D. Pedro foi um bom pai?

Publicado em 23 de julho de 2017 por - artigos

Sabe-se que D. Pedro batizava seus filhos com a imperatriz Leopoldina ou com sua favorita, Domitila, a marquesa de Santos, com exuberância. D. Pedro II, por exemplo, teve a cerimônia realizada na igreja de Nossa Senhora do Outeiro da Glória, em dezembro de 1825. Seu pai chegou a compor um Te Deum, em homenagem à cerimônia.  Isabel Maria, futura duquesa de Goiás, recebeu o batismo na Igreja de São Francisco Xavier do Engenho Velho, em maio de 1824.

      Ausente, nunca deixou de se manifestar nos seus natalícios. “Nossa Belinha”, como era chamada a filha mais velha com Domitila, ganhou título de duquesa, festança com ceia, e o direito de ser chamada “Vossa Alteza”, num de seus aniversários. Ou, dava notícias: “Meu querido filho. Estando a sair um navio para esta corte, não quis deixar de te escrever e te dar os parabéns do dia do teu nome, como o fiz o ano passado em Paris”. Seguia seus estudos e progressos, como se vê em cartas ao filho: “Vejo pelas tuas cartinhas […] e me convenço que tu fazes progressos. Duas cartas já escritas sem lápis e com tão linda letra”.

     Não foram poucas as cartas que D. Pedro escreveu, revelando a intensidade dos sentimentos, saudades e, como de praxe, orientações. O carinho dos apelidos – D. Pedro II era chamado de Nhonhô – não descurava da avaliação dos estudos:

“Porto, 4 de dezembro de 1832

“Meu querido filho e amadas filhas. Muito vos agradeço a vossa carta de 4 de agosto pela certeza que me dais de que felizmente gozais de perfeita saúde e por que me pedis notícias minhas. Eu estou bom, ainda que bastante fadigado com os trabalhos do corpo e do espírito que tenho tido, mas espero em Deus que um feliz resultado seja a paga de tantos incômodos. Muito sinto que não me digais alguma coisa relativa aos vossos estudos, mas penso que o motivo de assim não o fazerdes, não foi outro senão a pressa com que me escrevestes. É mister que dê os meus louvores à Januária pela boa escrita, e a Nhonhô e à Paula por terem feito seus nomes muito bem, tendo a desconsolação de ver que a Chiquinha não escreveu o seu também, como era para desejar. Espero que empregueis bem o tempo em que vos apliqueis aos vossos estudos como convém a pessoas tais que a Providência colocou em tão alta hierarquia […] Recebei, meu querido filho e amadas filhas, a benção que de todo o coração vos deita, vosso saudoso pai”.

         Depois do segundo casamento de D. Pedro, mesmo a pequena duquesa de Goiás continuou merecendo todos os cuidados do pai. Ele ocupou-se pessoalmente em escolher para ela um “convento de maior crédito” para sua educação. A abadessa foi instada a tomar “especial cuidado e educação de Sua Alteza”.  Ela ali ficaria internada “com a necessária decência, sem cair em qualquer extremo de ostentação ou mesquinhez”.

      Pais choravam a morte de seus filhos. Ao perder João Carlos, seu primeiro varão, durante os conflitos que tiveram lugar na Corte em fevereiro de 1822, D. Pedro escreveu ao pai, D. João VI: “No meio da tristeza, cercado de horrores”, informava o “golpe que minha alma e meu coração dilacerado sofreram”. E, acrescentava rancoroso, “A Legião (de soldados lusos) matou o neto de Vossa Majestade”. Ele, que pouco esteve ao lado da esposa, a imperatriz Leopoldina, por conta dos tumultos que iam a curso para a expulsão do exército português do Rio de Janeiro, “chorando muito, deu o último beijo, deitou-lhe a derradeira benção paterna”, vendo-o exalar o último suspiro. A José Bonifácio solicitou que dispusesse sobre o caixão do “querido filho” um epitáfio de seu próprio punho: “emende-o se não estiver bem”, pedia.

       D.Pedro, o “bom pai”, como afirmaram tantos biógrafos. Sim, pois o sentido da paternidade estava visivelmente em transformação. Passava-se do “pai tirano” ao “pai amante”. O jovem príncipe inspirava-se claramente deste novo princípio. Se durante o Antigo Regime eram comuns os pais que tratavam seus rebentos com brutalidade e ignorância, essa era a época dos laços de afeto e cuidados com os filhos. A paternidade deixava de ser pautada exclusivamente pelo sangue, pela linhagem, para consolidar-se como resultado de um desejo, de uma vontade. O homem deixava de ser simplesmente um genitor, para responsabilizar-se pelo amor à criança e o bem da família. Neste quadro, perder um herdeiro macho era fonte de luto e lágrimas. Pior, confirmava-se a maldição dos Bragança: primogênitos eram condenados a morrer. Rompia-se o sentido da linhagem.

      O jovem imperador, apesar do temperamento inconstante e complexo, nunca descurou dos filhos. Era capaz de passar noites medicando seus pequenos, dando-lhes xarope, ministrando-lhes sanguessugas, anotando diagnósticos. Contava até o número de “bichas” que os filhos deitavam.

  • Texto de Mary del Priore. Baseado em “Histórias da Gente Brasileira: Império (vol.2)”, LeYa, 2017.

O casamento de Pedro e Amélia. Ao lado do imperador estão seus filhos do primeiro casamento: Pedro, Januária, Paula e Francisca. (Debret).

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