Crianças perversas, pais arrogantes

Publicado em 16 de abril de 2015 por - Educação

Publicamos hoje, na seção “Professor: queremos ouvir sua história”, mais um relato impressionante das terríveis situações a que são submetidos os nossos educadores. Desta vez, uma jovem professora, que prefere não se identificar, nos mostra o lado mais sombrio das salas de educação infantil, com crianças fora do controle e pais completamente desorientados. Uma realidade cheia de humilhações, violência e medo.
Sou estudante de Pedagogia. Durante o estágio remunerado, já vivenciei agressões físicas e verbais por parte dos alunos.Durante um semestre, convivi com um garoto de seis anos com transtornos de comportamento. A criança fugia da sala, saía correndo pela escola e fazia ameaças do tipo “vou cortar sua cabeça” “vou enfiar uma faca na sua barriga” “vou socar sua cara até sangrar”. Tratava-se de uma criança muito perversa, que machucava as outras só para se divertir. Ele continua matriculado na educação regular.

Uma vez, outra criança começou a me chutar, a despeito da advertência da professora. Olhava para a professora, olhava para mim, e continuava me chutando. Tudo isso porque impedimos que batesse em uma colega e que saísse correndo da sala.

Já fui chamada de idiota, de gorda, de baleia pelas crianças.

Já presenciei, em uma escola, pai de aluno gritando com a professora e com a coordenadora. Ao não concordar com a média das notas, o pai gritava: “sou engenheiro, sei fazer conta! Quero uma explicação”.

Já vi crianças da Educação Infantil que passaram por mais de três escolas. Alunos de 4, 5 anos que já tinham trocado de escola tantas vezes… E por motivos fúteis e que até mostram a ignorância das famílias:

  • porque ficavam brincando o tempo todo (a brincadeira faz parte do desenvolvimento infantil e prepara a criança para a alfabetização e para o aprendizado de outros conteúdos, fato comprovado cientificamente desde o início do século passado através de trabalhos científicos como os de Piaget e Vygotsky);
  • porque a professora não trocava a fralda ou dava comida na hora que a família mandava (na escola todas as crianças tem seus horários ajustados para que façam as atividades em grupos e isso é feito gradualmente, sem maltratar a criança);
  • porque os filhos não eram alfabetizados na Educação Infantil (a alfabetização é um processo que tem início com a escrita ideográfica — desenhos — e continua no Ensino Fundamental, com base nos conhecimentos científicos sobre o desenvolvimento infantil. Não se cobra escrita correta de crianças com menos de 6, 7 anos e cada uma tem o seu tempo para aprender. A alfabetização e o letramento são processos que acontecem tanto na escola quanto no contato que a criança tem com a linguagem escrita no dia a dia. Pedagogas estudam bem esses processos e sabem fazer avaliações diagnósticas, preparando atividades adequadas para cada faixa etária, de acordo com o conhecimento científico que possuem, o conhecimento sobre a legislação vigente e os documentos norteadores publicados pelo MEC – RCNEI e PCN).

Acho que seria importante dar voz às professoras da Educação Infantil e dos anos iniciais do Ensino Fundamental. Falar sobre a feminização do magistério e do preconceito contra as docentes e sua forma de inserção no mercado de trabalho. Discutir a violência contra as professoras por parte das famílias, das crianças e do Estado (balas de borracha e spray de pimenta nas greves). Abordar o trabalho docente, o uso de jogos e brincadeiras na Educação,o currículo da formação docente (extremamente amplo e difícil), o fato de que as professoras não conseguem mais estudar quando começam a lecionar por falta de tempo e dinheiro, as imposições dos movimentos sociais no currículo escolar associada à falta de uma formação docente de qualidade e com respeito pela prática e experiência das professoras, e ainda a judicialização da Educação (processos movidos contra a escola e contra as professoras).

 Mande seu relato para o nosso blog: historia.hoje@bol.com.br . Participe! 

teaparty

 A infância nem sempre é doce. (“Tea Party”, Museu de Londres).

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3 Comentários

  1. Paulo Santos Freitas Júnior disse:

    Concordo que situações como a apresentada pela respeitada professora estejam se tornando rotinas nas escolas, sejas elas públicas ou particulares, mas culpabilizar a família não resolverá o problema. Ao contrário, o tornará ainda mais grave. Penso que a escola e, com ela seus educadores, devem criar estratégias para ter a família (tenha ela a estrutura que tiver) como parceira, estando aberta ao diálogo, travando um debate democrático, ético, respeitoso, sério e técnico sobre temas que se refletem na escola, mas que são produtos da sociedade contemporânea (discriminação contra todas as diferenças, uso abusivo de drogas, violência de todos os tipos). Devem participar deste debate e construção de estratégias além de profissionais especializados (Assistentes Sociais, Pedagogos, Pscólogos, etc), Secretários de Educação, representantes do Ministério Público, do Juizado da Infância, dos Conselhos de Direitos e Tutelares e, apartir dai, construir mecanismos legais (um regimento interno, por exemplo) que respaldem a escola e os professores em suas ações, sem que o direito de TODOS à educação seja violado.

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