D. Leopoldina, a mineralogia e um noivo muito especial

Publicado em 12 de setembro de 2015 por - História do Brasil

Antes de se tornar a primeira imperatriz do Brasil, a austríaca Leopoldina pedia ajuda aos anjos para que se casasse com “alguém especial”, um noivo que estudasse mineralogia. Extremamente culta, tinha planos também para o caso de não lhe arranjarem um marido: ser a primeira mulher a entrar na universidade para estudar a ciência que mais lhe encantava. E ainda se preocupava com os pudins e a dieta…Mais uma deliciosa carta do acervo Correios Instituto Moreira Salles.

Um noivo especial

De Maria Leopoldina para seu anjo da guarda.

Acreditava-se que na noite anterior ao ano-novo os anjos da guarda vinham à Terra para ouvir os pedidos dos seres humanos. O desejo que dona Leopoldina confidenciou a seu anjo seria atendido: ela se casaria com o imperador do Brasil, dom Pedro I, em 1817.

Palácio de Schönbrunn [Viena], 31 de dezembro de 1815

Querido anjo da guarda,

Primeiro quero expressar o meu agradecimento numa oração que Annony me ensinou a fazer: obrigada por 1815, por termos passado este ano com saúde e porque papai não precisou ir à guerra de novo com os seus soldados.

Agora, porém, vamos ao que interessa.

O fato de eu ainda não saber nada do meu destino deve-se, sem dúvida, a Deus querer me ensinar a ter paciência. No próximo ano essa lição deve ter chegado ao fim. Rogo-vos que isso aconteça.

Se Metternich[1] não encontrar um marido para mim, quero ter permissão para estudar mineralogia até saber tanto quanto o meu inteligente professor Schüch. Sei que até hoje nenhuma mulher jamais estudou mineralogia, pois as mulheres não podem entrar na universidade de modo algum – mas isso não será impedimento para mim! O que vai acontecer é que simplesmente serei a primeira a fazê-lo.

Também suplico fervorosamente a Deus que me livre dessa paixão por pudins e bolos variados, porque Lazansky não tem a menor piedade de mim. Ela aperta o meu espartilho o mais que pode, mesmo que me incomode e eu quase desmaie com falta de ar.

Peço também por Annony.[2] Ninguém precisa perceber que ela está mais fraca por estar envelhecendo. Às vezes Annony esquece as letras das músicas. Então cantamos mais alto na igreja. Outras vezes ela confunde os nomes e, durante a oração da noite, costuma dar uma breve cochilada. Aí eu deixo o meu livro de orações cair no chão, ou tusso. Portanto, ajudai-me sempre a pensar em algo que seja bom para Annony.

Esses são os meus pedidos para 1816.

Com relação ao pedido principal — o meu destino —, eu gostaria de vos dizer: realmente eu preferiria um noivo que estudasse mineralogia. Apenas isso, quero me casar com alguém especial! Estimulai Metternich a encontrar um noivo especial para mim. Por favor!

Gloria Kaiser. Um diário especial: Leopoldina, princesa da Áustria, imperatriz do Brasil. Rio de Janeiro: Reler, 2005, pp. 32-33.

[1] N.S.: Diplomata austríaco de origem alemã, o príncipe Klemens von Metternich (1773-1859) negociou o casamento de dona Leopoldina com dom Pedro I.
[2] N.S.: Francisca Annony foi fiel servidora desde a infância de dona Leopoldina, que a chamava de Bobó.

FONTE: Correios IMS.

leopoldina1imperador

A imperatriz já casada e com os filhos; D. Pedro I.

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5 Comentários

  1. Carolina disse:

    Adorei esse texto. Tenho grande interesse e admiração pela historia da imperatriz. Ela, de fato, foi notável, brilhante. Certamente teria sido uma das melhores alunas da universidade. Pena que nem no Palácio de Schonbrunn a figura da Leopoldina tenha o devido valor.

  2. Um texto cheio de ternura e beleza. A História agradece. Parabéns!

  3. Iolanda Figueiredo disse:

    So good to know she was so in love with attending School. I like to believe she would have been the first to enter a University.
    Great woman!

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