E os príncipes se casaram…

Publicado em 11 de março de 2014 por - História do Brasil

Na história das relações entre Brasil e França, dois elos feitos de “sangue azul” nos ajudam a conhecer melhor não somente a nossa história, mas também a da França. Além disso, nos aproximam das representações sobre a família imperial brasileira, frente às longevas dinastias europeias ao longo do século XIX. Brasil: um império tropical desejado? Um regime escravista sem civilização? Há muitas perguntas a serem respondidas por meio da análise de documentos mantidos nos Archives de la Maison de France, ainda intocados por nossos pesquisadores.

Por pertencer a um dos mais antigos troncos dinásticos, os Orléans, nascidos de Monsieur, Philippe de France, irmão de Luís XIV, os “consortes dos trópicos” vieram marcados por um pesado fardo. Aquele que nasceu a 20 de janeiro de 1793, dia em que Philippe Egalité, ao votar a sentença de morte de seu primo Luís XVI cometeu uma espécie de “pecado original”.

Deste tronco, o primeiro membro da realeza francesa a ligar-se, por matrimônio a uma princesa brasileira foi Francisco Fernando Filipe Luiz Maria de Orléans, o Príncipe de Joinville, terceiro filho dos reis franceses, Luiz Felipe de Orléans e Maria Amélia das Duas Sicílias, sobrinha de Maria Antonieta, membro da casa de Bourbon! Contam historiadores franceses que, recebidos nas Tulherias por Luís XVIII, abriam-se as duas portas para Maria-Amélia, alteza real e apenas meia folha para Luís Felipe.

Joinville pertencia a uma família numerosa, alegre e unida: cinco irmãos e três irmãs, fora dois que morreram pequeninos. No castelo de Neuilly, às margens do Sena, onde nasceu, teve os melhores professores de tudo – de pintura a esgrima – e nos jardins do mesmo palácio, acompanhou o golpe que derrubou Carlos X de Bourbon e que levou seu pai ao trono. Como qualquer príncipe casadoiro da época, calculava seus passos:

            “Hoje, o Rei me disse que a pequena rainha de Portugal solicitava a minha mão, e não a de meu irmão Nemours, em casamento. Este projeto não me sorri. Se eu tiver filhos aqui eles serão pobres, enquanto lá embaixo – leia-se, no Brasil – farei um negócio soberbo. E a condição de rei é tão infeliz que não me atrai”.

Lá embaixo” o esperava Francisca, a mais bela dos filhos de D. Pedro I e D. Leopoldina. Francisco, o único moreno dos Orléans, dono de olhos rasgados e um nariz reto em rosto oval e harmonioso. Francisca, uma loura cor de rosa e “dentes estragados”, segundo o próprio Joinville. Na verdade, os jovens tinham se conhecido quando da primeira viagem do Príncipe ao Brasil. Ele tinha então 19 anos e servia como tenente na nau Hercule. Em janeiro de 1838, demorou-se no Rio de Janeiro, percorreu a Mantiqueira e a serra do Mar em lombo de burro, visitou as minas de Congo-Seco, admirou o decote das mineiras e as formas de “uma mulata bem torneada”, numa birosca ao pé do Corcovado – segundo gravou em suas memórias. Entre idas e vindas ao palácio de São Cristóvão anotou no diário suas impressões sobre Francisca, que mais tarde chamaria Chicá, com pronúncia francesa: “é aprumada, seca e extraordinariamente sagaz; sua irmã sempre a coloca na dianteira e ela informou que vai me dar um papagaio que fala”. A pequena tinha, então,14 anos.

E foi com esta imagem da princesa e de seu império que Joinville partiu, na rota de muitas viagens e aventura, até voltar em 1843. Esta segunda visita foi cercada de dúvidas e imprecisões. Por motivos só mais tarde elucidados, Joinville arrastava os pés. Não tinha pressa de chegar ao Brasil. Depois de uma escala no Daomé, onde se hospedou no palácio do comerciante de escravos, o mulato baiano Chachá, ele distraiu-se em costear a África, sem comentar com ninguém suas intenções. Apesar dos rumores que desacreditavam sua chegada, a fragata entrou no Rio de Janeiro, na noite chuvosa de um 27 de março. Ao passar pela fortaleza de Santa Cruz, a Belle Poule foi saudada com 21 tiros de canhão.

Os navios franceses estacionados em águas cariocas ergueram suas bandeiras e acompanharam com fogo, a saudação da fortaleza. As tripulações subiram às vergas acenando freneticamente enquanto os navios ingleses disparavam salvas festivas de canhão. A baía de Guanabara, suas ondas e praias foram inundadas por um só grito: “Vive le Roy”! Membros do corpo diplomático enviado por D. Pedro II correram oferecer ao “augusto Senhor o que precisasse”: o palácio da cidade, as carruagens imperiais, etc. O ministro plenipotenciário da França, barão de Langsdorff, foi surpreendido pelos gritos de um escravo, durante um piquenique na floresta da Tijuca: “O príncipe chegou!”.

