Dia do Índio: os primeiros contatos com os europeus

Publicado em 19 de abril de 2016 por - artigos

              Mas quem eram eles? “Índios”. A designação resultou do engano de Colombo, que, ao chegar à América, achou que tinha chegado às Índias. Entre nós, ela servia para designar as mais diversas etnias e culturas nativas. Na faixa costeira timidamente incluída nos projetos da Coroa portuguesa, se espalhavam indígenas vivendo do cultivo da roça, complementado pela caça, a pesca e a coleta. Só em algumas regiões se encontrariam cacicados. A língua de comunicação era o tupi, que se transformou na língua franca. De “cor parda, em geral bem-formados, de nariz e rosto bonitos”, no relato do escrivão Caminha, os índios andavam nus, o que foi percebido como uma forma de inocência e estupidez. A ornamentação com penas coloridas e tatuagens, “espécie de tecido assaz belo”, impressionou. Obviamente foi inserida no imaginário por meio de classificações europeias. Mesmo pertencendo a diferentes nações, tamoio, tupinambá, caeté ou potiguar, passaram a ser “gentios”. Na Europa, as especulações sobre sua origem interrogavam os sábios. Afinal, não eram mencionados na Bíblia… Seriam uma das Dez Tribos Perdidas de Israel ou sobreviventes da Atlântida?

              Para a Igreja Católica e os jesuítas que logo vieram para o Brasil, o importante era destacar sua “humanidade” e seu pendor para a cristianização. Entusiasmado com a perspectiva de convertê-los ao catolicismo, padre Nóbrega, em 1563, gravou que, como “papel branco”, neles se poderia escrever à vontade. Muitos leigos ou religiosos discordavam de tal interpretação. E as dúvidas sobre sua disposição em abraçar a “verdadeira fé” veio logo depois. Para muitos, os índios não pronunciavam as letras “f”, “r” e “l” porque desconheciam leis, reis e fé. Canibalismo e feitiçaria alimentavam a crença de que eram simplesmente selvagens. Se eram “creaturas de Deus”, não passavam de seres inferiores que deveriam servir aos empreendimentos coloniais. Para evitar a maior degradação desses quase “animaes”, melhor seria escravizá-los.

             Desde 1502, a exploração do pau-brasil a ser extraído nos domínios da América fora arrendada a alguns comerciantes de Lisboa, dentre os quais o cristão-novo Fernão de Noronha. A promessa dos arrematantes era a seguinte: explorar até trezentas léguas da nova costa, construindo fortificações adequadas e conservando-as por três anos. Feitorias litorâneas se estabeleceram no Rio de Janeiro, Cabo Frio, Pernambuco, Porto Seguro e Ilha de Santo Aleixo. Foi dado, então, o início do povoamento com a ajuda mas também o apresamento de índios. A nau Bretoa, que aportou em Cabo Frio em 1511, não só carregou pau-brasil, mas levou consigo alguns deles, além de aves e pequenos animais.

            O escambo era a base das relações. Um documento redigido em 1526 por Enrique Montes, náufrago que viveu entre índios e, consequentemente, um “língua” – nome que se dava aos portugueses que aprendiam o tupi –, revela a variedade das trocas: anzóis, adagas e facas de baixa qualidade, espelhos pequenos, pentes, tesouras grandes e pequenas, parafusos velhos, galinhas e patos eram trocados por “cabaças de mel em favos”, cargas de milho, “porcos monteses”, provavelmente capivaras, peles de tatu para fazer armaduras para cavalos, ostras, palmitos e veados.

              Ao incentivar a abertura para outros mundos, o mar permitia o leva e traz de mercadorias e de gente, pois muitos índios já seguiam como escravos para a Europa. Os portugueses não usaram uma comunicação baseada na confrontação intelectual, mas, foram, sim, hábeis em resolver problemas de adaptação e subsistência por meio do hábito de trocas, bastante experimentado no Mediterrâneo e no Norte da África. Capazes de desembarcar, se instalar, se informar e negociar, graças ao aprendizado da chamada “língua geral”, se movimentavam como peixes na água.

             Se em maio de 1500, de Porto Seguro, o escrivão Isaías Caminha escreveu a D. Manuel dizendo que os índios “não lavravam”, se enganou redondamente. Pois, os recém-chegados, desde o início de sua instalação, foram favorecidos pela elaborada agricultura e o conhecimento sofisticado que os índios tinham sobre as espécies animais e vegetais. Raízes como a mandioca e a batata-doce, as abóboras, o milho, o mel de abelhas selvagens ou mesmo a larva de taquara e a bunda da formiga tanajura faziam parte do cardápio substantivo que os mantinha. Os portugueses aprenderam também a abater árvores, fazer coivara queimando troncos, limpar os terrenos e depois o plantio, a erradicação de ervas e a colheita do nutritivo tubérculo. Dele derivaram, segundo registrou mais tarde um dos primeiros cronistas do Brasil, o colono de origem nobre Gabriel Soares de Souza, “beijus muito saborosos, sadios e de boa digestão”. Trigo para o pão nosso de cada dia? Nem pensar. Na nova terra, segundo ele, que chegou ao Brasil em 1569 para administrar seu engenho em Jaguaripe, Bahia, “um bichinho comia os grãos enterrados”.

