“Democracia racial”: Chica da Silva

Publicado em 21 de novembro de 2013 por - História do Brasil

 A sociedade colonial era formada por uma infinidade de grupos, cores e ocupações e estava longe da divisão esquemática entre negros, brancos e indígenas, ou entre proprietários e escravos. Uma parcela da população, muitas vezes esquecida, é a dos libertos, forros ou alforriados – os escravos que tinham conseguido alforria, por diversos meios, e passaram a ocupar uma posição delicada neste modelo que se pressupunha hierarquizado e estático. No final do período colonial, os libertos correspondiam a 42% da população de origem africana e a 28% da população brasileira, de acordo com Boris Fausto. Mas, afinal, como estes ex-escravos viviam? Sabemos que a maior parte estava condenada à miséria e à exclusão. A historiografia recente já demonstrou, porém, que existiu uma pequena parcela que conseguiu se estabelecer, adquirir propriedades e até se incorporar à sociedade.

            A descoberta do ouro e dos diamantes causou um aumento muito grande na população de Minas Gerais: homens livres de todo o Brasil e de Portugal chegavam todos dias para tentar a sorte e a fortuna. Traziam escravos para trabalhar na rotina dura do garimpo. Havia uma desproporção enorme entre homens e mulheres – livres e cativos. Isso incentivava mais ainda o concubinato entre os homens brancos e as escravas (negras, crioulas, mulatas e cabras). As mulheres foram maioria entre os escravos alforriados em Minas, neste período. Senhores costumavam dar a liberdade às companheiras apenas depois de mortos, por meio de testamentos. Muitas destas ex-escravas desfrutavam de relações estáveis com homens brancos, das quais nasciam filhos, que geralmente eram amparados pelos pais. Elas adotaram um série de atitudes para tentar apagar o passado de escravidão, miséria e preconceito.

            Vamos destacar, de maneira breve, o caso de Chica da Silva, a mais famosa destas mulheres e que foi objeto de inúmeras histórias, lendas e mistificações – que só contribuíram para tornar sua trajetória mais nebulosa, como demonstra Júnia Ferreira Furtado, em “Chica da Silva e o Contratador de Diamantes – o outro lado do mito”. A vida desta mulata nos ajuda a entender como funcionava o mecanismo de “branqueamento social” por que os alforriados tinham que passar para serem, pelo menos parcialmente, aceitos na sociedade. Chica e o poderoso contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira viveram juntos por 17 anos e tiveram treze filhos. João Fernandes a libertou logo após tê-la comprado de seu antigo proprietário – o que não era tão comum nestes casos.

            Chica se esforço para afastar dos filhos – e dela mesma – o peso da escravidão. Providenciou educação para a prole, adquiriu escravos (chegou a ter 104 cativos), montou casa “grossa”, enfim,  não dispensou nenhum sinal exterior da posição que passou a ocupar. As roupas e as joias eram um dos mais importantes indícios de que a mulata passara de escrava a senhora. Chica e as outras forras sabiam disso e aderiram à ostentação no vestuário, típica das classes mais abastadas. Vestidos de cetim e seda, meias de seda, capas, chapéus, sapatos forrados de tecidos finos, saias e blusas coloridas de chamalote, anáguas, espartilhos, tudo isso, adornado por fivelas e botões de metais preciosos, colares, brincos, pulseiras e, muito ouro e diamantes. As alforriadas em melhor posição social, como Chica, colocavam todo este aparato para sair às ruas em suas cadeirinhas e serpentinas luxuosas, seguindo para as missas, como faria qualquer branca rica. Uma curiosidade: as perucas, que ficaram associadas à figura de Chica devido aos filmes, novelas e outras obras de ficção, não faziam parte do vestuário dela e nem de qualquer mulher da região, sendo um acessório masculino, pouco usado, nas Minas Gerais de então.

            As atitudes das mulheres forras escandalizavam alguns “homens bons” e religiosos que temiam pela ordem social. João Antônio Andreoni, o Antonil, observava, com desaprovação, em “Cultura e Opulência do Brasil” que boa parte do ouro retirado das minas era destinado a “cordões, arrecadas e outros brincos” para as “mulatas de mau viver, e as negras, muito mais que as senhoras”. O governador de Minas, em 1732, Conde Gouveia, também achava um absurdo assistir ao desfile das “atrevidas” mulheres de cor, no Tejuco, entrando “na casa de Deus com vestidos ricos e pomposos e totalmente alheios e impróprios de suas condições”. Se por um lado, as forras recorriam à ostentação para mostrar que não eram diferentes das senhoras brancas; de outro, elas incomodavam os mais conservadores ao apropriar-se dos meios que deveriam ser exclusivos da classe fidalga.

            Talvez, por causa destes excessos no vestir, Chica tenha se transformado em uma  mulher frívola e deslumbrada pela historiografia mais antiga e pelas obras de ficção que se inspiraram nela. É justo ressaltar que as forras não lançavam mão de nenhum artifício que não fosse típico dos fidalgos, ou seja, o pecado delas não foi apreciar o luxo e  a ostentação, mas, o fato de que elas utilizaram meios que não lhe pertenciam para se afirmar em uma sociedade que as rejeitava. Eram as sutilezas do racismo à brasileira- bem distante da “democracia racial” que alguns estudiosos enxergam no Brasil.

– Márcia Pinna Raspanti

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Libertos e escravos de ganho negociando mercadorias: Debret 

 

 

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1 Comentário

  1. Francisco Isaac disse:

    Este pequeno artigo nos ajuda a entender melhor a figura de Chica da Silva. Chica é um mito histórico popular, a personagem já deslumbrou e assombrou milhares de pessoas no cinema e na televisão.
    O artigo nos mostra a história mais realista, mais próxima do fato, isso tudo, embasada em pesquisas de uma historiadora renomada como Júnia Ferreira.
    Seria bom se tivessem mais desses artigos circulando por ai, para assim conseguimos desmistificar alguns erros históricos.

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