Enchentes: um problema antigo

Publicado em 13 de dezembro de 2013 por - História do Brasil

Temos assistido aos transtornos que as chuvas estão causando no Rio de Janeiro. As enchentes trazem muitos prejuízos e sofrimento à população fluminense e de diversas outras regiões do Brasil. O problema, como sabemos, não é recente. Desde os tempos coloniais, as nossas cidades sofreram com péssimas condições sanitárias, lixo acumulado nas ruas e rios, que pioram as enchentes e causam surtos de diversas moléstias.

Desde o início da colonização, as cidades surgiram de maneira desordenada: os portugueses escolhiam os lugares mais altos para se estabelecer, abrindo ruas estreitas e tortuosas, que acompanhavam a topografia da região. Emanuel Araújo, em “O Teatro dos Vícios” atribui esse descaso com a urbanização ao fato dos colonos encararem o Brasil como um lugar provisório: um lugar para enriquecer e partir rapidamente, para retornar a Portugal. A Colônia era também predominante rural, sendo que os mais ricos viviam preferencialmente em suas fazendas e engenhos, vindo à cidade apenas nos dias festivos ou para resolver alguma pendência. Portanto, não se importavam muito com as condições das aéreas “urbanas”.

As ruas nem sempre eram calçadas e, no Rio de Janeiro, esse trabalho de calçamento só começaria a ser realizado cinquenta anos depois de sua fundação. O nivelamento acarretava muitas poças d’água e lama nas ruas. “(…) a calçada inclina-se desde as casas de ambos os lados para o meio da rua…Não são utilizadas pedras de guia, pois as carruagens, ao passarem umas pelas outras, cruzam bem perto das fachadas das casas”, contava Johann Emanuel Pohl, em 1817.

O péssimo planejamento das ruas, que facilitava o acúmulo de água, era agravado por um outro hábito que até hoje nos persegue: jogar lixo nas vias, rios, terrenos baldios e qualquer outro lugar – incluindo a porta das casas de desafetos. Atirava-se dejetos de todas as origens nas águas dos diques públicos. Também era comum enterrar os mortos nas igrejas e, com as chuvas fortes, cadáveres ficavam parcialmente descobertos e a água das enxurradas infectada. As epidemias matavam muita gente, com certeza, por culpa da insalubridade das águas e da sujeira.

Por fim, as casas eram geralmente construídas de maneira precária. Debret observou a “péssima construção das casas térreas que ainda hoje margeiam a quase totalidade das ruas do Rio de Janeiro”. As casas mais pobres eram feitas de palha, madeira e barro. Obviamente, que quando chovia, a água entrava nas habitações. As enchentes atingiam, como sempre, a população menos favorecida, que vivia nas margens dos rios e nas áreas mais baixas.

Os problemas são antigos. Será que um dia teremos soluções efetivas?

Márcia Pinna Raspanti

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Vista da Baía do Rio de Janeiro e da praça do Largo da Carioca tomada do jardim do convento de Santo Antônio”, de Nicolas-Antoine Taunay, 1816.

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