De sinhazinhas a matronas

Publicado em 12 de fevereiro de 2014 por - História do Brasil

Inúmeros viajantes de passagem pelo Brasil fizeram alusão ao modo de vida das mulheres locais, descrevendo como elas passavam seus dias. Bem diferentes das heroínas de romances, viviam displicentemente vestidas, ocupadas com afazeres domésticos e dando pouca atenção à instrução. Ao ócio e ao trabalho escravo, que em tudo substituía seus movimentos, os mesmos estrangeiros debitavam suas transformações físicas: belas aos treze anos, eram matronas aos dezoito. E pesadas senhoras, cercadas de filhos, um pouco depois.

As varandas nos fundos das casas serviam para abrigar a família, isolando-a dos rumores da rua, separando moças e rapazes. A janela, era mediadora de olhares, de recados murmurados, de rápidas declarações de amor, do som das serenatas.  Ela era o meio de comunicação entre a casa e a rua. Recepções a estrangeiros ou desconhecidos eram raríssimas. Um momento em que se quebrava tal pasmaceira, era o do “entrudo”, ou carnaval: “as raparigas brasileiras são naturalmente melancólicas e vivem retiradas. Porém, quando chega o entrudo parece haver completamente mudado de caráter e por espaço de três dias, esquecem sua gravidade e natural acanhamento para ao folguedo se darem”, anotava, em 1816,  o explorador Jean Ferdinand Denis. O francês não entendia porquê…

E um nosso literário a explicar que os limões de cheiro tinham um outro ofício, além das batalhas de água. Serviam para molhar o peito das moças; era nele esmigalhado pela mão do próprio namorado, maciamente, amorosamente, interminavelmente. E que não faltaram pedidos de casamento que tiveram como motivo um limão de cheiro comprimido contra um braço bem feito.

Fora disto, o evento social mais importante continuava a ser a missa dominical. Sim…a missa que tinha, então, uma importância, hoje, inimaginável numa história do amor. Ela era o melhor lugar para o namoro. Em 1817, não escapou a Louis de Freycinet, que o acanhamento e timidez, resultado da pouca vida social, sumiam na hora de ir para a igreja. Nela, se conversava com as jovens na frente de seus pais e os olhares trocados estabeleciam verdadeiros códigos secretos.

Por sua vez, Carl Seidler, mercenário e autor de um livro sobre nosso país, observara que a igreja era o teatro de todas as aventuras amorosas na fase mais ardente: a inicial. Só aí, as mulheres se aproximavam e até cochichavam algumas palavras com seus interlocutores. A religião encobria tudo. O mínimo sinal bastava para ser compreendido e enquanto se fazia devotamente o sinal da cruz pronunciava-se, no tom da mais fervorosa prece, a declaração de amor. Se a dama resolvesse dar ouvidos ao suspiro enamorado, acabada a missa, ela mandava uma mensagem por meio de sua escrava, determinando data e lugar para um encontro. “Tudo sem afetação ou disfarce”. E os riscos? “Os homens, apesar de sua ciumenta atenção, podiam a cada momento ser enganados” – ponderava o viajante -. “Assim um estrangeiro nunca deixará de lograr seus desejos, mesmo que não tenha pretensões a bonito, contanto que apareça sempre bem vestido”, gabava-se.

A baronesa de Langsdorff, em 1843, acrescentava ter hesitado em achar que estava numa igreja de tanto que homens e mulheres falavam entre si. Nas áreas rurais – conta-nos o diário da sinhá-moça Madalena Antunes – os cavaleiros iam enluvados, trazendo rebenques de prata presos aos punhos e botinas com esporim. Os cavalos também faziam bonito presos na árvore mais próxima à porta da igreja e os que tinham cães de raça, aguardavam debaixo do alpendre o início da missa. As moças iam atraentes nas suas  toilettes, cada qual fazendo o possível para impressionar. Em 1853, a escritora e feminista Nísia Floresta confirmava que um dos aspectos originais da população, eram os namoros em adros e capelas.Vamos ouvi-la: “É possível observar as mulheres a trocar olhares compridos e doces com os jovens que passam de um lado para o outro ou se detêm, mesmo para continuar melhor esse jogo, durante o transcurso da cerimônia”.

