Dom Sebastião e o germe da mitologia lusitana

Publicado em 1 de junho de 2015 por - História

Por Andrew  Amaral.

       Ainda é madrugada. Do Tejo acaba de desembarcar uma invulgar figura. Seus pés caminham trôpegos, como quem muito estivesse enfadado, mas seu olhar é firme e cintilante. Ninguém ainda o percebe, porque a neblina é densa e sol tarda a despertar a cidade que um dia viu partir seu rei rumo à África, mas que ainda espera ansiosa por seu regresso, e o chora todos os dias, na letra de seus fados, a desventura daquele que fora aclamado “o desejado”. Os sinos da igreja de São Domingos, templo este testemunha de inúmeros dramas e glórias, são os primeiros a tomar de assalto os ouvidos dos citadinos, que como moribundos despertam de suas alcovas. E junto a eles, todos os outros sinos, da cidade de Lisboa e dos confins de todo o Reino de Portugal, e para além da Taprobana, em profusão de júbilo vêm como arauto anunciar o regresso de El-Rey Dom Sebastião. Outrora extraviado, agora entronizado pelos louros da glória!

     A cena acima é fictícia, mas ilustra o que permaneceu no imaginário coletivo do bravo povo lusitano, que de tanto orgulho nunca imaginara ver sucumbir a ermo seus valorosos homens, como qualquer vulgar soldado. E tudo isto fora culpa de um rei, que teve ao nascer fortuna ao seu lado, mas que não fez do juízo sua boa companheira.

      A história de D. Sebastião está repleta de lendas, porque não houve em Portugal quem representasse tão bem o papel fulguroso do desejo e da perdição. Coroado ainda aos três anos de idade, tendo apenas o infortúnio de ser completamente órfão, sob ele repousava a esperança da nação que, em 1385, se livrara, por muito esforço, da ameaça de anexação castelhana, projeto este sempre à espreita. A educação do menino-rei ficou a cargo da avó castelhana, que se tornara regente do Reino. Até hoje, fica dúbia a imagem de rainha de Portugal, e agente de duplos, devido aos inúmeros e difusos interesses alheios. O fato é que dona Catarina, esposa de D. João III, proporcionou a D. Sebastião uma educação bem ao estilo da época, incutindo no neto o pavor ao antropocentrismo que era a última moda do movimento renascentista (movimento este que engatinhava em Portugal, quando na Itália já se encontrava em sua mais esplendida maturidade). Sucederam na preceptoria do menino grandes próceres da igreja, todos com fama de beatitude, cada um a martelar em sua insipiente cabecinha real a aversão às aventuras de cunho carnal, e em contrapartida, a exaltação do sentimento de orgulho por ser o rei de Portugal. Orgulho esse que quanto mais florescia, ledamente menos lhe parecia jactancioso. 

        Assim sendo, uma mente predestinada a glória, só pode encaminhar-se a própria tentação de glorificar-se. E ninguém menos que D. Sebastião tinha a gana de querer conquistar todo o mundo, fosse conhecido ou não, a fim de dilatar, ainda mais, os seus já herdados muitos domínios, adida a missão de levar à força, fosse assim necessário, a doutrina e a fé católica. Por isso foi bater-se, ao norte de África, com os infiéis árabes. Não crendo que Deus poderia lhe preterir como companhia, foi então acompanhado por sua própria insanidade, e real despreparo, desta forma, foi surpreendido pela sorte, que sempre contou estar ao seu lado, e como colosso sem forças se perdeu em campos exauridos, onde ainda repousa a memória, mas que não se sabe precisar da mesma forma o corpo.

        José Hermano Saraiva, autoridade acadêmica e personalidade televisiva portuguesa, dá conta que ninguém viu El-Rey morrer. Porque ninguém pode ver morrer o rei e ainda permanecer vivo. Seria muito vexatório assumir a condição tão vil de não morrer junto, e por, seu rei. Como assim procedeu, a ideia de seu corpo, mais que de sua própria alma, anda penada em Alcácer-Quibir, a procura de carona com destino à saudosa Lusitânia.

       Em torno da figura de D. Sebastião se derivou o “sebastianismo”, nome emprestado, que designa o nacionalismo exacerbado e a valorização do jeito, em tudo e de tudo, de ser tipicamente português. Um sebastianista é alguém que espera que Portugal sempre se porte à altura de sua história, não olvidando que seu berço esplendido é o império que não se deteve a qualquer limite ou intempérie, e que fez de Portugal o precursor de todos os outros impérios ultramarinhos.

      Diversos livros dão conta da vida e do tempo desta figura, que não viveu mais que vinte e poucos anos, mas que repercute no pensamento e na produção literária, não só em Portugal, mas também no Brasil. Um das mais aprazíveis obras que se pode recomendar é “D. Sebastião, o homem e o seu tempo”, do escritor português Mário Domingues. Este autor dedicou sua vida inteiramente a estudar e retratar em um primoroso estilo literário a vida de todas as grandes figuras portuguesas, que por conveniência do tempo e do espaço também são grandes figuras a repercutir na história do Brasil. Não nos esqueçamos de que até 1822 estas duas nações eram, em essência, a mesma coisa, o domínio do Rei de Portugal. Vale a pena ler e estudar a vida deste personagem que ainda é esperado por seu povo, que quando do mais alto de sua premência ressurgirá para salvá-lo. E que apesar de todos seus desvarios, nunca deixou de ser amado, tão pouco jamais será esquecido.

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Retrato de Sebastião I, de Portugal, de Cristóvão de Morais (1572).

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