Direitos femininos: anjos do lar ou sufragistas?

Publicado em 3 de setembro de 2014 por - História do Brasil

Na transição do século XIX para o XX, o país foi inoculado pelo dinamismo que atingia a economia internacional. Tais mudanças, explica o historiador Nicolau Sevcenko, afetaram a ordem e as hierarquias sociais, as noções de tempo e espaço, seus modos de perceber os objetos e mesmo, – o que nos interessa aqui – a maneira de organizar as afeições ou de sentir os outros seres humanos. Nunca, em período anterior, tantas pessoas foram envolvidas num tal processo de transformação de hábitos cotidianos, convicções e percepções, influenciadas, querendo ou não pela expansão do capitalismo: a energia, o petróleo, os altos fornos, o desenvolvimento da indústria química e metalúrgica, e também da bacteriologia e bioquímica, os impactos de novas medidas de higiene e profilaxia, isto e muito mais, influenciou definitivamente o cotidiano, bem como controle de doenças, da natalidade e prolongamento da vida.

Surgem os veículos automotores, os transatlânticos, os aviões, os telefones, os utensílios eletro-domésticos, o rádio, o cinema e a televisão, a anestesia, a penicilina, etc…O impacto desta revolução científico-tecnológica se fez sentir nos hábitos do dia a dia e, por conseguinte, nas formas de relacionamento. ‘’Época de transição e de modernização”, disse mestre Gilberto Freyre. Estabelece-se uma rivalidade com a Argentina: quem tinha avenidas mais largas? Maiores docas? Quilometragem e aparelhamento de estradas de ferro? Quem tinha mais transporte urbano, instalações sanitárias e hotéis, teatros ou armamentos de terra, mar e ar?

Um debate importante, na época, era sobre os direitos políticos e civis da mulher. Certo Aureliano Leite, mineiro, “achava ridículo”, uma tal pretensão. Antônio da Rocha Barreto dizia que “quando chefe dos Serviço do Correio, a inaptidão das moças no tráfego postal” lhe confirmara que os direitos da mulher deviam ter suas restrições, pois elas eram “incompatíveis com certos encargos”. Florêncio de Abreu, carioca criado no Sul, também não animava: “a completa e perfeita igualdade dos dois sexos no que tange ao  exercício das funções políticas ou públicas era antibiológica e antissocial”. O gaúcho Manuel Duarte preferia a sua em casa , fora do “entrevero das paixões […] fiel à sua grande missão providencial”. A João Luso Torres “repugnava ouvir falar em sufragistas”. O carioca Max Fleuiss queria só “o anjo do lar”.

Do outro lado Alberto de Paula Rodrigues afirmava que “a chamada inferioridade feminina era fruto apenas de tradicional preconceito”. Alfredo Rosa Borges era favorável, mas sem o cigarro na boca. Waldemar Ferreira, advogado paulista era a favor desde seus tempos de estudante de Direito. “Justificáveis dentro dos limites da natureza e da psicologia feminina” é o que pensavam outros tantos senhores entrevistados por Freyre, sem deixar claro o que exatamente queriam dizer com isto. Mudanças, portanto, havia, mas permanências também. – Mary del Priore.

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