Dia das Crianças: brincadeiras e lazer nos tempos coloniais

Publicado em 12 de outubro de 2014 por - História do Brasil

Ser criança é sinônimo de brincadeira. Vejamos como podia ser o lazer dos pequenos: “Nós todos, os meninos e meninas da Boa Vista, depois de acabamos de jantar, a coisa que mais gostamos é ficar descalços com o pé no molhado, subindo e descendo o desbarranque da lavra, procurando diamantinhos e folhetas de ouro. Diamante é raro achar, mas folhetas de ouro a gente encontra sempre”, nos conta Helena Morley, em Minha vida de menina. Tais informações, registradas cem anos depois do período sobre o qual escrevemos, não deviam ser novidade. O velho folguedo, apenas, se somava a outros: o de correr argolinhas, – trazida de Portugal -, o jogo do beliscão, o de virar bundacanastra, o jogo da peia-queimada, além de ritmos, cantos mímicas feitas de trechos declamados. Piões, papagaios de papel e animais ou gente reduzidos, confeccionados em pano, madeira ou barro, eram os mais populares. Escorregar, morro abaixo, sentado em couro de boi bem alisado era um divertimento garantido. Por influência das representações cênicas populares, presentes desde que o teatro faz sua aparição em Minas em 1726, não faltavam encenações. Coreografias representativas de lendas e mitos, fantoches, circo de cavalinhos, representações de ciganos atraíam os pequenos que, em casa, reproduziam as mesmas manifestações. Um lençol no escuro, bonecos e uma vela ou um palco doméstico com farta distribuição de papéis entre as crianças de uma grande família era o que bastava para divertir.

Melhor, ainda, participar das festas religiosas. No famoso Triunfo Eucarístico, realizado em 1734, em Vila Rica, “onze mulatinhos”, vestidos como indígenas, enfeitados com saiotes de penas e cocares, levando nas pernas, fitas e guizos, cantaram ao som de tamboris, flautas e pífaros, bailando “uma dança dos carijós”. Festas do calendário tradicional como São João ou Reis, agitavam as crianças que iam pular fogueira, comer milho, subir em mastros e com a invasão dos fogos de artifício no século Dezoito, soltar rojões e estrelinhas. Coadjuvantes nos autos de Natal participavam devidamente enfeitados como anjinhos ou pastores e vinham vestidos de estopinha branca e chapéus enfeitados de fitas. Por ocasião do Te-Deum e da festa oferecido pelo povo a Bernardo José de Lorena, quando de sua visita ao Tejuco, crianças passearam por entre as milhares de luminárias, ouvindo as bandas de música que tocaram em Vila Rica e no Tejuco e as roqueiras e fogos que explodiram junto com os Vivas dados ao governador.

Não eram só os grandes acontecimentos que mobilizavam os pequenos. Procissões e festas locais os faziam correr às ruas, esmolando pelo santo, para comprar lanternas ou lamparinas, ou repicando sinos enfeitados com o mesmo fim. Às sextas-feiras, um irmão de opa vermelha batia às casas, pedindo “Para a missa das almas”. O vintém era obrigatório; na falta deste, as crianças estendiam ovos ou outros produtos que pudessem ser vendidos, garantindo a missa e o consequente sossego dos mortos. A festa do Divino era das mais aguardadas. Durante nove dias, sob música estridente e correria de crianças, a bandeira ia buscar as pessoas que tivessem feito promessas. Em geral, as meninas ganhavam vestido novo e eram encarregadas de levar, sob a bandeira, cera e ex-votos até a igreja. A festa da igreja do Rosário mobilizava, sobretudo, crianças negras. Elas acompanhavam, entusiasmada, a eleição do rei congo, imperador da festa e da rainha ginga, ambos monarcas de tão curto reinado. Um grande banquete encerrava a cerimônia com a participação de adultos e crianças. São João era data de lamber os beiços em torno da abóbora cheia de rapadura, embrulhada em folha de bananeira e posta a cozinhar debaixo das grandes fogueiras.

Para o entretenimento, lembra um memorialista, contava-se muita estória de “fazer medo” sobre: “fantasmas de cresce-míngua. De afina-e-engrossa. Monstros de rio e lagoa como o Caboclo d’Água que nunca foi visto e de que só se conhece o braço verde-negro e a munheca de ferro que atraca a embarcação pelo lado, vira-a de borco e seus tripulantes reaparecem, vivos ou mortos. De terra, como o jamais divisado Minhocão que serpenteia sob o solo, fazendo-o estremecer e abrindo as gretas que engolem árvore, cachorro, traste, criança, casa, gente grande. Saci-Pererê no lusco-fusco. Mula-sem-cabeça disparada nas meias-noites de lua minguante. Alma que volta para contar dinheiro, fazer barulho, socar pilão. E o pior de todos…O Diabo”. Antigo no imaginário popular era o “homem do mato” ou Calambolo, criatura – segundo explicação que deram a John Luccock -, possuidora de “face negra, cinco pés de altura, coberto de pelos, sem cauda”. O mesmo Por falar em coisa ruim, criança ouvia muita estória de violência perpetrada, por exemplo, por bandidos e negros fugidos, que em grupos bem armados infestavam o caminho através da mata que levava do arraial de Ouro Preto ao de Antonio Dias. A Mantiqueira, com suas grutas cheias de eco, gargantas profundas e cumes áridos regurgitava de “causos” de morte. A maneira de se proteger de tantos e tão medonhos males, consistia em rezar. Orar nas rezas coletivas do Ofício de Nossa Senhora, diante de oratórios alumiados com azeite, pendurados aos cunhais dos sobradinhos de esquinas, nas ruas tortuosas de Ouro Preto ou Mariana. Assistir às missas da madrugada depois de recitar as jaculatórias.  Pedir perdão ao Senhor dos Passos de cabelos negros e vestes roxas. Fazer o caminho do Calvário, cabeça nua e pés descalços, traje de farricoco e pedra pendurada ao pescoço no cortejo dos irmãos penitentes de São Francisco. Fazer romaria ao Bom Jesus de Congonhas, em setembro; à Nossa Senhora da Lapa de Antonio Pereira, em outubro. Acompanhar o Viático que seguia para os moribundos cantando “Bendito e louvado seja o Santíssimo Sacramento da Eucaristia” como conta Augusto de Lima Júnior, rememorando sua meninice. As crianças rezavam, ainda, diariamente, nos oratórios de casa junto com seus pais. A John Luccock não escapou tal hábito profundamente arraigado: a “família toda” rezava na fresca da noite, frente aos oratórios de portas abertas. Era a “hora do terço”, seguida de orações pelos parentes defuntos. Contritas, as crianças acompanhavam, de joelhos. – Mary del Priore.

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“Festa do Divino”, de Debret.

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