Uma questão andava nas bocas: Francisca ia ou não casar com Francisco? Os jornais se referiam a “conversações gerais”, a “boatos” e segredos que cercavam os acontecimentos. Do outro lado do Atlântico, jornais franceses comentavam o mesmo. Em Portugal, D. Amélia, viúva de D. Pedro I esforçava-se para aproximar Francisco e Francisca, evitando que a enteada caísse nos braços de algum príncipe napolitano.  A jovem era muito inexperiente.

O mesmo não se pode dizer de Francisco. Ele mesmo confessou em suas memórias que depois de percorrer Biafra, Guiné e Gabão chegara ao Rio onde “uma mudança brusca se consolidou em minha existência, mudança há muito desejada por meus pais”. E de fato, a razão para que, antes, ele arrastasse os pés tinha um nome: Elizabeth Rachel Félix. Era uma figura adulada e célebre da cena teatral francesa. Além de ser fêmea do mundo, tinha dois filhos bastardos. O bastante para que os reis de França desejassem a tal mudança do filho. Joinville a chamava de “minha criança”. E ela o tratava ternamente de “meu cachorrão”. Um abismo separava as duas mulheres, mas havia semelhanças físicas entre elas.

Ora, a lentidão de Joinville explicava-se por ter rompido há pouco tempo a relação considerada escandalosa com Rachel. Na verdade, ela o trocara por um partido melhor: um filho bastardo de Napoleão, o conde Walenski. Com o coração partido, Francisco aceitou a sugestão dos pais para curar-se: o casamento. A jovem Francisca não entusiasmou logo ao príncipe, que passou os primeiros dias preso de melancolia. Francisco chegou a confessar a seu ajudante-de-ordens que temia ter saudades da vida de solteiro. Mas aos poucos foi achando Francisca bonita. E ela, não hesitava em fazer-se bela.

Tendo deixado a França com a firme convicção de não se deixar impor uma aliança, Joinville decidiu-se em poucos dias. Driblou como pode as preliminares burocráticas e diplomáticas que o aborreciam. O noivado foi rápido – depois de um piquenique no Jardim Botânico – e as negociações evoluíram em poucos dias. O barão de Langsdorff titubeava pois ainda não tinha ordens claras do rei dos franceses. O pedido oficial foi feito no dia 19 de abril e a data marcada para 1º. de maio de 1843.

 

A cerimônia foi realizada na mais estrita intimidade, com pouquíssimos convidados. Ela, vestida de branco à francesa em meio às damas de verde e amarelo. Terminada o casamento civil e religioso, foi abraçada pela irmã e acompanhou a procissão do beija-mão ao Imperador. Após o jantar em que tomaram parte os convidados, ficaram em família. Francisco, então, não se fez de rogado. Desprezando as regras do deitar de uma noiva imperial, deu boa noite aos presentes, estendeu o braço à Francisca e se recolheu com ela aos seus aposentos. Escândalo!

A baronesa de Langsdorff estava encarregada de acompanhar e orientar Francisca no que se referisse à etiqueta francesa da jovem recém-casada. E tinha trabalho a fazer! Na flor dos dezenove anos, a princesa era despreparada, quase infantil. Os jornais e a população desejavam os “sinceros votos de ventura”. Provincianos, felicitavam a princesa que ia “abrilhantar os reais palácios da Europa”. Depois das despedidas da Corte e do corpo diplomático, das muitas lágrimas abraçada à irmã Januária, o casal se enfiou no Belle Poule a espera de bons ventos.

Ao longo da travessia, as atividades eram as de sempre: pintura, charadas, música, leituras, pequenas representações e teatro de sombras – estes últimos, ideia do príncipe por ele mesmo encenadas. Mas a borboleta tinha que deixar o casulo. “Esses modos brasileiros não me parecem tão deploráveis em princípio […], dizia a baronesa. Era também preciso ensiná-la manter conversação à mesa – pois se acostumara a manter um “silêncio obstinado”. Durante as aulas sobre a história da França – sugestão do marido – “escutava mais como criança do que como adulto”.

À medida que se aproximavam da França, a jovem princesa tomava consciência de que não só os “modos brasileiros”, mas a própria imagem do império precisava de retoques. Na verdade, não tinha ideia do que iria encontrar e sentia-se fragilizada. Temia encontrar-se com a sogra, a rainha dos franceses. Chorava com saudades de São Cristóvão. A baronesa consolava. Apesar das atenções e do carinho do marido, sua insegurança era evidente. A proximidade com a Corte mais sofisticada da Europa, ainda que uma monarquia liberal sobre a qual sopraram ventos de mudanças, irradiava a necessidade de adaptações. E rápidas.

