D. Pedro II, o filho do Demonão

Publicado em 25 de abril de 2014 por - História do Brasil

Neste artigo, o historiador e escritor Paulo Rezzutti faz uma interessante análise da vida amorosa dos nossos dois imperadores, demonstrando que pai e filho tinham mais em comum do que muita gente pensa. E ainda aproveita para fazer uma provocação a Luiz Felipe Pondé, que recentemente causou polêmica ao afirmar em sua coluna na Folha de S. Paulo que o problema da direita é “não pegar mulher”. Confira.
D. Pedro II, o sempre lembrado velho que era filho do novo, foi criado em uma corte sem qualquer brilho após a abdicação de seu pai, D. Pedro I, em 7 de abril de 1831. Com o dinheiro, quadros, pratarias, tapetes e móveis, o primeiro imperador retornava para a Europa após 23 anos de vida no Brasil. Junto, partia o restante da nobreza portuguesa, damas de companhias e camareiros que haviam continuado no Brasil após o retorno da corte para Portugal em 1821 e tinham permanecido fiéis a Pedro I. Não que essa nobreza portuguesa fosse o símbolo máximo de luxo e requinte, pelo contrário! A ignorância desses nobres deixou tanto a imperatriz d. Leopoldina, mãe de d. Pedro II, e sua amiga e confidente, a inglesa Maria Graham, escandalizadas.

Mas a corte que Pedro II e suas irmãs, D. Francisca, D. Paula e D. Januária, herdavam era uma corte pobre, segundo testemunho de um de seus primos europeus que os visitaram: “A mais miserável do universo”. A política de austeridade quase franciscana implementada na corte na época das Regências a esvaziou. Essa austeridade também foi a grande marca da criação do futuro imperador. Seus tutores cuidariam para que sua educação fosse esmerada, que d. Pedro II, diferente do pai, fosse uma pessoa regrada, controlada e ilustrada.

Até 1834, quando D. Pedro I morreu tuberculoso em Portugal – na mesma sala do Palácio de Queluz em que nascera em 12 de outubro de 1798 -, várias alas da política brasileira tinham verdadeiro pavor de que o ex-imperador retornasse ao Brasil e assumisse a regência do filho. Logo, uma campanha de desmoralização pública teve início assim que o navio que o levava ao exílio deixou de ser visto no horizonte.

As críticas ao ex-monarca tornaram-se públicas, afinal, a constituição que protegia a figura do imperador não dizia nada a respeito de ex-imperantes. Assim, expressões sutis e satíricas que apareceram nos jornais ao longo do Primeiro Reinado, como “o nosso caro Imperador”, em que caro não era para ser lido como caríssimo ou querido, e sim como excessivamente dispendioso, foram trocadas na época das Regências para “assassino da esposa”, “amante dissoluto”, “devasso corrupto”, entre outras.

A nódoa moral de seu reinado, seu caso de sete anos com a Marquesa de Santos, foi relembrada às escâncaras nessas folhas, e logo a sua ex-amante, a paulista Domitila de Castro do Canto e Melo, foi elevada a símbolo máximo da corrupção e devassidão do Primeiro Reinado nos jornais da época, sobretudo no periódico Sete de Abril. Não foi por mero acaso que, em 1833, Domitila acabou se amancebando com o “reizinho de São Paulo”, o rico e influente político Tobias de Aguiar, primeiro paulista a ser presidente da Província de São Paulo e amigo íntimo, de infância, do regente do Império, o padre Diogo Antônio Feijó. Domitila sempre foi uma sobrevivente.

E, para que o Império e o futuro imperador D. Pedro II também pudessem sobreviver, a educação moral dele foi rígida. Desde o princípio ele sabia o quanto o romance escancarado de seu pai com a fogosa paulista jogara lenha na fogueira moral ateada pelos inimigos de D. Pedro I e, assim, a discrição amorosa do nosso segundo imperador se fez. Não que ele não tenha tido seus tórridos casos de amor. O mais famoso caso de D. Pedro II foi com a condessa de Barral, Maria Margarida de Barros Portugal, rica dona de engenho, casada com um nobre francês, que foi preceptora das princesas imperiais, Leopoldina e Isabel. Esse foi o mais longo e duradouro, cerca de 34 anos de ânsias e suspiros apaixonados, em que d. Pedro II lembrava com carinho das “noites atenienses” ou de quartinhos de hotéis em Petrópolis. Mas essa paixão era mais intelectual. Nada, ao menos da correspondência amorosa que sobreviveu entre ele e a condessa, lembra o fulgor do pai, que tratava com paixão a Marquesa de Santos ora com versinhos mal construídos, ora com palavras das mais vulgares, chegando a enviar pelos pubianos à amante e sentir saudades de “ir aos cofres” dela.

Existe na historiografia brasileira a lenda de que o historiador Tobias Monteiro teria encontrado cartas picantes envolvendo D. Pedro II que estavam depositadas na Biblioteca Nacional. Um arranjo na numeração e pronto, elas ficaram desaparecidas por muito tempo no arquivo, afinal, não pegava bem para a imagem do ex-imperador ter sua vida amorosa exposta de maneira indecorosa, como aconteceu com seu pai. Quem conhece um pouco sobre organização de bibliotecas e arquivos sabe muito bem que uma pasta, caixa ou livro posto em outro lugar que não o seu é uma atrocidade, pois se perde a localização da peça no acervo e as formas de se desarquivar a informação. Pois bem, vira e mexe esse acervo de cartas de D. Pedro II é “redescoberto”, recentemente foi até mesmo fichado novamente. Assim, o acervo mostra um imperador menos morno que suas sábias barbas brancas nos retratos fazem supor. Ele também teve seu lado “Demonão”, como o pai, que assinava assim as missivas à marquesa de Santos no auge da paixão.

