CULTURA AFRICANA, PROJETOS INTERDISCIPLINARES E IDENTIDADE CULTURAL

Publicado em 21 de novembro de 2014 por - Educação

Negra, afrodescendente ou afroamericana. Independentemente da forma como a chamamos, a herança africana, que enriquece em sua totalidade a cultura brasileira, Ela, como todo patrimônio histórico e cultural, busca resistir ao tempo e àqueles que insistem em negá-la ou minimizar sua importância. Resistência essa tão louvável e guerreira quanto aquela dos escravos africanos que em mais de 300 anos de cativeiro nunca deixaram de sonhar com a liberdade.

Se essa é uma luta é pela preservação da memória de toda uma nação, que lugar melhor para começá-la do que a escola?

Instrumentos legais não faltam. A Lei 11.645/08, de 10 de março de 2008, incluiu no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena”. Infelizmente, nem todos cumprem as determinações da lei. Há aqueles, contudo, que vão muito além do que é legalmente regulamentado e abrem espaço para a cultura africana nas escolas.

Se o ensino do conteúdo presente nos livros didáticos e recomendado pelos PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais) oferece a base teórica, temos atividades de extensão trazem a vivencia, a prática. É a preservação da memória lado a lado com o ensino da cultura.

É assim que vejo algumas atividades realizadas em uma das escolas onde leciono. Uma delas em especial: o grupo de dança Pérola Negra. Composto por 35 crianças e adolescentes. Em sua maioria negros e mulatos, esse grupo foi fundado há poucos anos, mas vem mostrando que a cultura popular pode ser uma poderosa aliada da educação.

É uma lição de preservação da memória e da cultura afroamericana através da dança e da música. Talvez essas crianças não tenham ainda ideia da importância do que estão fazendo. Talvez não tenham consciência do que estão aprendendo. Mas isso é um detalhe, o que interessa são os resultados e o retorno que a comunidade tem.

Citei essa iniciativa, próxima da minha realidade, para ressaltar a importância dos projetos de extensão, que avançam para além das salas de aula e cujos resultados ou produtos são compartilhados pela comunidade. Participei de uma reflexão sobre esse tema recentemente, e imediatamente pensei em como a educação patrimonial pode tirar proveito de iniciativas que envolvam a escola e sua comunidade.

Se existe uma lei que reforça o ensino de cultura africana e indígena nas escolas, nos falta, talvez a habilidade de interpretá-la de uma forma mais criativa e abrangente. Como o já citado grupo, formado por crianças e adolescentes. Através de projetos interdisciplinares e de extensão podemos promover e disseminar o aprendizado, tanto da cultura, quanto da noção de patrimônio e da sua preservação.

O ensino não precisa estar preso entre quatro paredes. Ele deve transcender os muros das escolas. Acho que devemos refletir mais sobre isso. Pensar de que forma podemos levar o aprendizado da cultura africana e da educação patrimonial para espaços onde atualmente ela está ausente ou desacreditada.

É sempre bom lembrar que a cultura africana, assim como a indígena e a européia, é um dos elementos formadores da nossa identidade nacional. Embora muitos brasileiros só gostem de louvar essa identidade ou essa herança em ocasiões festivas, ela é muito maior que isso. Não acho que seja possível falar sobre o negro na história do Brasil como algo apenas do passado. Embora se busque no passado elementos que justifiquem ações do presente, é nele que nossa identidade é construída a cada dia.

Para finalizar, gostaria de citar o trecho de uma aula que eu dei esta semana. Nele, nós falamos sobre o fato do escravo africano receber um nome cristão quando era embarcado nos navios negreiros. Um nome que não tinha nenhum significado para ele, mas que tinha o propósito de apagar sua memória. Ele era expropriado da sua identidade, afastado de suas raízes culturais.

É nossa herança cultural que faz de nós o que somos. É ela que dá sentido ao que fazemos. Vamos pensar também sobre isso e em nós mesmos como um patrimônio, construído a partir da experiência de inúmeras gerações e em permanente mudança.

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 Apresentação do Grupo Pérola Negra (Leopoldina – MG)

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