Desembarcaram em Brest, conhecida por suas belas fortificações militares, sua renomada Academia de Marinha e a então recém criada Escola Naval. Além do castelo medieval, Francisca nada vislumbrava se não os campos de trigo sob o céu de chumbo. Em seguida, foi entregue a Denise de Hulst, uma beldade que fazia parte do círculo mais íntimo da família real. O resultado foi que a menina graciosa e sedutora, foi enfiada num vestido cinza apertado e com saia em três fileiras de armação, extremamente bufante. Parecia desolada debaixo de um chapéu cujas flores caíam ao longo do rosto, modificando-o e acentuando os olhos vermelhos de choro. Estava na última moda. “Mas isso não é a  minha mulher! É uma campainha”, reagiu o príncipe quando a viu. Pois foi vestida de campainha que ela desembarcou na França, onde as gafes se sucederam. Pelo temor de fazer feio passava frio, pois não ousava se cobrir. Comia demais, achando que assim agradava os franceses. Interrompia saudações e cerimônias por não compreender bem a língua.

O calvário se adensou, pois até chegarem à cidade medieval de Vire, na região de Calvados, baixa Normandia, onde eram aguardados, a carruagem do casal foi alvo de pequenas manifestações de desagrado: empastelamento das portas, perseguição por cavaleiros mal encarados, recepção fria em algumas cidades que atravessaram, fisionomias fechadas por onde passavam. Resquícios de bonapartismo e as agitações internas não estavam mortos. O próprio rei escapara a vários atentados, desde que começara a governar. Enquanto uma parte do país se construía graças ao desenvolvimento econômico, o gosto por barricadas não abandonou outra parte da sociedade.

O encontro de Francisca com a família d´Orléans se deu no castelo de Bizy. O sogro, Luis Felipe, que o herdara da duquesa de Orléans, restaurou os antigos edifícios, construiu um parque à inglesa, plantou centenas de árvores e fez construir mais duas alas para abrigar a grande família: oito filhos e seus cônjuges. Francisca queixou-se à baronesa de Langsdorff que “tinha um medo muito grande da recepção”. Mas enganou-se. O sentimento era apenas o resultado da longa expectativa. Assim que a carruagem fez ranger o cascalho da estrada, o rei e a rainha, o duque e duquesa de Nemours, a duquesa de Orléans, agora viúva do irmão mais velho de Joinville e sua tia Adelaide acorreram à escadaria externa. Francisca foi beijada e depois rodeada pelos familiares que a levaram para dentro do castelo. Aí aguardavam auxiliares, damas de honra e preceptores do príncipe. Aliviada, a jovem entrou na sala de jantar no braço do sogro. A família real formava um quadro solene e feliz. Receberam com cuidado este frágil ser, para eles um misto de criança, selvagem e órfã.  “O pássaro das ilhas” como a chamava, carinhosamente, Joinville.

De início, viveram em Paris, nas Tulherias, no seio de um conjunto familiar alegre e variado, verdadeira benção para Francisca que cresceu órfã e solitária. Luís Felipe e Maria Amélia chamavam-se de “mãe” e “pai”. Expansivo, cheio de vivacidade o rei e a esposa se adoravam. Ela lhe servia de secretaria, além de mantê-lo informado com a leitura dos jornais.

A revolução que pusera Luís Felipe no trono como “rei dos franceses” e não da França, marcou a derrocada da aristocracia como grupo ascendente. A classe governante nos próximos 50 anos seria a “grande burguesia” de banqueiros, grandes industriais, altos funcionários civis, aceita por uma aristocracia que se eclipsava. E mais: que concordava em promover políticas em favor dos interesses burgueses. O rei encarnava o chefe de Estado cidadão ideal, o mais burguês entre os burgueses, homem de dinheiro entre banqueiros, gestor em meio a uma oligarquia de burocratas.

24 de fevereiro de 1848: caía o império francês. Joinville e Chica, assim como todos os Orléans atravessaram a revolução de 1848 que os destituiu do trono de França, instalando-se, exilados, na Inglaterra. Voltaram à França, em 1868 e viveram 55 anos juntos. – Mary del Priore

Francois_Princess_of_Joinville_1844 (1)
“la Princesa de Joinville”, de Ary Scheffer, 1844

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

1 Comentário

  1. JEFERSON AUGUSTO DA CRUZ disse:

    Perfeito esse texto. Gostei muito, são detalhes até então desconhecidos da vida de um princesa brasileira em terras francesas.

Deixe o seu comentário!