Engenhos de açúcar: território feminino?

Publicado em 9 de fevereiro de 2014 por - História do Brasil

Aos finais do século XVIII, um censo revelou que o Rio de Janeiro tinha mais mulheres do que homens. Considerando o total da capitania, entre 1779-1789, havia um predomínio feminino na população livre. Num total de 86.526 livres, 52,6% eram mulheres. No recôncavo da Guanabara e Vila de São José, havia mais homens do que mulheres e em Angra dos Reis, mais escravas do que escravos. De 1779 a 1799, se manteve a desproporção entre sexos no conjunto da população livre de Campos, em favor das mulheres. Em Campos, em algumas freguesias, a proporção de escravas era superior.

Assim como estiveram à frente de fazendas e outras atividades agrícolas, as mulheres também dirigiram engenhos. Quando fez sua Descripção do Districto dos Campos Goiatacaz, em 1785, Couto Reis recenseou 124 engenhos dos quais 10 pertenciam a mulheres. Para além destas senhoras de engenho, o cartógrafo identificou inúmeras lavradoras, envolvidas com o cultivo de cana. Com pouquíssimas exceções, todas possuíam, no mínimo, um escravo ou escrava, e produziam anualmente milho, farinha de mandioca, mas, sobretudo açúcar. De dez arrobas, como o fazia Paula da Cruz, com um escravo, a 700 arrobas, como Marcela Soares que possuía 13 escravos: duas mulheres e onze homens.

Outros documentos indicam a presença de mulheres como filhas e viúvas de senhores de engenhos, lavradores ou roceiros. Muitas delas, perseguidas pelo Santo Ofício da Inquisição, respondiam pelo crime de “judaísmo”. Numa relação de engenhos, referente a São João da Barra, entre 30 engenhos, sete deles pertenciam às mulheres em 1851. Muitos engenhos tinham licença do bispo para ter cemitério e capelas próprias, e muitas delas foram fundadas por mulheres.

Algumas saíram do anonimato a que lhes condenou a história. Veja-se, por exemplo, o caso de Benta Teixeira. Filha de padre e nascida em Campos em 1675, proprietária de terras e de um pequeno engenho, ela liderou a luta de pequenos produtores contra os descendentes do filho de Salvador Correia de Sá, o quarto visconde de Asseca. As reuniões dos insurgentes, segundo os biógrafos, davam-se constantemente em sua casa. Consta que sua filha, Mariana Barreto, foi de fato quem liderou o ataque, algemando pessoalmente os oficiais, havendo notícias de que várias outras mulheres participaram do conflito. O levante durou dias até ser sufocado pelas autoridades e a vila ocupada. Muitos dos participantes foram punidos com degredo em Angola, entre eles, Mariana Barreto.

A vida na capital mudava. No primeiro quartel do século XIX, o sistema de reclusão que vivia a maioria das mulheres abrandou, intensificando-se a vida nos salões. Elas passaram a comparecer aos teatros e a frequentar a capital. “Era o tempo das Sinhás, das Nhanhãs, das Sinhazinhas, das mocinhas […] para cuja educação se contratavam professores de piano, de canto, de dança”. Em Campos, e também no litoral sul, vigia uma espécie de matriarcado. O poder das mulheres vinha do fato de que os genros eram avidamente incorporados ao espaço da família da esposa. A existência de filhas era fundamental para estratégias de casamentos e manutenção de fortunas feitas de açúcar.

E com quem elas se casavam? Aos finais do século XVIII, 55% das filhas de ricos senhores se casavam com portugueses, 10% com cariocas, 15% com homens de origem ignorada e 20% com nascidos em São Salvador. A média de idade das noivas era 17 anos, mas havia quem casasse aos onze anos. Os futuros maridos tinham em média 27 anos. Entre negros e mulatos, as diferenças caiam. Mulheres contraíam matrimonio aos 19 anos e os homens, aos 24. O início da vida produtiva de um casal se fazia nas terras da mulher e de sua família. O dote de casamento funcionava como isca: proprietários de mais de vinte escravos dotavam bem suas filhas para que estas fizessem as melhores alianças. O dote, na forma de terras, escravos e bens materiais era uma contribuição de peso na formação de uma unidade doméstica.

O cotidiano nos engenhos do Rio de Janeiro persistiu sem grandes mudanças até a entrada da mancha escura e poderosa dos cafezais, nas antigas regiões de cana. Contudo, a presença de uma grande população feminina, associada às pequenas propriedades lhes deu uma personalidade diferente. Em primeiro lugar, ali vai se destacar a Sinhá, a poderosa matrona, erigida em Senhora pela força dos ricos dotes e dos casamentos arranjados, uniões nas quais os homens eram atraídos para um domicílio já preenchido por uma vigorosa sogra e avó. No mais das vezes, tais Sinhás, viviam extremamente próximas às suas mucamas, escravas ou escravos, sobre quem, a julgar por documentos e literatura, tinham poder de vida e morte, mas tinham, também, o papel de proteção.

A contiguidade das senzalas, as pequenas indústrias domésticas, os rituais religiosos e os da vida, nascimentos, casamentos e mortes, azeitavam um profundo conhecimento mútuo, relacões feitas de dívidas pessoais e favores. Proprietárias de terras, de pequenas ou grandes dimensões, ligavam-se por solidariedade com suas roceiras ou lavradoras. Um forte sistema de compadrio entre as primeiras e as segundas, permitia alimentar um sistema de ajuda mútua e cabia, sobretudo, à senhora, proteger as demais mulheres, muitas vezes, viúvas, abandonadas ou deixadas enfim, sozinhas. O poder simbólico contido na capacidade de amparar, aconselhar e suportar nas dificuldades, não deixava de ser alimentado pelas oportunidades nascidas nas árduas condições de sobrevivência das populações femininas. Esta é uma das histórias das mulheres de açúcar. Mas de ferro, também.  – Mary del Priore

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“Vendedores de Flores”, de Debret. Senhoras e suas mucamas. 

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