuoses. Suas bandas de música rivalizavam entre si e animavam festas religiosas e profanas. Ao som de seus instrumentos, dançavam-se trechos das óperas de Rossini e, à medida que o século XIX avançava, valsas, polcas, quadrilhas e mazurcas. Foi graças a uma dessa orquestras que o Conde de Belmonte recebeu D. Pedro II em sua fazenda, ao som de soleníssima missa.

Os mineiros eram econômicos e sua parcimônia impressionou John Mawe. O Rio de Janeiro enviava produtos para o interior – escravos, sal, ferro, chapéus, tecidos de lã, algodão estampado, um pouco de vinho e óleo, peixe salgado e manteiga. Contudo, “poucos objetos de luxo” penetravam esses longínquos rincões. Seus habitantes, – afirmava- “só adquirem o que é absolutamente necessário”. Judiciosos mineiros!

– Mary del Priore.

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“Habitantes das Minas Gerais”, de Rugendas.

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