Dia dos Namorados: homossexualidade e preconceito

Publicado em 3 de junho de 2015 por - temas atuais

Uma peça publicitária de O Boticário para o Dia dos Namorados está causando polêmica. O roteiro é bem tradicional: pessoas bonitas, felizes e bem sucedidas entram em uma loja da marca para escolher presentes para seus parceiros. Depois, encontram-se com eles para entregar o mimo, tudo isso, em meio a sorrisos, beijos, abraços e demonstrações de carinho.  Ou seja, nada que fuja do esperado em um comercial desse tipo. O grande problema, de acordo com muita gente, é que alguns desses casais perfeitos são formados por pessoas do mesmo sexo. Isso já bastou para que houvesse protestos, reclamações no Conar e até uma tentativa de boicote à fabricante de produtos de beleza – tudo em nome da “preservação das famílias”.

     O Boticário, antes de mais nada, acertou em cheio no que se refere ao marketing, criando uma campanha impactante, voltada a um público cada vez mais significativo em termos de poder de compra. Por outro lado, tem o mérito de mostrar como uma parcela dos brasileiros ainda é preconceituosa e intolerante.  De acordo com o antropólogo Luis Mott, “hoje, no Brasil, a cada 26 horas um gay, travesti, transexual ou lésbica é brutalmente assassinado, vítima da homofobia – o ódio à homossexualidade, fazendo de nosso país o campeão mundial de crimes homofóbicos: mais de três mil assassinatos nas últimas três décadas”. Esses dados revelam o lado mais sombrio dessa intransigência.

O mais interessante é que a homossexualidade está longe de ser uma novidade. Nas civilizações antigas, não faltam registros de suas práticas. Os termos “lesbianismo” e “lésbica”, por sinal, têm origem na ilha grega de Lesbos, local de nascimento da poeta Safo (século VII a.C.).  Ela escreveu poemas de conteúdo erótico, dedicados à homossexualidade feminina.  No Brasil, o primeiro crime homofóbico de que se tem notícia, segundo Mott, ocorreu em 1612, no Maranhão.  Na visão dos missionários e cronistas europeus, os índios apresentavam sexualidade tão devassa que só podiam mesmo ser escravos do Diabo: nus, polígamos, incestuosos, sodomitas. Dizia Gabriel Soares de Souza, em 1587: “Não contentes em andarem tão encarniçados na luxúria naturalmente cometida, são muito afeiçoadas ao pecado nefando, entre os quais se não tem por afronta”.

Para “purificar a terra de suas maldades”, os frades determinaram a procura e captura dos homossexuais maranhenses, conseguindo prender um deles que fugira para o mato. A execução foi terrível. Levaram-no para uma muralha do forte de São Luís, junto ao mar, amarraram-no pela cintura à boca do canhão, e a bala “dividiu o corpo em duas porções, caindo uma ao pé da muralha, e outra no mar, onde nunca mais foi encontrada.”

A repressão feroz, contudo, não conseguiu terminar com os relacionamentos considerados pouco ortodoxos na época. Nos tempos das visitações da Inquisição no Brasil, os processos de sodomia masculina, por exemplo, revelavam amantes que “andavam ombro a ombro”, abraçavam-se, trocavam presentes, e penteavam-se os cabelos mutuamente à vista de vizinhos, desafiando a Inquisição, sua grande inimiga.

Os rituais de namoro entre homossexuais não se distinguiam dos demais, conta Mary del Priore. “Luís Delgado, estanqueiro de fumo em Salvador da Bahia, se tornou conhecido por demonstrar publicamente a paixão que nutria por seus sucessivos amantes, beijando-os na frente de outras pessoas, regalando-os com presentes de fino trato, vestindo-os com “galas”, ou seja, roupas e sapatos caros, andando juntos debaixo de um grande guarda-sol, para escândalo e escárnio de seus inimigos. Outro, Luis da Costa, o tabaqueiro costumava pegar na mão, dizendo-lhe que era afeiçoado a ele e o queria muito gentil-homem e tinha uma cara como uma dona”.

