DIREITOS HUMANOS, MORADIA E OS JOGOS OLÍMPICOS

Publicado em 28 de agosto de 2015 por - temas atuais

Por Natania Nogueira.

Para os estrangeiros que visitam nosso país, o Rio de Janeiro apresenta seus mais belos cartões postais: as praias de Copacabana e de Ipanema, o Pão de Açúcar, o Cristo. Não há “gringo” que não queira conhecer seus mais famosos pontos turísticos, imortalizados no cinema por produções nacionais e internacionais.  O que não se mostra, ou não se quer mostrar, é a faceta da cidade que não está tão linda assim. Nas calçadas de Copacabana não faltam buracos. Pois é, em meio a tanta beleza, a hotéis majestosos como o Copacabana Palace, podemos encontrar calçadas esburacadas.

Mas a promessa é que a cidade vai estar linda e pronta para receber turistas de todas as regiões do Brasil e do mundo em agosto de 2016. Isso é o que mais se tem falado nos últimos anos: as obras no Rio de Janeiro. Com o objetivo de modernizar a cidade e prepará-la para receber turistas do mundo todo, ela vem sofrendo uma série de intervenções urbanas.

Das cidades brasileiras, o Rio de Janeiro talvez seja a que mais mudou ao longo da sua história. Obras de modernização e revitalização não são necessariamente uma novidade para o carioca.

Quando Dom João veio com a Corte Portuguesa para o Brasil, em 1808, fugindo de Napoleão Bonaparte, encontrou uma cidade simples para os padrões europeus e a transformou na sede do Império Português. Não podemos esquecer, no entanto, do drama sofrido pelos seus moradores. Muitos deles perderam suas casas, desapropriadas por ordem do príncipe regente, no famoso episódio do “ponha-se na rua”.  Os habitantes do Rio de Janeiro também passaram por momentos de privação, com o aumento do preço dos alimentos e alugueis.

O prefeito Pereira Passos, 1902 e 1906, inspirado na reforma realizada em Paris entre os anos de 1853 e 1870, modernizou a Zona Portuária, criou a Avenida Central, hoje Rio Branco, a Avenida Beira-Mar e a Avenida Maracanã. Para tanto, derrubou os cortiços, que na época eram cerca de 600 e abrigavam a população mais pobre da cidade. O pretexto era combater a febre amarela e outras doenças que assolavam o Rio de Janeiro.

A capital do Império ganhava sua faceta republicana. Ao mesmo tempo em que era saneada e modernizada, cresciam e nasciam favelas, ocupadas pela gente humilde que morava nos cortiços, demolidos para dar espaço a palacetes, praças e prédios públicos.

Para a Copa do mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016 as obras realizadas no Rio podem até trazer benefícios para a cidade, com o investimento em pontos estratégicos, revitalização de espaços destinados a turistas, que irão geram empregos e renda para muitas famílias, além de engordar os cofres públicos, claro. Afinal, com a maior arrecadação do comércio e na prestação de serviços a municipalidade recolhe mais impostos. Mas toda a euforia gerada pela promessa de tempos melhores vem acompanhada de um lado perverso.

Os chamados megaeventos esportivos trouxeram consigo várias formas de afronta aos direitos dos moradores da cidade maravilhosa. Mais uma vez o direito a moradia está sendo ameaçado. Segundo o Dossiê do Comitê Popular da Copa e Olimpíadas do Rio de Janeiro, publicado em julho de 2014 (clique aqui para acessar), junto com as obras, veio também o desrespeito aos direitos humanos, principalmente entre as comunidades mais pobres que ocupam áreas valorizadas.

“São 4.772 famílias já removidas na cidade do Rio de Janeiro, totalizando cerca de 16.700 pessoas de 29 comunidades mapeadas neste dossiê. Destas, 3.507 famílias, 12.275 pessoas de 24 comunidades, foram removidas por obras e projetos ligados diretamente aos megaeventos esportivos. Outras 4.916 famílias de 16 comunidades estão sob a ameaça de remoção”.

Custa-me entender porque o preço pela modernização seja constantemente cobrado daqueles que deveriam ser os principais beneficiados por ela. Do século XIX ao século XXI, o Rio de Janeiro revive uma história de desrespeito ao patrimônio material e humano, que dá a cidade a sua identidade. Não a identidade construída e vendida pela mídia, mas aquela que abriga raiz histórica do carioca, um povo cuja principal característica talvez seja a de conseguir sobrevir às várias transformações urbanas as impostas ao bel prazer das vontades e vaidades políticas de seus governantes.

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Acima: Rio de Janeiro, Largo do Rocio, em 1834 (Debret); e em 1904.

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2 Comentários

  1. Paulo disse:

    Ótimo post! Lembrei de uma reportagem de uma equipe europeia fez em algumas escolas do ensino público brasileiro, que, contavam até com nutricionistas, passado a reportagem, pais e alunos estavam denunciando a escola pelo descaso das merendas, e como no caso das olimpíadas, a história se repete, é sempre o inglês para o gringo ver.

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