Também eram conhecidas, certas figuras que nas portas iluminadas ou capelas, esvoaçavam à espera de suas eleitas. Chamados de “gaviões” do amor, moviam-se em bandos numerosos, irrequietos, zombando da severidade dos pais e desobedecendo até as pastorais do Bispado, que proibiam tais namoros de  “água benta”.

Mas vamos nos aproximar, leitor, para ver exatamente como se davam tais rituais amorosos. As famílias vinham para as cerimônias do culto guiadas pelas lanternas dos negros escravos. No lusco-fusco, era a “pomba” que escolhia o “gavião” e nunca o “gavião” que escolhia a “pomba”. Isso na hora do namoro, que na hora do casamento quem escolhia era o pai. Escolher? E como escolhia ela? Lançando o seu olho mole e açucarado sobre o olho açucarado e mole do gavião de seu agrado. Era o curto-circuito. Naquele dia, só viviam daquele instante magnífico.“Que podia ele fazer no segundo encontro? Naqueles dez ou quinze segundos de proximidade com a criatura de seus sonhos – pergunta-se o cronista Luís Edmundo? Coisas enormes, coisas extraordinárias. Emparelhado com a pomba, o gavião, por exemplo, podia fulminá-la com tremendíssimas piscações de olho; embriagá-la e confundi-la com frases que ele arrancava do fundo do coração…Dando por findo o estágio do olho, da frase melosa, do suspiro, abria dois dedos em forma de pinça, dois dedos desaforados e terríveis e zás, atuava na polpa do braço, do colo ou da anca da rapariga, de tal sorte provando-lhe o amor. Ficava uma nódoa escura  na carne da sina moça, porém, outra cor de rosa, ficava-lhe na alma. Os beliscões eram chamados de mimos de Portugal”.

Fora à troca de olhares e os cochichos na missa, raramente um homem tinha ocasião de falar com aquela com quem queria casar antes de tê-la pedido em casamento. Quando os pais da jovem não eram muito severos, às vezes se conseguia conversar com ela. Mas só na presença deles. Até o final do século o namoro será dificultado. Em 1890, a educadora Marie Robinson Whrigt observava que a inteira liberdade de namoro que já era concedida nos Estados Unidos, continuava desconhecida no Brasil. Um americano impaciente,  impressionado com a beleza e a graça de uma brasileira, resumiu as dificuldades que um namorado tinha para o encontro: “Antes enfrentar um canhão carregado que a tarefa de cortejar a família inteira para conseguir a menina!”.

Em alguns casos, geralmente em pequenas cidades e vilarejos, o namoro continuava a ser com a jovem senhorita debruçando-se à janela para ouvir e o devotado admirador postado na rua, desfiando declarações amorosas, impávido diante das interrupções ruidosas de passantes curiosos. Quantas dissonâncias interferindo na linguagem inspirada no amor, dizia Marie Wright, para concluir: “É possível que as lições de paciência aprendidas nestas circunstâncias difíceis tenham, posteriormente, um efeito salutar sobre a disposição do casal, pois nas mais das vezes, vivem em paz.”

– Mary del Priore

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As missas eram eventos sociais; Debret nos mostra uma senhora de elite a caminho da Igreja.

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3 Comentários

  1. Carlos Argolo disse:

    Adoro histórias do Brasil, enfim histórias do mundo inteiro

  2. carlos Argolo disse:

    Muito linda essa figura

  3. Beatriz disse:

    Às moças casadoiras, apenas era permitido aprender a ler para poder cozinhar ou para ler as orações . Nada mais do que isso. Certo, Mary?

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