Crimes passionais: “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”

Publicado em 22 de julho de 2016 por - artigos

           Na série jornalística “No jardim do crime”, publicada na Gazeta de Notícias, João do Rio relata sua visita à Casa de Detenção da capital, onde entrevista “assassinos por amor”. Ouve Salvador Firmino, negro sexagenário, que lhe conta como matou Silvéria, por quem deixara sua mulher e a qual o deixara por certo Herculano. Ouve Abílio Sarano que lhe declara de chofre, “matei minha mulher”. Era o personagem do Crime do Catete; “[…] dias depois de nosso casamento minha esposa confessou-me que tinha sido gozada por um negociante amante de sua mãe”. Ouve Alfredo Paulino, que se casara aos 16 anos e matara o rival em sua própria casa. Entrevista Herculana que, depois de insultada — “ele me disse uma porção de nomes” — cortara a garganta do amante enquanto esse dormia, acendera todas as velas que encontrara e começara a cantar. E conclui o jornalista: “Com os corações em sangue, vi uma coleção de assassinos, desde um velho lamentável até uma criança honesta, postos fora da sociedade pelo desvario, pela loucura que a paixão sopra no mundo”.

           Entre os crimes passionais, o mais debatido era o cometido como reação ao adultério. Apoiado na tradição machista e patriarcal, o crime seria predominantemente masculino. Nessa tradição, honra manchada lavava-se com sangue. Já o adultério masculino normalmente provocava acomodação por parte das mulheres, em especial nas camadas médias e burguesas, temerosas de uma ruptura que as obrigasse a mudar de vida. Entre nós, de acordo com o Código Penal de 1890, só a mulher era penalizada e punida por adultério, com prisão celular de um a três anos. O homem só era considerado adúltero no caso de possuir concubina teúda e manteúda, e isso era considerado um assunto privado. E mesmo assim…

             Veja o leitor esse exemplo, acontecido na capital em 1913: Certo Raul Machado, 30 anos, casado, pai de família, vai jantar na casa de sua amante, Ermelinda Lucila de Almeida, de 25 anos e casada. O repasto é interrompido pela chegada abrupta da mulher de Raul: Maria Augusta de Brito Machado. Enfurecida, ela quebra a mesa do jantar e passa a ser agredida por marido e amante. No depoimento que deu à Polícia, Raul se justificou: “Que sua amásia levantou-se e correu para a sala da frente e ele depoente procurou segurar e subjugar a sua senhora, a fim de que ela não quebrasse toda a louça. Que esta vendo-se segura gritou por socorro, acudindo grande massa de povo no jardim da casa. Que um dos praças (guardas) convidou-o a vir a esta delegacia. […] atribui o ferimento de sua esposa a um fragmento de louça ou a haste do guarda-chuva.” Apesar de Ermelinda ter afirmado ter sido agredida, mostrando as marcas que lhe deixara a amante do marido, e embora uma testemunha tivesse visto Raul espancá-la, ele é absolvido, reconhecendo a Justiça o caráter privado da questão.

           Adultério masculino era sinônimo de problema de foro íntimo; o feminino, de crime e escândalo. A fidelidade continua bem diferente para ele e ela. Obrigatória para a mulher, era impossível de ser mantida pelo homem cuja sexualidade era excessivamente exigente, não admitindo perder uma única oportunidade de “sedução”. Esperava-se compreensão diante de tais deslizes e pecadilhos por parte das esposas. Se, para os homens, o livre exercício da sexualidade era incentivado, entre as mulheres, era condenado. A “pureza” era tudo.

  • Texto de Mary del Priore. “História do Amor no Brasil”(Editora Contexto, 2005).

Arrufos

“Arrufos”, de Belmiro de Almeida.

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