Dia de Reis e outras festividades

Publicado em 6 de janeiro de 2018 por - artigos

            Na segunda dominga após o dia de Reis, festa do Senhor do Bonfim com queima de enorme fogueira na Ladeira da Lenha e caráter nacional: três dias de feriado. Depois da lavagem do templo, muitas barraquinhas com vatapá, badofe, caruru e refrigerantes tão antigos quanto o aluá ou a já moderna “Coca-Cola”. Seguia a festa de D. Janaína, orixá marítimo festejado dia 2 de fevereiro, com lutas de capoeira na praia e as filhas de santo carregando suas oferendas na forma de barcos que seriam e ainda são, lançados ao mar.

            Em Porto Alegre, festejava-se Nossa Senhora dos Navegantes, também chamada de Festa das Melancias, produto típico do solstício de verão, junto com o butiá, coquinho saboroso, como explica ainda Maynard. Centenas de barcos cumpriam a procissão fluvial. Em Cananeia, São Paulo, em 1908, foi a vez de um padre bretão, Pe. Angelo Lemarchant, reunir rendeiras e marinheiros em torno da festa que lhe foi inspirada pelos gaúchos. Afinal, diante do mar, de seus perigos e riscos, os viajantes invocavam a mesma proteção. No litoral paulista, o Morro de São João parecia um presépio tal a intensidade das luzes que vinham da igreja e das casas: luminárias em panelinhas de barro e gomos de bambu como recipientes para óleo de mamona – exatamente como se usava, quando o Brasil era colônia. Na época, houve também festas criadas por leigos, caso da festa de São Sebastião na pequena Rio Pardo, no interior de Minas. Quem contou foi Otávio Gonçalves Gomes:

Anualmente celebravam-se em Rio Pardo, em janeiro, as festas de S. Sebastião. As festividades tinham início com a novena. Ao que consta, tiveram origem com a chegada dos baianos que vieram para a Colônia da barrinha. Elas constituíam o acontecimento mais significativo do ano naquele lugarejo. A importância da festa se avaliava pelo festeiro do ano”. Os ricos membros da Casa Fontoura, comerciantes locais, “davam uma animação especial mandando vir a banda de música militar de campo Grande, encomendando fogos de artifício em São Paulo, traziam o bispo de Corumbá, a sede do bispado. A moçada da família e os amigos de fora organizavam os bailes todas as noites e quando não havia uma reunião dançante extra, eles se cotizavam pois a banda era contratada para um número limitado de bailes e funções públicas. As festas se constituíam em missas, novenas, leilões e bailes todas as noites […]. Não faltava comida e despachavam-se os positivos, a cavalo, para encomendar os leitões, os frangos, os ovos, doces de leite e as frutas para a feitura dos doces”.

Recriador de festas e tradições foi Alexandre Melo Morais Filho que, depois de ter se formado em medicina na Bélgica, estabeleceu-se na capital onde redigiu imensos trabalhos de etnografia. Seu interesse era encontrar as raízes da identidade nacional. Tudo quanto foi possível recolher entre as classes proletárias, ciganos, negros, velhas pedintes, ele procurava entesourar. Mas não bastava. Junto com Sílvio Romero, Mello Moraes criticava o brasileiro:

Ele não viu nunca o povo no seu trabalho, nem no seu folgar no interior do Brasil Também não viu ainda o povo divertir-se; não viu um samba com as suas mil cantigas e suas vinte danças diversas, uma festa de casamento na roça, um bando de Congos em dia de Reis, um bando de Taieras em dia de Natal e Ano Bom, um Bumba-meu-boi feito em regra, uma festança de Mouros, de Marujos, um auto do Cavalo-Marinho, do Zé do Vale, do Antonio Geraldo, do Cego, da Cabrinha, etc. etc., ainda hoje representados no Norte, e em menor escala no sul do Brasil”.

Mas seu encanto supremo era organizar, no dia de Reis, uma passeata pelas ruas ladeirentas de seu bairro, cantando em diálogo com outros as tiradas da Nau Catarineta, importadas de Portugal, como quase todas as nossas canções malvistas. Como convém em tais casos, ia ele, seguido de Silvio Romero e outros confrades, bater violão em punho, à porta de famílias conhecidas, cantando a famosa saudação dos Reis Magos que chegam do Oriente: “Deus te salve, santa casa, – onde Deus fez a morada” – contou Agripino Grieco.

  • “Histórias da Gente Brasileira: República 1889-1950 (vol.3). Editora LeYa, 2017.
Adoração dos Magos, de Bartolomé Esteban Murillo.

Adoração dos Magos, de Bartolomé Esteban Murillo

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