              Até então desconhecidas dos europeus, frutas como araçá, cajá, gabiroba, ingá, jabuticaba, jatobá, pequi, pitanga e umbu – somente para citar alguns exemplos – deliciavam. Mais importantes ainda eram as palmeiras. Desde o começo da invasão colonizadora, os portugueses ficaram maravilhados com os múltiplos usos dessa planta. Existiam vinte espécies conhecidas. Delas era extraído o palmito, alimento consumido não somente nas aldeias, mas também nos momentos de caça e de guerra, quando era necessário adentrar na floresta. As palmeiras também forneciam diversos tipos de frutas destinadas à fabricação de óleos, empregados na preparação de alimentos e medicamentos. Uma vez amassadas e fervidas, elas eram transformadas em um pó de coloração castanha, que por sua vez era regularmente consumido como sal. Das folhas da palmeira produzia-se a matéria-prima para forrar o teto e as paredes das cabanas. O mesmo material permitia a fabricação de cestos. Das fibras do broto eram elaboradas cordas. Das palmeiras que possuíam casca espinhosa, fabricavam-se não só ornamentos como também raladores de mandioca.

              Os índios, também chamados de brasís, ensinaram os portugueses a utilizar a flora variada na vida prática: folhas de capim selvagem serviam de lâminas de barbear; o fruto da bignoniácea era usado como pente; o capim-flecha se transformava em delicadas pinças para arrancar pelos. As castanhas-de-caju, como afirma um viajante de passagem na Pernambuco seiscentista, serviam de calendários: “(…) Quanto aos algarismos, não passam de cinco. Devido a isso, utilizam-se de castanhas-de-caju – cujo fruto torna-se maduro apenas uma vez por ano – em vez de um calendário, para marcar o ano (…) Por isso, quando se deseja saber deles há quanto tempo aconteceu isso ou aquilo ou a idade desta pessoa, tem que se perguntar pelo número de castanhas”. A riqueza da floresta ensejou o armazenamento e o cuidado com algumas plantas que passaram a ser semicultivadas.

            Dependentes das culturas e saberes indígenas, os colonos deles se apropriaram. Ocorreu entre brancos e índios um jogo de trocas e reciprocidades. Os nativos acabaram se inserindo na economia colonial como produtores de excedentes para trocas. Seus grupos passaram a depender de produtos manufaturados: anzóis, machados, armas. Em resposta, ofereciam suas mulheres, alimentos e produtos tropicais como formas de inserção numa sociedade nascente. Os primeiros descobriam a variedade do mundo em que estavam graças aos segundos. Mas ai destes se resistissem ao projeto de colonização. Eram massacrados. Passados cinquenta anos da chegada ao Brasil, o rei D. Sebastião escreveu ao terceiro governador-geral, Mem de Sá, elogiando-o pela “pacificação” da colônia:

“Recebi as vossas cartas […] e por elas soube como a capitania de Vasco Fernandes Coutinho ficava muito pacificada e o seu gentio tão castigado, mortos tantos e tão principais.”

         Por sua vez, em 1570, o próprio governador-geral relataria suas façanhas:

“[…] entrei nos Ilhéus e fui a pé dar em uma aldeia que estava sete léguas da vila […] dei na aldeia e destruí todos os que quiseram resistir, e na vinda vim queimando e destruindo todas as aldeias que ficaram para trás e, por o gentio ajuntar e vir me seguindo ao longo da praia, lhe fiz algumas ciladas onde os cerquei e lhes foi forçado deitarem-se a nado ao mar […] mandei outros índios atrás deles e gente solta que os seguiram perto de duas léguas e lá no mar pelejaram de maneira que nenhum tupiniquim ficou vivo […] e os puseram ao longo da praia, por ordem que tomavam os corpos perto de uma légua.”

         Por ironia do destino, na aldeia do morubixaba Uruçu-mirim, no atual morro da Glória, Mem de Sá recebeu uma flechada no rosto, em meio à luta pela expulsão de uma colônia francesa no Rio de Janeiro. Faleceu um mês depois.

  • Texto de Mary del Priore. Baseado em “História da Gente Brasileira: Colônia”, Editora LeYa, 2016.

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Joaquim José de Miranda, “Cena da expedição do Coronel Afonso Botelho de Sampaio e Sousa” (1768-73).

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