Crimes de amor

Publicado em 25 de maio de 2014 por - História do Brasil

Conheça um trecho do capítulo inédito de Mary del Priore sobre a violência contra as mulheres. A obra, organizada pela escritora em parceria com o historiador Gian Carlo, será lançada pela editora Unesp no próximo ano e contará com artigos de diversos autores.

Sobre as mulheres de elite, vigorava a antiquíssima lei de “defesa da honra” masculina.  No início do século XX, no Rio de Janeiro, um crime passional encheu as páginas dos jornais: o estudante de Direito Luís de Faria Lacerda assassinou a tiros o médico João Ferreira de Moraes e feriu gravemente a jovem viúva, ClimeneBenzanilla. O já famoso advogado Evaristo de Moraes conseguiu junto ao réu, cartas que comprometiam a “honestidade” de Climene e o resultado se guiou pelos convencionalismos de época. O réu foi absolvido, considerando “a exarcebação amorosa elevada ao paroxismo”, ou seja, sua alienação mental teria sido provocada pelo mau comportamento da viúva.

Marcado pela eleição direta e o suicídio de Getúlio Vargas, entre 1950 e 1954, o Brasil viveu um período de ascensão da classe média. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, o país assistiu, ao crescimento urbano e à industrialização sem precedentes, que conduziram ao aumento das possibilidades educacionais e profissionais para as mulheres. Mas as mudanças não tinham atingido as mentalidades. Distinções entre papéis femininos e masculinos continuavam nítidas; a moral sexual diferenciada permanecia forte; e o trabalho da mulher, ainda que cada vez mais comum, era cercado de preconceitos e visto como subsidiário ao trabalho do “chefe da casa”. Na prática, a moralidade favorecia as experiências sexuais masculinas, enquanto procurava restringir a sexualidade feminina aos parâmetros do casamento convencional.

Durante os chamados “Anos dourados”, mantendo a velha regra da submissão feminina, os homens preferiam as recatadas, capazes de se enquadrar nos padrões da “boa moral” e da “boa família”.  Fora desses padrões havia os “párias”,que teriam optado por uma novidade: o desquite. Este era coisa recente. Foi introduzido no Código Civil em 1942, estabelecendo a separação sem dissolução do vínculo matrimonial. E o desquite só admitia processo quando havia indicações constrangedoras, do tipo: adultério; tentativa de morte; sevícia ou injúria grave; abandono voluntário do lar por mínimos dois anos contínuos.

Outro quesito: a reputação de boa esposa e de mulher ideal. Quem era esta? A que não criticava, que evitava comentários desfavoráveis, a que se vestisse sobriamente, a que limitasse passeios quando o marido estivesse ausente, a que não fosse muito vaidosa nem provocasse ciúme no marido. Jamais se deveria discutir por questões de dinheiro; aliás, o melhor era não discutir por nada. A boa companheira integrava-se às opiniões do marido, agradando-o sempre, aconselhava o Jornal das Moças em outubro de 1955.

Brigas entre o casal? A razão era sempre do homem. Mas, se razões houvesse, melhor para as mulheres resignarem-se em nome da tal felicidade conjugal. A melhor maneira de fazer valer sua vontade era a esposa usar o “jeitinho” – assim, o marido cedia, sem o saber. E,ainda mais importante, sem zangar-se. Nada de enfrentamentos, conversa entre iguais ou franqueza excessiva. Nada de ser “exigente ou dominadora”; o melhor era sempre colocar o marido em primeiro lugar. O “temperamento poligâmico” dos homens justificava tudo: “mantenha-se no seu lugar, evitando a todo o custo cenas desagradáveis que só servirão para exacerbar a paixão de seu marido pela outra”. A imprensa não mencionava com a mesma ênfase, os problemas decorrentes da violência conjugal.

Nessa época, algumas conquistas:foi criado e aprovado no dia 27 de agosto de 1962, o Estatuto da Mulher casada, que garantiu entre outras coisas que a mulher não precisava mais de autorização do marido para trabalhar, receber herança e em caso de separação, requerer a guarda dos filhos. Conquista mínima, pois aagressão doméstica prosseguia. Casadas com os primeiros namorados, muitas desconheciam a fera por trás do príncipe encantado. Moças que haviam crescido em ambiente violento, com pais alcoólatras e mães submissas tendiam a repetir o padrão, aceitando a violência do cônjuge. Pior, mães frustradas batiam nos filhos que reproduziriam, por sua vez, a violência com seus pares. A tortura psicológica feita de humilhações, insultos e gritos era o desfecho dos conflitos que envolviam as que não seguiam os conselhos do Jornal das Moças. As que não tinham liberdade econômica eram obrigadas a engolir sapos e viver na dependência deles. Príncipes se desvaneciam no ar!

A década, porém, foi marcada por outro escândalo: o caso Dana de Teffé. Bailarina e com a pecha de espiã durante a guerra, Dana, uma austríaca de origem judaica, se tornou milionária ao casar-se com um descendente do barão de Teffé, o embaixador brasileiro Manuel de Teffévon Hoonholtz. Moradora do Rio de Janeiro, Dana separou-se do marido e contratou o advogado Leopoldo Heitor de Andrade Mendes, para cuidar de seus interesses.Uma possível relação amorosa seguida de uma viagem em que a mulher desapareceu fez explodir o escândalo. Leopoldo que, munido de uma falsa procuração, ter-se-ia apossado dos bens de sua cliente, alegava terem sido sequestrados e Dana… desaparecido. Preso, Leopoldo fugiu até ser recapturado. A condenação do primeiro julgamento foi anulada e, num segundo julgamento, ele obteve absolvição. O motivo: a falta do corpo. De fato, o corpo de Dana nunca foi encontrado.  – Mary del Priore.

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Condenação anulada pela falta do corpo.

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