A igreja católica combateu as práticas homossexuais de forma sistemática. A Inquisição perseguia aqueles que praticavam a sodomia, também conhecida como “abominável pecado nefando”. Nos tempos medievais, a expressão significava “excessos” na vida sexual, ou seja, tudo que fugisse ao que a Igreja considerava natural. A partir do século XIII, sodomia passou a ser entendida como “coito anal” entre homens ou entre homens e mulheres, mas ainda podia ser interpretado como relações entre pessoas do mesmo sexo. No século XVII, o Santo Ofício decidiu que o alvo de suas investigações seriam os homens, ou seja, os pecadores que deveriam ser mais duramente punidos eram os homens homossexuais. E as mulheres que amavam mulheres?

Não havia muitos relatos desta prática na Europa, e a maioria ocorria na vida da corte ou nos conventos. No Brasil, durante a primeira Visitação do Santo Ofício ao Nordeste (1591-1595), 29 mulheres foram arroladas por Heitor Furtado Mendonça como sodomitas. Segundo Ronaldo Vainfas, tais comportamentos eram difíceis de serem distinguidas das práticas do cotidiano feminino da Colônia. “Por outro lado, muitos namoricos não passavam de experiências de moçoilas recém-saídas da puberdade”, diz. Várias mulheres adultas, casadas ou viúvas, também confessaram intimidades com amigas de infância. Vainfas também relata que havia mulheres casadas que preferiam o amor de outras mulheres.  Na metade do século XVII, a Inquisição praticamente abriria mão da jurisdição sobre este crime, considerando que as mulheres eram incapazes de praticá-lo por razões anatômicas.

Em meados do século XIX, Mary del Priore destaca que a medicina legal começava a desenhar o perfil do “antifísico”: um tipo humano relacionado a determinadas formas de animalidade, dentre as quais as relações homoeróticas. Imediatamente a seguir, a homossexualidade, associada a uma herança mórbida tornava-se alvo de estudos clínicos. O homossexual não era mais um pecador, mas um doente, a quem era preciso tratar. No século XX, as coisas não mudariam muito, e os homossexuais tiveram que viver seus amores nas sombras, pelo menos até os anos 60. Não faltaram tratamentos médico-pedagógicos que eram sugeridos, junto com a religião, como remédios para a “inversão sexual”. O transplante de testículos, por exemplo, era uma destas receitas “científicas” para o “problema”.  Havia a convulsoterapia, ou injeção de insulina para “curar” o que se considerava, então, um comportamento esquizofrênico. Ou ainda, o confinamento em hospícios psiquiátricos, diz a historiadora.

Agora que chegamos ao século XXI, depois da revolução sexual do século passado que supostamente teria trazido mais tolerância às práticas sexuais, parece que voltamos ao passado. Há pouco tempo, um beijo entre duas atrizes na novela das nove se tornou um escândalo, enquanto cenas de violência e sexo heterossexual já se tornaram banais em qualquer programa de televisão. Os ataques aos homossexuais estão se tornando cada vez mais frequentes, e o casamento entre pessoas do mesmo sexo ainda enfrenta forte resistência. E alguns se desesperam anunciando o fim da “família tradicional”.

Quando se estuda a História, observa-se que as famílias tiveram formações variadas e nem sempre seguiram o modelo considerado ideal pela Igreja. E a homossexualidade esteve presente, nas mais diferentes culturas e épocas. Será que não há problemas mais sérios para nos preocuparmos que um simples comercial de TV? Em um cenário permeado pela violência doméstica e sexual, criminalidade, educação precária (entre tantas outras questões importantes), será que não deveríamos nos mobilizar para cultivar a solidariedade, em vez de atacar o modo de vida das outras pessoas?

Texto de Márcia Pinna Raspanti.

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Bacco, de Caravaggio. 

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2 Comentários

  1. Bruno Machado disse:

    Parabéns pelo texto! Só uma questão. A inclusão do termo homossexualismo não me parece adequado para a Grécia antiga. O termo que expressa a relação é pederastia como você explicou. O termo homessexualismo é do século XIX, portanto, anacrônico ao contexto grego.

    • marcia disse:

      Oi, Bruno. Não usei o termo homossexualismo, mas homossexualidade, que é o mais aceito na atualidade. Quando à Grécia Antiga, me referi no texto apenas à homossexualidade feminina. Obrigada.

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