Se as cartas da Barral para D. Pedro II são mornas, na maioria das vezes, o mesmo não aconteceu com o fogo que ele causou na baronesa da Boa Vista que suspira nas missivas lembrando que “cada uma de tuas expressões tão apaixonadas me fazem estremecer de amor” e declarações do tipo: “Eu te amo e sou tua de toda a minha alma. Eu te abraço tão ardentemente como tu desejas”. E, a pedido do imperador, lhe envia uma foto com vestido decotado. Aliás, hábito esse que parece ser uma constante no quase sexagenário amante, que também pede para a condessa de Villeneuve uma foto, sobre a qual se debruça a escrever-lhe, confessando que, diante da imagem, fantasiou uma forte cena erótica em que os dois corpos se entrelaçavam no sofá da casa dela, desfalecendo-se de prazeres.

Uma testemunha da época do Segundo Reinado, o diplomata espanhol Juan Valera, confidenciava a um amigo seu na Espanha que “a imperatriz do Brasil (D. Teresa Cristina) é tão virtuosa quanto feia e D. Pedro II lhe é infiel de vez em quando. O teatro de suas infidelidades é a biblioteca do palácio; o que acontece é que as damas se instruem…”. Outra característica que d. Pedro II herdou do pai foi a sovinice: se esbanjava com esmolas e bolsas de estudo, era miserável com as amantes. Valera chega a comentar que não foram poucos os homens que acabaram falindo para manter as esposas frequentadoras assíduas da corte e da “biblioteca” do imperador.

Pois é, Luiz Felipe Pondé, para alguém que hoje seria considerado de “direita”, o velho Pedro II tinha lá a sua lábia e esbanjava cultura até para pegar mulher. E a direita de hoje nada?

Monarquistas, republicanos, velhos, novos, ricos, pobres, todos fazem e fizeram sexo. Nossos avós, bisavós, tataravós eram bem menos castos que suas expressões sisudas nos retratos nos fazem supor. E assim é a vida, cheia de idiossincrasias, paixões, sexo e todos os elementos necessários para construir, sem que essa construção na realidade seja linear e cerebral o tempo todo. Afinal, todos precisamos de uma pequena dose de loucura e aventura em algum momento para que não sucumbamos como uma massa coesa, uniforme e submissa ao destino final que nos aguarda a todos. E a moral? Deixemo-na para os moralistas, não para os historiadores.

Paulo Rezzutti é historiador e escritor. Membro titular do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, colaborador da revista Aventuras da História da Ed. Abril e de diversos blogs sobre história. Em 2010 descobriu 94 cartas inéditas de D. Pedro I à sua amante, a Marquesa de Santos. Em 2012 participou, como consultor, do trabalho de exumação dos primeiros imperadores brasileiros sepultados na cripta do Monumento à Independência, em São Paulo.

d.pedrosegimperador

 

O D. Pedro II e seu pai: a figura austera escondia uma vida amorosa movimentada.

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5 Comentários

  1. marbil rodrigues disse:

    Sinceramente fui ler o artigo por pura curiosidade já que “demonão” era como Domitila chamava o seu apaixonado amante. Não gostei das colocações um tanto jocosas, com um ranço de crítica ao comportamento de D. Pedro II. Só queria saber se houve algum republicano incólume, sem jaça, fidelíssimo, nunca tendo aventuras extra-conjugais? Quem pode atirar a primeira pedra? Tem mais. Se por na balança qual o prato que terá mais peso: tudo o que fez pela unidade do Brasil, a projeção do país no exterior durante suas viagens, o exemplo de dignidade ao recusar grande importância em dinheiro para viver na Europa, preferindo morar modestamente em um hotel simples e sem luxo? Muito mais poderia apresentar. Ou será que no outro prato vai pesar bem mais a fofoca sobre se foi amante da Barral, das outras senhoras da corte? Claro que vai pesar muitíssimo menos. Que ridícula essa falsa moral de querer mostrar o que se passava nos bastidores do império, apontando o que pode ter acontecido com a finalidade de desmistificar um grande estadista. Pesâmes!

    • marcia disse:

      Caro Marbil, o artigo de Paulo Rezzutti não tem por objetivo manchar a imagem de D. Pedro II, mas de apresentar alguns aspectos curiosos de sua vida privada. Há muitos outros textos no blog, de diferentes autores, que analisam sua atuação como estadista – convido você a conhecê-los. Em nenhum momento foi feito qualquer julgamento moral em relação ao imperador, nem nenhuma comparação com os republicanos ou com outra figura de nossa História. A vida particular de D. Pedro II não interfere, de forma alguma, na sua atuação como imperador do Brasil. Obrigada.

  2. Muito interessante este artigo. Quanto ao Pondé… Bem, é melhor deixar pra lá.(risos)

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