Descartes e as verdades indiscutíveis

Publicado em 15 de julho de 2014 por - História

Por Paulo de Assunção.

Em 1637, René Descartes (1596-1650) publicou três pequenos resumos de seu pensamento científico: Dióptrica, Os Meteoros e A Geometria, acompanhados por um prefácio, que ficou conhecido como o Discurso sobre o Método. Descartes defendia que a ciência tinha que ser útil ao homem. Para tanto, era salutar que o conhecimento fosse fundamentado a partir do pensamento racional de forma que as teorias comportassem o raciocínio lógico. Para ele, o pensamento matemático era responsável por apresentar ideias claras, pois os conceitos eram idênticos para todos, independente das situações. Nesse sentido, a ideia de objetividade estava diretamente ligada à possibilidade de descrever um fenômeno por meio de conceitos expressos por números e medidas.

Na obra Discurso sobre o Método, o autor confessava a sua insatisfação em relação ao ensino que recebera, pois entendia que a filosofia escolástica não conduzia a nenhuma verdade indiscutível. Para Descartes, a matemática era o meio pelo qual o raciocínio poderia ter certeza. A dúvida deveria fazer parte do processo incial de questionamento, principalmente em relação ao conhecimento proveniente dos sentidos, pois este poderia ser ilusório. Em seguida, o discernimento humano deveria identificar as verdades e analisá-las. Reforça que: “As próprias verdades matemáticas devem ser aceitas como passiveis de ilusão, pois poderíamos ser enganados por um gênio do mal. É a chamada dúvida cartesiana”.

A intenção apresentada no seu trabalho era defender um método universal, baseado na matemática e norteado pela razão. Para tanto, era preciso seguir regras. A primeira delas era a “evidência”, ou seja, nada poderia ser reconhecido como verdadeiro se não houvesse evidências para tal. Não se poderia chegar a conclusões, enquanto o objeto de estudo não estivesse devidamente claro para o observador. Por conseguinte, a ideia de “evidência” era aquilo que o homem não poderia vir a duvidar. O exame minucioso do objeto conduzia a outra regra: a “análise”. Nesta etapa, o objeto deveria ser analisado em diversas partes e passaria por um exame demorado e profundo a fim de fosse possível a compreensão mais cabal sobre o mesmo. A regra seguinte era a “síntese”. Esta exigia que o ser humano fosse capaz de guiar os seus pensamentos a partir de um movimento que seguiria dos objetos mais simples aos mais complexos, não omitindo nada e realizando esta operação com muito cuidado.

Para a construção do conhecimento científico era preciso valorizar a dúvida, que deveria ser acompanhada de um processo reflexivo, que estava na base do saber e que contribuía diretamente para a construção progressiva do conhecimento. O raciocínio humano deveria ser capaz de analisar a evidência intelectual, vindo a constituir juízos. Era apenas pelo ato da razão que o ser humano era capaz de ter intuições, sendo que o processo de dedução um movimento de intuição continuada.

O ponto mais importante para Descartes era o de colocar a dúvida como base do pensamento humano, pois nada era verdadeiro. O homem poderia e deveria duvidar sempre de cada ideia. As certezas eram relativas e o ser humano face às novas descobertas promovidas pelos descobrimentos marítimos e o reconhecimento de uma dimensão de mundo mais dilatada e diversa exigia que novos questionamentos fossem realizados.

Por conseguinte, no decorrer do século XVII ficava cada vez mais óbvio que as coisas do mundo eram uma grande dúvida. Cabia ao ser humano compreender as evidências, analisá-las e fazer sínteses sobre as mesmas. Em se seguindo este método, e fazendo uso da razão, os homens seriam capazes de gerarem novos conhecimentos.

René Descartes vive num momento em que as academias ganharam um maior impulso como espaço de reflexão e debates. As transformações advindas da Reforma protestante e da Reforma Católica (Contrarreforma) favoreceram a constituição de estudiosos que não estavam necessariamente vinculados as universidades, onde o ensino e o pensamento eram predominantemente marcadas pelo pensamento cristão.

Se a racionalidade era um imperativo, ela deveria abranger todas as áreas do saber. Além disso, o pensamento racional entendia a importância de compartilhar experiências e discutir o que os pares examinavam. O pesquisador se abria para o mundo e dialogava com aqueles que direta ou indiretamente poderiam contribuir na sua reflexão. Pela troca de correspondência entre diferentes pensadores, pode-se notar a intensa circulação de conhecimento científico que alimentava o debate e o movimento de descobertas. Um pensador estava atento ao que seu par realizava, por vezes fazendo objeções e correções, enfim debatendo o problema.

Para saber mais:

CHÂTELET, François (org.) História da Filosofia, idéias, doutrinas: O iluminismo. Rio de Janeiro: Zahar, 1982, p. 75.

DESCARTES, René.  Discurso do Método.  Lisboa: Edições 70, [s.d.], p. 35-52.

DUMAS, Jean-Louis. Histoire de la pensée. 2 – Renaissance te siècle des lumieres. Paris: Tallandire, 1990, p. 71-120.

ROSA, Carlos Augusto de Proença. História da Ciência – A Ciência moderna. Brasília: Funag, 2010, Volume II, tomo I, p. 51-58.

descartes (1)

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

0 Comentários

Deixe o seu comentário!