Educação e violência urbana: uma reflexão

Publicado em 29 de abril de 2014 por - História do Brasil

Mães e pais de adolescentes estão aflitos. As saídas noturnas de seus filhos geram, a cada dia que passa, a cada jornal que se lê, mais e mais apreensão. O zelo ou a preocupação excessiva são plenamente justificáveis. Sabe-se que as grandes cidades vêm batendo recordes de violência e os jovens são suas maiores vítimas. Mas são, igualmente, seus maiores algozes. A demora em um sinal ou um esbarrão em uma boate cheia podem ser fatais.

Um problema só brasileiro? Não! As democracias europeias, por exemplo, vêm se confrontando com o aumento brutal da violência cometida por menores. Lá, a preocupação de erradicar a violência soma-se ao esforço de tentar inseri-lo em um tecido social desgastado e atingido pelo risco do desemprego e da pauperização.

Na França, verdadeiras batalhas campais entre a polícia e os jovens da periferia parecem demonstrar que estes, dilapidando ônibus e queimando carros, recusam a ordem estabelecida, querendo afirmar ao mesmo tempo sua exclusão. No “laboratório social” que continua sendo a Escandinávia, menores transgressores são gentilmente tratados como “problemas sociais”. Nos Estados Unidos, o problema foi inicialmente resolvido pelo abandono das zonas em que se concentrava a insegurança — as ” inner citie? — pela população de maior poder aquisitivo. Na Inglaterra e na Alemanha, assistiu-se a reabertura das instituições para jovens delinquentes. A preocupação é uma só: evitar a contaminação, criar barreiras contra a incivilidade, circunscrever o horror. Multiplicam-se, assim, os guetos.

Nos Estados Unidos, a reticência da população branca em conviver com as minorias raciais confundiu-se com a preocupação em prevenir-se contra a insegurança. No Brasil, copiamos o modelo ao criar enclaves residenciais altamente protegidos: alarmes, cães de guarda e guaritas armadas tentam confortar o medo. Mas tanto na Europa, quanto nos Estados Unidos, o lema é um só: “tolerância zero”! Cada país, do seu jeito e segundo sua cultura, tenta abordar o problema de maneira a baixar a criminalidade entre os jovens.

A tarefa não é fácil. Nos Estados Unidos, venceu a estrita aplicação da doutrina dita, “da vidraça quebrada”. A pequena delinquência — quebrar um vidro, por exemplo — é considerada tão grave quanto o grande crime. Os métodos musculosos do prefeito Rudolph Giuliani transformaram Nova York numa ilha de relativa paz. Na França, o aumento da criminalidade juvenil, associado ao fracasso de políticas de integração de imigrantes por meio do serviço social ou de associações como clubes e sindicatos, levou ao aprimoramento da polícia e à análise da dimensão política do movimento de jovens saídos das imigrações norte-africanas. Na Inglaterra, os “bobies”, símbolos da repressão civilizada, investiram em tornar-se uma polícia próxima da comunidade. Na Suécia, o movimento de “Mamães e Papais Urbanos”, associação de adultos, patrulha e vigia as comunidades.

No Brasil, vemos associar-se a pauperização dos moradores de guetos vizinhos aos bairros de classe média à barbárie dos jovens da mesma classe média, destituídos de mínimos valores de cidadania. Mas como impor, aqui, a “tolerância zero”? É inegável que o Estado tem de fazer sua parte, reeducando policiais, aparelhando delegacias, pagando salários adequados a quem, teoricamente, expõe sua vida para salvar vidas. Mas está provado que deve haver uma adesão da sociedade a tais mudanças. A começar pela “tolerância zero” dentro de casa.

É fundamental que, como cidadãos, os pais se conscientizem de que devem implicar-se na luta contra a delinquência juvenil. É preciso dizer não: não incentivar a violência, não incentivar a velocidade, não incentivar apenas os valores materiais. E preciso também valorizar o papel da comunidade, do bairro, do clube. É sabido que em espaços onde os valores comunitários são mais fortes, a violência é mais fraca. Basta, enfim, de encarar a violência como algo banal e endêmico, fruto da sociedade moderna! É preciso que cada um de nós faça algo, se não por si próprio, por seus filhos. – Mary del Priore

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